Em mais uma revolução da IA, a tecnologia se tornou aliada da reprodução assistida
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A inteligência artificial revoluciona a reprodução assistida, otimizando a seleção de embriões e aumentando o sucesso da fertilização in vitro. Conheça a história de Suellen, que teve seu segundo filho de forma mais rápida e segura graças à IA, e entenda como a tecnologia transforma o sonho da maternidade.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
O sonho de ser mãe sempre esteve nos planos da advogada Suellen Prado Vecchi, de 39 anos — mas o caminho da sua realização foi mais longo do que imaginava. Há três anos, quando ainda namorava o atual marido, ela engravidou naturalmente. A gestação foi tubária e precisou ser interrompida. Seis meses depois, preocupada com o relógio biológico, recorreu à fertilização assistida. Queria ter mais de um filho e “não havia tempo a perder”. Depois de um ano de muita ansiedade, um custo de 122 000 reais e a implantação de quatro embriões, Suellen engravidou de Giovanni. Quando o primogênito comemorou o primeiro aniversário, ela voltou à clínica para providenciar o segundo filho. Dessa vez, contudo, uma novidade tecnológica tornou o processo mais rápido e seguro: o uso da inteligência artificial (IA) como ferramenta capaz de otimizar a seleção dos embriões. Em seis meses e a um custo menor (80 000 reais), ela engravidou de Daniel, que nasceu saudável como o irmão, e está com 6 meses de vida.
DESEJO REALIZADO – Suellen com Daniel, de 6 meses, o segundo filho que nasceu com a ajuda da fertilização assistida: a nova técnica reduziu pela metade a jornada para conseguir engravidar, além de baratear o processo. (Bruna Figo/.)
A experiência de Suellen reflete uma transformação silenciosa nas clínicas de reprodução assistida. A inteligência artificial passou a integrar etapas críticas da fertilização in vitro, especialmente na seleção de óvulos e embriões. Com base em grandes bancos de dados e milhares de imagens, algoritmos identificam padrões invisíveis ao olho humano, avaliando características morfológicas e estruturais associadas ao maior potencial de desenvolvimento dos bebês. Na prática, isso permite que embriologistas escolham, com mais precisão e menos subjetividade, quais embriões têm maior probabilidade de resultar em uma gestação bem-sucedida. “A nova tecnologia puxa para cima a média de sucesso nacional da reprodução assistida”, diz Edson Borges, diretor científico e sócio do FertGroup, a maior rede de clínicas de medicina reprodutiva do país, que incorporou a IA à rotina de seus processos de fertilização assistida.
A técnica propriamente dita não mudou. A base continua sendo a ICSI (do inglês Intracytoplasmic Sperm Injection), na qual um único espermatozoide é injetado diretamente num óvulo maduro com o auxílio de um micromanipulador acoplado a um microscópio de alta precisão. Em seguida, o material é colocado nas novas incubadoras de última geração, presentes nas melhores clínicas de fertilização assistida do mundo. Equipado com tecnologia time-lapse, o aparelho registra imagens automáticas a cada dez minutos, criando um vídeo contínuo do desenvolvimento embrionário.
EXATIDÃO - Especialista confere a análise da IA: programa detecta detalhes que escapam ao olho humano (Alain Denantes/Gamma-Rapho/Getty Images)
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Isso evita que o material tenha de ser retirado para análise, como acontecia antes, reduzindo riscos de manipulação que podem avariar o material coletado. O advento do uso da IA não só amplia a possibilidade de sucesso nesse processo delicado: é uma garantia a mais de que o embrião será saudável. A ferramenta consegue detectar eventuais alterações no número de cromossomos, que levam a síndromes como a de Down, decorrente de uma cópia extra do filamento 21. Há ainda a possibilidade de testes genéticos para doenças hereditárias. “As imagens geradas são analisadas pela IA, que estima as chances para a formação do embrião e se ele apresenta o número correto de cromossomos”, explica a embriologista Renata Ferreira.
MARKETING - Propaganda nos Estados Unidos: promessa de crianças mais inteligentes e longevas (Nucleus/Divulgação)
Em clínicas ao redor do mundo, o uso de algoritmos avança para análises cada vez mais detalhadas. A plataforma americana Nucleus Genomics anuncia ter desenvolvido um software capaz de mapear o perfil genético completo dos embriões e avaliar o risco para até 900 condições, como diabetes, câncer e doenças cardíacas. Também acena com a possibilidade de os pais saberem de características como potencial cognitivo e longevidade. “O Nucleus Embryo ajuda os pais a oferecer a seus filhos o melhor começo de vida possível”, diz a empresa nas redes sociais. Ao transformar probabilidades genéticas em critério de escolha, a iniciativa reacende velhos (e relevantes) debates éticos sobre a tentativa de criar humanos diferenciados. Felizmente, esse uso algo distópico da IA ainda não é tão efetivo, dizem os especialistas. “É mais marketing que realidade”, afirma Celso Camilo, professor associado de IA da Universidade Federal de Goiás. O que há de concreto — e positivo — é que a tecnologia está ajudando muitas pessoas a realizar o desejo de ter filhos.
Publicado em VEJA de 24 de abril de 2026, edição nº 2992










