SAÚDE E BEM ESTAR

Dia dos Namorados: ‘é possível amar mais de uma pessoa’, diz psicanalista

Regina Navarro Lins, psicanalista, escritora e autora de 14 livros sobre relacionamento amoroso, faz uma provocação neste Dia dos Namorados: para ela, a data reforça uma visão ultrapassada sobre o amor. Em conversa com a coluna GENTE, Regina afirma que a ideia de amor verdadeiro ligada à exclusividade sexual e afetiva é uma construção social — e uma das principais fontes de sofrimento nas relações.
“O amor é uma construção social. Estudando a história, se percebe que em cada período se apresenta de uma forma”, diz. Segundo ela, o chamado amor romântico ganhou força nas relações a partir dos anos 1940, incentivado especialmente pelos filmes de Hollywood. “Esse amor é muito equivocado. Ele prega que os dois têm que se transformar em um só, que nada mais vai lhes faltar, que um vai ter todas as necessidades atendidas pelo outro. E prega uma coisa terrível, que gera muito sofrimento, quando diz que quem ama não se interessa por mais ninguém”.

Para Regina, também pesa sobre a cobrança cultural de estar em um relacionamento. “A nossa cultura condicionou as pessoas desde cedo que é fundamental ter um par amoroso, que, se não tiver um par amoroso, você está perdendo a vida, desperdiçando-a. Então, Dia dos Namorados é para comemorar essas crenças equivocadas da nossa cultura”, diz.
A escritora defende que é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo — ideia que, segundo ela, ainda causa incômodo por contrariar a noção tradicional de casal. “Claro que é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, não só uma. É possível amar duas, três. A gente ama vários filhos, vários amigos, mas, na hora das relações amorosas e eróticas, as pessoas se sentem obrigadas a fazer uma escolha. O que a gente observa hoje é que existe um grande número de pessoas que desejam partir para a não monogamia. Esse número vem crescendo e acredito que vai chegar um dia que vai predominar.”

Regina também critica o modelo de relacionamento baseado em controle, ciúme e posse. “O modelo de casamento, de relações amorosas na nossa cultura, é péssimo. É um modelo calcado no controle, na possessividade, no ciúme e no desrespeito à individualidade do outro”, diz. Para ela, muitos sinais de posse aparecem no cotidiano, quando uma pessoa considera natural interferir na vida da outra.

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A autonomia feminina, segundo a psicanalista, também mudou a forma de amar — mas ela faz uma distinção entre independência financeira e autonomia emocional. “Existem mulheres que ganham dinheiro, podem se sustentar sozinhas em alto nível, mas não têm autonomia, porque estão sempre tentando ajustar a sua imagem às exigências e necessidades dos homens”, afirma. Para este Dia dos Namorados, Regina propõe uma reflexão simples: “Para uma relação a dois ser saudável, é fundamental que haja um respeito total pelo outro, seu jeito de viver, seu jeito de pensar, suas ideias, seu jeito de se comportar. Que não haja controle algum da vida do outro. E o principal: que não haja ciúme.”
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