Reduzir as desigualdades no SUS ainda é um grande desafio
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Apesar de o SUS ser o maior sistema universal do mundo, o Brasil enfrenta uma desigual distribuição de médicos. Quase 60% dos profissionais estão em apenas 48 cidades, deixando regiões como Norte e Nordeste, e o interior, em escassez crítica, com sérias consequências para o atendimento, inclusive na mortalidade neonatal.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Em alguns lugares do Brasil, costuma-se brincar que o melhor atendimento de saúde da cidade é a estrada rumo à capital. Uma brincadeira que não tem graça, mas, infelizmente, traduz a realidade de boa parte dos municípios do país. O nosso Sistema Único de Saúde (SUS) é o maior sistema universal do mundo, mas ainda há uma distribuição muito desigual de profissionais nos territórios, o que acaba impactando no atendimento.
A região Sudeste concentra o maior número absoluto de médicos, com 334.105 profissionais, e a maior razão de médicos por mil habitantes (3,7), seguida pelas regiões Centro-Oeste (3,4), Sul (3,3), Nordeste (2,2) e Norte (1,7). O Distrito Federal se destaca com a maior razão no território nacional, com 6,2 médicos por mil habitantes, enquanto o Maranhão apresenta a menor, com 1,2, quase três vezes menos que a média nacional, de 3 médicos por mil habitantes, segundo a publicação Demografia Médica no Brasil 2025.
A distribuição de médicos fora das capitais evidencia uma diferença ainda mais significativa na razão de profissionais por mil habitantes em comparação às médias estaduais e das capitais. A região Sudeste apresenta a maior razão (2,6), seguida pelas regiões Sul (2,3), Centro-Oeste (1,5), Nordeste (0,95) e Norte (0,75). O estado de São Paulo apresenta a maior concentração no interior, com 2,7 médicos por mil habitantes, enquanto estados da região Norte, como Amazonas (0,20) e Roraima (0,13), possuem as menores razões.
QUASE 60% DOS MÉDICOS DO PAÍS ESTÃO CONCENTRADOS EM 48 CIDADES
De acordo com o levantamento, 48 cidades com 500 mil habitantes ou mais concentram 31% da população brasileira e 58% dos médicos em atividade no Brasil. Ao mesmo tempo, 4.895 cidades com até 50 mil habitantes contam com apenas cerca de 8% destes profissionais para atender cerca de 1/3 da população do país (31%).
Outro dado que mostra o abismo da saúde entre as regiões é o número de estabelecimentos registrados no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), do Ministério da Saúde. Em 2025, o estado de São Paulo respondia por quase 1/4 (24,3%) do total de estabelecimentos cadastrados no país, mais do que os 16 estados do Norte e do Nordeste somados (23,2%).
“Temos buscado modificar esse cenário de má distribuição de profissionais e, principalmente, vincular as iniciativas de ampliar acesso, de garantir atendimento para a população”, diz Felipe Proenço de Oliveira, secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, em entrevista à coluna.
Segundo ele, estão sendo construídas mais 37 maternidades no país, com esse olhar para os desequilíbrios regionais. Não basta, no entanto, construir mais hospitais. “É preciso planejar e garantir uma formação de profissionais conforme a necessidade”, avalia.
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AINDA É UM DESAFIO DIMINUIR A MORTALIDADE NO PERÍODO NEONATAL
Em 2025, a taxa de óbitos de menores de 1 ano no Brasil foi de 12,2 por mil nascidos vivos. Cerca de 50% dos óbitos ocorrem na primeira semana de vida e a maioria está relacionado a afecções neonatais. Segundo dados do Ministério da Saúde, aproximadamente 70% desses óbitos poderiam ser evitados com a qualificação do cuidado perinatal, neonatal e obstétrico.
“Ainda é um desafio conseguir diminuir mais a mortalidade nesse período neonatal, dos primeiros dias após o nascimento”, avalia Oliveira. De acordo com o secretário, ter um profissional especialista nessas áreas e em localidades que antes não tinham vai impactar nos índices de mortalidade neonatal e, consequentemente, na mortalidade infantil, por exemplo.
Em 2025, menos de mil (893) profissionais de enfermagem neonatal constavam no CNES. Desse total, a maioria (53%) está na região Sudeste. “O grande desafio hoje é qualificar a formação no SUS”, afirma o secretário.
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De forma geral, a oferta de especializações em enfermagem neonatal no Brasil é limitada e desigual. Em 2025, o sistema e-MEC registrava 61 cursos no país. Desses, 58 eram privados e apenas 3 públicos.
Para reduzir o déficit de enfermeiros neonatais no SUS, o Ministério da Saúde vai qualificar 310 profissionais. As vagas serão ofertadas especialmente para regiões com menor número de profissionais: Centro-Oeste, Nordeste e Norte, especialmente na Amazônia Legal.
O Ministério da Saúde também tem investido na formação de mais especialistas para fortalecer a atenção obstétrica no SUS e, consequentemente, a saúde da mulher. “Essa é outra especialidade que estava muito concentrada em instituições privadas. Não havia uma oferta pública nem esse olhar para os desequilíbrios regionais”, diz ele.
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Nesse cenário de concentração de profissionais, por um lado, e escassez, por outro, também tem se investido na ampliação de vagas para residência médica, em diferentes especialidades, com prioridade para as regiões Norte e Nordeste, que têm as menores médias de médicos por mil habitantes (1,7 e 2,2, respectivamente).
“O Brasil precisa de mais especialistas e especialistas mais bem distribuídos”, avalia o secretário. Um processo de estruturação que é demorado, mas fundamental para o futuro do SUS e para reduzir essas desigualdades históricas na área da saúde.
* Jornalista e diretora da Cross Content Comunicação. Há mais de três décadas escreve sobre temas como educação, direitos da infância e da adolescência, direitos da mulher e terceiro setor. Com mais de uma dezena de prêmios nacionais e internacionais, já publicou diversos livros sobre educação, trabalho infantil, violência contra a mulher e direitos humanos. Siga a colunista no Instagram.










