Transtorno de jogos de azar já é um problema de saúde pública
Longe de serem apenas uma inocente forma de diversão, as apostas online – as populares bets – e, sobretudo, os caça-níqueis virtuais já se tornaram uma questão de saúde pública, rivalizando em gravidade com a dependência de álcool e de tabaco. A combinação de acesso fácil via celular com publicidade maciça criou um ambiente propício para o aumento no número de jogadores frequentes e, consequentemente, para o surgimento de um maior contingente de pessoas em risco de desenvolver um distúrbio que impacta tanto a saúde mental como a vida familiar e social, levando a desfechos imprevisíveis.
Em 2013, com a edição do DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), o transtorno de jogos de azar (gambling disorder) foi equiparado às dependências químicas. Em 2022, a CID-11 (Classificação Internacional de Doenças), da OMS (Organização Mundial da Saúde), reconheceu oficialmente a existência do transtorno de jogos eletrônicos, entre os quais as apostas online. Embora o comportamento compulsivo associado ao jogo seja conhecido há tanto tempo quanto o alcoolismo, a ciência demorou a superar a controvérsia em torno da ideia de associar dependência a algo que não fosse uma substância. O vício em jogo era considerado um desvio de caráter, visto muito mais como uma questão moral do que como um problema de saúde.
O reconhecimento científico do problema veio quando pesquisas em neuroimagem mostraram que o cérebro de pessoas com compulsão por jogo ativa os mesmos circuitos de recompensa envolvidos em dependência de álcool, cocaína e opioides. Ainda assim, como os cassinos eram restritos e proibidos em vários países, a prevalência de comportamento problemático era menor, então o tema não tinha peso epidemiológico. A situação se modificaria radicalmente com a chegada da internet e, mais ainda, com a popularização dos smartphones. Com os jogos disponíveis 24 horas por dia no celular, milhões de pessoas se tornaram jogadores online.
O Lenad III (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas), estudo realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que passou a recolher dados sobre transtorno de jogos, revelou, no fim de 2025, que quase 11 milhões de brasileiros (7,3% da população) apresentavam comportamento de risco ou problemático em relação a jogos e que, em 1,4 milhão de pessoas, já eram perceptíveis sintomas de transtorno do jogo, cuja principal característica é a perda de controle mesmo diante de prejuízos financeiros e de outros impactos na vida social.
Embora a pesquisa mostre que as loterias físicas ainda são a opção da maioria dos brasileiros que jogam, os sites de apostas esportivas já contam com a adesão de 9 milhões de pessoas (5,6% da população total), o que faz acender um sinal de alerta, pois 66,8% desse grupo específico já apresenta comportamento de risco, problema que, entre os demais jogadores, atinge 26,8%. As cifras são eloquentes e se explicam pelas características das plataformas digitais: além da facilidade de acesso, os sites oferecem diversos recursos, como a repetição rápida, que suprime o tempo de reflexão, ou o cash out, que dá ao jogador a sensação ilusória de estar no controle. Na prática, os aplicativos, que estão efetivamente no comando da situação, estimulam padrões compulsivos. Um apostador contumaz da “Mega Sena” ou um comprador semanal de bilhetes de loteria, por exemplo, têm relação muito diferente com o jogo, sobretudo em razão do tempo de espera pelos resultados.
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O risco começa a se evidenciar quando o jogador aposta mais do que pretendia, passa a ter prejuízos leves ou moderados, sente ansiedade ou culpa depois de apostar e, principalmente, quando entra no círculo vicioso de jogar mais para tentar recuperar perdas. Nessa fase, em geral, já negligência alguns compromissos. Quando evolui, o transtorno leva à perda total do controle sobre o ato de apostar: à semelhança do que ocorre com usuários de drogas, que precisam aumentar a dose consumida para sentir prazer, as apostas se tornam cada vez maiores para que se mantenha a relação risco-recompensa do início. O endividamento e a mudança nas relações familiares, com a tentativa de esconder o problema, são típicos dos quadros mais graves.
Os grupos mais vulneráveis, segundo o levantamento da Unifesp, são os usuários de plataformas digitais, os adolescentes e as pessoas com renda inferior a um salário-mínimo. Algumas medidas já foram tomadas, como a proibição de que menores de 18 anos se cadastrem ou joguem em qualquer plataforma de apostas a dinheiro, o bloqueio de publicidade de bets direcionada a crianças e adolescentes e a restrição a que beneficiários do Bolsa Família mantenham contas em sites de aposta.
Esta última medida foi tomada depois que um relatório, divulgado em 2024 pelo Banco Central, mostrou que essa população, economicamente vulnerável, tinha destinado R$ 3 bilhões às bets no mês de agosto do mesmo ano, quando o programa social como um todo distribuiu R$ 14,12 bilhões. O caso chegou ao STF (Supremo Tribunal Federal), que decidiu vetar o acesso dos beneficiários de programas sociais aos sites de apostas. Segundo dados do Lenad III, indivíduos com renda inferior a um salário mínimo correm três vezes mais risco de apresentar um padrão de jogo de risco ou problemático.
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Hoje, os números nos mostram que o fenômeno rapidamente ganhou grandes proporções – e o SUS tem de se atualizar para enfrentá-lo. Ainda faltam protocolos consolidados de triagem, diagnóstico e tratamento, e, além disso, a maioria dos profissionais não tem formação adequada para lidar com esse tipo de transtorno. Os Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas (CAPS-AD) foram criados para tratar dependência de substâncias, não distúrbios de comportamento.
Apesar do cenário desafiador, o Ministério da Saúde anunciou recentemente a criação do primeiro serviço de teleatendimento do SUS voltado ao vício em apostas. Foi desenvolvido um autoteste, possivelmente baseado no protocolo PGSI (Problem Gambling Severity Index), que permite medir a gravidade de comportamentos problemáticos de jogo e classificar o nível de risco do usuário. Feita a triagem, a pessoa é encaminhada para teleconsultas com psicólogos e outros profissionais especializados ou, nos casos de menor risco, para os CAPS.
Tratar os doentes é essencial, e o SUS tem de investir nessa área, mas, ao mesmo tempo, é necessário atuar na outra ponta, sob pena de estarmos condenados a enxugar gelo.
De um lado, é preciso regular o mercado, com a incorporação de medidas de redução de danos nos aplicativos de apostas, como pausas forçadas, proibição de bônus agressivos, ferramentas de autoexclusão e rastreamento de comportamento de risco, o que não é fácil, pois nem todos os sites de apostas têm sede no Brasil e muitos atuam às margens da lei; de outro, combater o estigma, que inibe a busca de auxílio, e realizar campanhas permanentes de esclarecimento e orientação sobre como e quando procurar ajuda. Não podemos ficar de braços cruzados.










