Dor pélvica crônica: medicina precisa mudar o olhar e as ferramentas
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A dor pélvica crônica, que atinge até 25% das mulheres, é um desafio de subdiagnóstico. A neuromodulação do gânglio da raiz dorsal (DRG) emerge como uma esperança, agindo na raiz neuropática da dor com resultados promissores. Contudo, o acesso a essa tecnologia ainda é uma barreira no Brasil.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
A dor pélvica crônica é, talvez, uma das expressões mais evidentes de como a medicina ainda falha quando o tema é saúde feminina. Não por falta de conhecimento, mas por um histórico de subdiagnóstico, invisibilidade clínica e, sobretudo, atraso na incorporação de abordagens mais sofisticadas para o tratamento da dor.
Definida como a dor que persiste por mais de seis meses além do período esperado de cicatrização, essa condição frequentemente ultrapassa o campo ginecológico tradicional. Em muitos casos, o problema já não está no órgão — mas em uma complexa rede do sistema nervoso envolvida na modulação da dor —. É justamente nesse ponto que se inicia um dos maiores equívocos na condução dessas pacientes.
Durante décadas, mulheres com dor pélvica persistente foram submetidas a sucessivas tentativas terapêuticas — medicamentos, fisioterapia, novas cirurgias — sem que se considerasse, de forma estruturada, o componente neuropático da dor. A consequência é um ciclo de sofrimento prolongado, com impacto direto na qualidade de vida, na saúde mental, na produtividade e nas relações sociais e familiares.
Os dados ajudam a dimensionar esse cenário. A dor pélvica crônica representa cerca de 10% das consultas ginecológicas e pode atingir até 25% das mulheres. Em paralelo, o próprio Ministério da Saúde aponta que a dor crônica afeta até 40% da população adulta brasileira, sendo mais prevalente entre mulheres, um indicativo claro de que estamos diante de um problema de saúde pública ainda subestimado.
É nesse contexto que a neuromodulação do gânglio da raiz dorsal (DRG) emerge como uma mudança de paradigma. Diferentemente das abordagens convencionais, que focam predominantemente na origem periférica da dor, a neuromodulação atua diretamente na forma como o estímulo doloroso é transmitido pelo sistema nervoso.
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Trata-se de uma tecnologia minimamente invasiva, baseada na implantação de um dispositivo capaz de emitir estímulos elétricos de baixa intensidade, modulando os sinais dolorosos antes que sejam interpretados pelo cérebro.
É uma tecnologia já validada internacionalmente, com sistemas aprovados por órgãos regulatórios internacionais de alto rigor, reforçando a segurança e a consistência dessa abordagem em cenários clínicos bem indicados.
Na prática, estudos demonstram reduções significativas da dor — em alguns cenários superiores a 80% — associadas à melhora consistente em escalas específicas de avaliação clínica. Dados de estudos multicêntricos também apontam alívio sustentado da dor em parcela significativa dos pacientes ao longo de 12 meses, reforçando o potencial da neuromodulação como estratégia terapêutica em casos selecionados.
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Esse cenário ganha ainda mais relevância quando se considera que uma proporção expressiva de mulheres pode evoluir com dor crônica após intervenções ginecológicas, mesmo quando realizadas com técnica adequada — evidenciando o papel do componente neuropático e a necessidade de abordagens mais direcionadas ao sistema nervoso —.
A indicação desse tipo de tratamento segue critérios rigorosos descritos na literatura internacional e por sociedades científicas como a International Association for the Study of Pain e a European Association of Urology, incluindo falha dos tratamentos convencionais, presença de componente neuropático e impacto significativo na qualidade de vida. Ainda é uma área em evolução, que demanda integração entre especialidades e produção científica contínua.
Condições como dor pós-operatória persistente, dor perineal, vulvodínia, neuralgias e síndromes neuropáticas do assoalho pélvico estão entre aquelas que mais podem se beneficiar dessa abordagem.
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Ainda assim, há um ponto crítico a ser enfrentado: o acesso. Apesar do reconhecimento internacional e dos resultados consistentes, a neuromodulação ainda não está amplamente disponível na rede pública brasileira. Isso cria uma lacuna preocupante entre o que a ciência já é capaz de oferecer e o que, de fato, chega às pacientes.
Recentemente, durante o 17º Congresso Brasileiro de Estereotaxia e Neurocirurgia Funcional, foi realizado um treinamento multidisciplinar em neuromodulação avançada, um reflexo claro de que a medicina caminha, cada vez mais, para uma abordagem integrada da dor. Neurocirurgiões, ginecologistas, anestesiologistas e especialistas em dor trabalhando de forma conjunta deixam de ser exceção e passam a ser necessidade.
Essa integração é, aliás, um dos pilares para o futuro do tratamento da dor pélvica crônica. Não se trata apenas de tecnologia, mas de mudança de mentalidade.
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É preciso reconhecer que dor persistente não é normal e não deve ser naturalizada. A paciente precisa ser acolhida de forma integral, incluindo atenção às dimensões emocionais e de saúde mental. E, sobretudo, não pode continuar sendo submetida a estratégias terapêuticas já esgotadas diante da complexidade do quadro. A perspectiva atual é o tratamento multimodal, individualizado e baseado em evidências.
A boa notícia é que já não estamos mais no mesmo ponto de partida. A ciência avançou. A tecnologia existe. O conhecimento se expandiu e, com ele, a possibilidade de um olhar mais amplo e resolutivo. O desafio, agora, é garantir que essa evolução chegue, de fato, às mulheres que ainda sofrem em silêncio.
*Samantha Condé Rocha Rangel é ginecologista e uroginecologista, doutora pela Unicamp e atual presidente da Academia de Medicina do Rio de Janeiro










