SAÚDE E BEM ESTAR

Produtos enriquecidos com proteína invadem o mercado: o corpo precisa de dose tão alta?

Não há prateleira do setor de alimentação dos supermercados que passe em branco. Em praticamente todos os corredores, o consumidor encontrará produtos turbinados com proteína. E isso virou inclusive critério de escolha dos fregueses. Um iogurte ostenta 14 gramas no rótulo. Uma barrinha de cereais, 18 gramas. Tem biscoito com 12 gramas. E, quando parecia que a tendência já tinha alcançado seus limites, eis que surge a primeira água proteica do mercado. O que era um nicho hoje se tornou quase um padrão. Pelas contas da empresa de pesquisa Euromonitor, o segmento de alimentos com proteína adicionada já movimenta 2 bilhões de reais por ano no Brasil. Em escala global, foram mais de 250 bilhões de reais apenas em 2024. E a projeção, segundo estudo do Grand View Research, é que o setor cresça 63% até 2033. Tudo em nome de um apelo por benefícios ao corpo e praticidade.

Do ponto de vista científico, não há dúvida de que a proteína é essencial para o organismo humano. Carboidratos e gorduras são o combustível, mas é a proteína que estrutura as células e os tecidos. Cerca de 42% de nosso peso — desconsiderando a água — é formado por essas moléculas. Elas compõem não só os músculos, mas também cabelos, pele, unhas e participam de uma infinidade de processos metabólicos que nos mantêm de pé. Apesar disso, os parâmetros de consumo recomendados são bem mais modestos do que os números que a indústria sugere. “A meta para um adulto saudável é de 0,8 grama por quilo de peso. Para quem pratica esportes de forma intensa e para idosos, a recomendação varia de 1 a 1,6 grama por quilo”, diz Lara Natacci, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN). A questão, na visão da nutricionista e de outros estudiosos, é que, com tanta propaganda e oferta, o consumo vem sendo elevado de maneira desproporcional e muitas vezes desnecessária.
Parte desse movimento nasce de uma mescla de fatores culturais, impulsionados pelo marketing. Primeiro, há a ideia de que, quanto mais proteína ingerimos, mais músculos teremos. Ela até tem um fundo de verdade, mas não resiste à complexidade humana. A mensagem implícita é: se você quer estar saudável ou definido, tem de consumir produtos enriquecidos com o ingrediente — até porque não vai engolir um caminhão de ovos e filés por dia. A conveniência também pesa. Sem tempo para planejar e balancear as refeições, alimentos prontos e ricos no nutriente se tornam atalhos fáceis para bater as supostas metas. Até a popularização das canetas para o tratamento do excesso de peso, como Ozempic e Mounjaro, parecem ter contribuído para o fenômeno, uma vez que a reposição de proteína é orientada para suprir a perda inevitável de massa muscular. Tudo isso virou um prato cheio para a indústria, que se vale do selo “alto teor de proteína” como sinônimo de qualidade, mesmo que o interior do pacote não seja tão equilibrado assim.

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Fora os lançamentos que se espraiam por categorias como lácteos, biscoitos, barras de cereal, shakes e bebidas, e que andam de mãos dadas com o boom de suplementos como whey protein e creatina, há o apelo das redes sociais. “Vemos influencers exagerando os efeitos positivos de aumentar o consumo de proteína, criando uma moda difícil de ser combatida”, afirma o nutricionista Hamilton Roschel, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
Apesar da onda proteica, o fato é que a maioria dos brasileiros já atinge — e muitas vezes ultrapassa — a quantidade necessária no cotidiano. A dieta típica do país, marcada pelo alto consumo de carne, costuma ser naturalmente rica no nutriente. “Em estudo recente, verificamos que até veganos atingem facilmente as metas, mesmo consumindo apenas alimentos de origem vegetal”, observa Roschel. Isso significa que, não havendo restrições individuais ou situações que levem a uma carência real, a febre da proteína adicionada não atende necessariamente a uma demanda biológica. Para complicar, grande parte desses produtos entra na categoria dos ultraprocessados, trazendo um pacote adicional de açúcares, gordura saturada, sódio e aditivos. Assim, um punhado de petiscos enriquecidos com proteína escancaram um paradoxo: entram na rotina porque soam mais saudáveis, mas entregam ingredientes não tão desejáveis. “Quando você come feijão, ovo e leite, por exemplo, não consome só proteína. Consome também fibras, vitaminas, minerais e compostos bioativos”, diz Natacci, da SBAN. “E esses componentes não costumam estar presentes nos produtos prontos.”

