Transição de gênero: novo estudo levanta dúvidas sobre intervenção precoce
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O debate sobre disforia de gênero em jovens é complexo. Novas evidências, como o Cass Review e um estudo finlandês, questionam a eficácia de intervenções médicas rápidas, mostrando a persistência do sofrimento psíquico e a necessidade de avaliações mais aprofundadas. Entenda por que a ciência pede cautela.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Disforia de gênero é um dos temas mais delicados da saúde mental contemporânea, especialmente quando discutido no contexto de crianças e adolescentes. O debate público em torno do assunto se polarizou de forma pouco produtiva. De um lado, estão os que defendem acesso rápido e praticamente irrestrito às intervenções médicas; de outro, os que negam a própria existência da disforia de gênero ou o direito das pessoas trans a reconhecimento e cuidado.
Ainda assim, trata-se de um tema que precisa fazer parte das conversas públicas — e em que a ciência precisa ser levada a sério. Vamos começar com algumas definições.
Disforia de gênero é o nome dado ao sofrimento psicológico que pode surgir quando há um desalinhamento entre o sexo biológico e a identidade de gênero. Não se trata apenas de “se identificar de outra forma”, mas do grau de sofrimento associado a essa experiência — é isso que define a relevância clínica do quadro.
Quando esse sofrimento é intenso, alguns jovens são encaminhados a serviços especializados para avaliação. Parte deles pode seguir para o que se chama de redesignação médica de gênero — um conjunto de intervenções que inclui o uso de hormônios, como testosterona ou estrogênio, e, em alguns casos, cirurgias para modificar características corporais.
A lógica por trás dessas intervenções é de alinhar o corpo à identidade vivida e, com isso, reduzir o sofrimento psíquico — incluindo sintomas como depressão, automutilação e pensamentos ou comportamentos suicidas. Muitas entidades da área da saúde afirmam se basear em evidências científicas para sustentar essas intervenções.
É justamente nesse ponto que o debate se torna mais delicado. As bases científicas para intervenções médicas em adolescentes são, em muitos contextos, mais frágeis do que se supunha. Do ponto de vista científico, o tom desse debate começou a mudar nos últimos anos com o chamado Cass Review.
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Liderado pela pediatra britânica independente Hilary Cass, o relatório foi encomendado pelo sistema público de saúde do Reino Unido após anos de crescimento acelerado nos encaminhamentos de jovens com disforia de gênero.
Falamos de um documento abrangente, que inclui revisão da literatura e entrevistas com pacientes e familiares. A principal conclusão foi justamente a fragilidade da base de evidências sobre intervenções médicas em adolescentes. Muitos estudos analisados eram pequenos, sem grupo controle ou com tempo de seguimento curto — o que limita a compreensão dos efeitos de médio e longo prazo.
O relatório questiona a prática segundo a qual, diante da manifestação de desconforto com o gênero, o caminho seria rapidamente afirmar essa identidade e avançar para intervenções médicas. O que a revisão propõe não é negar cuidado — mas ampliá-lo, com avaliações mais prolongadas, mais individualizadas, cuidadosas e maior atenção a fatores de saúde mental frequentemente coexistentes.
Agora, um estudo recém-publicado com dados da Finlândia, com uma amostra substancial, grupo controle e um seguimento de anos (mais de cinco, em média) encontrou dados que vão também ao encontro do relatório Cass.
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Utilizando-se de registros nacionais, o trabalho analisou todos os jovens com menos de 23 anos encaminhados a serviços especializados em identidade de gênero na Finlândia entre 1996 e 2019. Foram 2.083 casos, comparados a mais de 16 mil jovens da população geral, pareados por idade e local de nascimento.
Acompanhou-se, ao longo de anos, quem precisou de tratamento psiquiátrico especializado antes e depois do encaminhamento. Foram analisados, em grupos separados, os jovens que seguiram ou não para intervenções de redesignação de gênero.
Quase metade dos adolescentes encaminhados com disforia de gênero já havia precisado de tratamento psiquiátrico antes mesmo da primeira consulta — três vezes mais do que no grupo controle (15%). Dois anos depois do início no serviço especializado, esse número sobe para 61,7%, enquanto permanece estável na população geral (cerca de 14–15%).
Ou seja: estamos falando de um grupo com sofrimento psíquico importante — e persistente. Após o início de intervenções médicas de redesignação de gênero (lembrando: hormônios e/ou cirurgias), a necessidade de tratamento psiquiátrico não diminui.
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Em parte dos jovens, há inclusive sinais de piora da saúde mental ao longo do seguimento. Isso indica, segundo os autores, que “antes de iniciar o tratamento, é importante considerar tanto os efeitos da transição de gênero médica quanto as expectativas do paciente.
A presença de alta carga de sofrimento psiquiátrico antes do contato com o serviço especializado — e o seu aumento ao longo do tempo — sugere que, em alguns desses adolescentes, a disforia de gênero pode ser secundária a outros problemas de saúde mental”.
Outro dado muito relevante: adolescentes encaminhados mais recentemente — especialmente após 2010, período de forte aumento global de casos — chegam aos serviços com níveis ainda mais altos de problemas psiquiátricos. De fato, antes de 2010 não havia diferença importante entre os adolescentes encaminhados e os controles em relação ao histórico de tratamento psiquiátrico. Isso sugere uma mudança de perfil. E talvez de fenômeno.
O estudo finlandês reforça esse ponto de forma contundente. Ao mostrar que o sofrimento psíquico é elevado antes, durante e depois do processo — e que não se reduz automaticamente com intervenções médicas — ele nos obriga a abandonar explicações simples.
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Para parte desses jovens, a disforia pode ser o centro da experiência. Para outros, pode estar entrelaçada com depressão, ansiedade, traumas, espectro autista ou outras dificuldades do desenvolvimento. Quando falamos de crianças e adolescentes, estamos lidando com identidades ainda em formação, trajetórias emocionais em construção e maior vulnerabilidade a múltiplos fatores de sofrimento psíquico. Intervenções potencialmente irreversíveis, nesse contexto, exigem um grau ainda maior de cautela e precisão clínica.
A tarefa, aqui, não é escolher um lado. Questionar o uso indiscriminado de intervenções médicas não é negar direitos — é reconhecer limites do conhecimento. E, na área de saúde mental e medicina, reconhecer limites costuma ser o primeiro passo para cuidar melhor.
* Ilana Pinsky é psicóloga clínica e pesquisadora da Fiocruz. É autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto), foi consultora da OMS e professora da Universidade Colúmbia e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Siga a colunista no Instagram










