SAÚDE E BEM ESTAR

Como o SUS em Recife usa inteligência artificial para identificar mulheres em risco de violência

A rotina da Atenção Básica, que engloba as Unidades Básicas de Saúde, pode esconder sinais de violência – e, em alguns casos, eles aparecem antes mesmo de qualquer denúncia formal. Em Recife, uma iniciativa utiliza inteligência artificial para detectar esses indícios, identificar mulheres em situação de risco e apoiar uma atuação mais precoce dos profissionais de saúde.
Batizada de ClarIA, a ferramenta foi desenvolvida a partir de uma parceria entre a Secretaria de Saúde do município, a Vital Strategies – organização global de saúde – e a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). De forma bem resumida, o sistema analisa dados e identifica padrões que podem indicar situações de violência.

Para isso, a tecnologia foi treinada a partir da análise de cerca de 16 mil registros de mulheres atendidas ao longo de uma década nas unidades de saúde da cidade. Segundo Tiago Torrent, professor da UFJF que participou do desenvolvimento, o modelo funciona em duas frentes.
Na primeira, a IA “lê” textos dos prontuários e identifica indícios de violência relatados pela paciente, o que gera um alerta mais imediato. A segunda é mais indireta. O sistema analisa o histórico de atendimentos e busca padrões que já foram observados em outras mulheres que sofreram violência, como aumento na frequência de consultas ou queixas recorrentes, muitas vezes associadas à saúde mental.

90 dias, um padrão recorrente
Um achado curioso que a IA permitiu identificar é que nos 90 dias que antecedem episódios mais graves de violência, incluindo o feminicídio, muitas mulheres passam a procurar mais os serviços de saúde.

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“Hoje, 75% das notificações de violência contra a mulher são realizadas pelos prontos-socorros, enquanto apenas 1% ocorre na Atenção Básica”, afirma a secretária de Saúde do Recife, Luciana Albuquerque. “Estamos trabalhando para transformar essa realidade, porque a identificação precoce e o encaminhamento para a rede especializada podem fazer diferença, contribuindo inclusive para evitar desfechos fatais”, complementa.
É nesse ponto que a IA tenta atuar. Ao detectar padrões compatíveis com possíveis casos de violência, o sistema gera um alerta diretamente no Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC e-SUS). Junto ao aviso, o profissional tem acesso a orientações de conduta, desde estratégias de acolhimento até fluxos de encaminhamento para outros serviços da rede.
“Não é uma tecnologia isolada, mas parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento da resposta do sistema de saúde”, diz Pedro de Paula, diretor executivo da Vital Strategies Brasil.
Antes de ser ampliada, a ferramenta passou por um projeto-piloto em unidades de saúde da família do Distrito Sanitário I, envolvendo pouco mais de 60 profissionais. A próxima etapa prevê a expansão para outras 21 unidades de Recife.

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