PRATO CHEIO – Mix de fontes: dá para garantir a meta com uma dieta variada e natural (E+/Getty Images)

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Nesse contexto, não só o estado nutricional pode ficar prejudicado, como até o bolso sai lesado. “Em bebidas enriquecidas, você paga caro por 5 a 10 gramas de proteína que o corpo usará rápido ou vai eliminar pela urina”, afirma a nutricionista Tarcila Campos, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. “Existem alimentos naturais muito mais baratos e nutritivos.” Outra ponderação tem a ver com os riscos da sobrecarga proteica ao organismo. “Tudo aquilo que o corpo não usa precisa ser eliminado, e quem faz esse trabalho são os rins, de modo que, se a pessoa já tem uma lesão renal, o excesso de proteína pode agravar o quadro”, explica o nutrólogo Celso Cukier, do Einstein Hospital Israelita, na capital paulista. O exagero, vale notar, pode vir tanto de shakes ou snacks como de carnes e outras fontes de origem animal.

ATÉ NA ÁGUA - Tendência em alta: bebida proteica é nova aposta no mercado nacional (./Divulgação)

Com o avançar da idade, há uma tendência para perder massa magra e real­mente uma necessidade maior de garantir a cota proteica. E o mesmo se aplica a esportistas. No entanto, quem não se encontra nesses grupos pode até desferir um golpe no organismo quando abusa da dose. É o que alerta o cardiologista americano Eric Topol, um dos dez pesquisadores mais citados da medicina no mundo e autor de uma análise crítica sobre o tema. Após revisar uma série de pesquisas sobre ingestão proteica, Topol não encontrou evidências de que ultrapassar os limites diários recomendados traga ganhos adicionais à saúde. Pelo contrário, há indícios de que o excedente eleva o risco cardiovascular. Isso porque a ingestão exacerbada, principalmente de proteínas animais, foi associada a entupimentos nas artérias, o estopim para infartos e derrames. O achado reforça inclusive a orientação de não se fartar de carne vermelha — hábito também já ligado ao câncer.

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Na procura por fontes alternativas e mais sustentáveis, crescem as buscas por redutos de proteína vegetal, como leguminosas (feijões, lentilha, grão-­de-bico…) e oleaginosas (castanhas, nozes…). E até mesmo o segmento de produtos “verdes” ou “veganos” prontos pegou esse bonde. De fato, há gosto e interesse para tudo, como comprova um levantamento da marca de suplementos Ocean Drop junto ao Google: só a pergunta “Tem proteína?” foi digitada mais de 2 milhões de vezes pelos brasileiros nos últimos doze meses. Eram pessoas que, em suas pesquisas on-line, queriam saber se havia proteína em itens como banana, feijão, amendoim e batata-doce.

O mercado está acompanhando as tendências e trabalhando para aprimorar o sabor e a textura de proteínas vegetais a fim de atingir pessoas interessadas em diminuir a ingestão de fontes animais. Um estudo da empresa China Foodstuff & Protein Group mostrou que 61% dos consumidores globais hoje já preferem proteínas à base de plantas. Outra frente de pesquisa e desenvolvimento, a princípio menos apetitosa, são os produtos feitos com proteínas de insetos, considerados uma aposta nutritiva e sustentável diante dos desafios climáticos e ambientais. Há uma estimativa de que a demanda por eles deve crescer, anualmente, 14,5% até 2033. Alguns experts afirmam que não é questão de “se”, mas de “quando” nos renderemos a essa opção no cardápio. Enquanto esse futuro não chega, as gôndolas continuarão abastecidas de novidades encorpadas com proteína. Não é preciso exaltar nem demonizar esses produtos. O vital é entender que cada organismo tem uma necessidade e nenhum pacote de modismo pode superar a boa e velha comida de verdade.
Publicado em VEJA de 21 de novembro de 2025, edição nº 2971

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