Bad Bunny está certo? O jogo de poder por trás da palavra ‘americano’
Fala, pessoas!
Você talvez nunca tenha ouvido falar do Bad Bunny, mas ele virou notícia no último domingo, com uma bola de futebol americano nas mãos e uma apresentação no intervalo do Super Bowl LX. Bad Bunny, cantor, rapper, ator e produtor musical fez história no domingo à noite em Santa Clara, na Califórnia. E não foi só um show de reggaeton, foi uma aula de política, identidade e linguagem, embrulhada em 13 minutos de pura potência artística.
No final da apresentação, enquanto dançarinos carregavam bandeiras de todos os países da América Latina, Bad Bunny proclamou: “God bless America” — e aí vem o detalhe que importa — “seja Chile, Argentina…” mencionando os nomes de todos os países que formam o continente americano.
E então, segurando uma bola com a mensagem “Juntos, somos América”, ele olhou para a câmera e disse: “Seguimos aqui”.
O que Bad Bunny quis dizer?
Quando Bad Bunny gritou isso para 115 milhões de pessoas assistindo ao vivo, ele não estava sendo poético por acaso. Ele estava reivindicando uma identidade que foi tirada.
Bad Bunny vem de Porto Rico, que é uma ilha caribenha a qual faz parte do continente americano. Seus habitantes são cidadãos dos Estados Unidos (desde 1927), mas não são “americanos” no sentido em que o mundo entende. Eles são porto-riquenhos. E essa diferença? Não é semântica. É política. É histórica. É identitária.
Bad Bunny estava dizendo: “Ei, a gente também é do continente. A gente também tem direito a essa palavra: americano. Mas a gente não é dos Estados Unidos, e isso importa. E olha só, a gente não está sozinho. Somos todos juntos.”
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A história por trás da palavra “americano”
O continente se chama América, com mais de trinta países de ponta a ponta. Mas quando alguém diz “os americanos”, todo mundo entende que está falando somente dos Estados Unidos. Como assim? A explicação está na história e também no marketing.
O nome “América” vem de Américo Vespúcio (1454-1512), navegador italiano que explorou partes do Novo Mundo após Cristóvão Colombo. O continente acabou batizado com o seu nome. Mas com o tempo, os Estados Unidos foram crescendo economicamente e se projetando culturalmente de forma avassaladora. E aí aconteceu aquilo que a gente conhece bem: quem fala mais alto, impõe a narrativa.
O poder das palavras (e da hegemonia)
Na prática, virou comum, e cômodo, chamar cidadãos dos Estados Unidos de “americanos”, até mesmo em português. O termo correto seria “estadunidense”, mas vamos combinar que quase ninguém usa. Fica estranho no ouvido e formal demais no meio de uma conversa.
E sabe por quê? Porque a língua não é só gramática. A língua é poder. É política. É quem consegue fazer sua voz ecoar mais longe e mais alto.
Os Estados Unidos têm Hollywood, Netflix, rádios internacionais, agências de notícias. Eles têm a megafonia do mundo, e quando você controla a megafonia, você controla as palavras. E quando você controla as palavras, você controla a realidade.
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O resto do continente?
Resultado: americanos viraram os norte-americanos dos Estados Unidos, e o resto do continente, bom, a gente é “latino”, “sul-americano”, ou qualquer outro rótulo que caiba na frase. Somos tudo, menos “americanos”, mesmo vivendo na América.
Colombianos, argentinos, brasileiros, mexicanos, porto-riquenhos, peruanos, chilenos… todos nós temos nacionalidades específicas. Mas quando o assunto é identidade continental, a gente fica invisível. Os EUA ocuparam o espaço que deveria ser nosso também.
E Porto Rico? Porto Rico é ainda mais invisível. Não tem representação no Congresso Americano, não pode votar nas eleições presidenciais, e mesmo assim é considerada “americana” quando convém aos Estados Unidos.
Por que Bad Bunny falou isso no Super Bowl?
Porque o Super Bowl é o palco mais importante do mundo. É onde o planeta inteiro está olhando. E Bad Bunny, que é um dos maiores artistas da atualidade, usou aquele momento para dizer algo que precisava ser dito.
Ele não estava sendo agressivo. Estava sendo preciso. Estava reclamando de uma invisibilidade que é histórica. Estava dizendo: “A gente existe. A gente é do continente. A gente merece ser visto. E a gente não está sozinho, somos todos americanos juntos.”
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E sabe o que é interessante? A mensagem no telão do estádio enquanto ele falava isso dizia: “A única coisa mais poderosa do que o ódio é o amor”.
Uma reflexão que vale ouro
Mas vale lembrar — e isso é importante mesmo —: brasileiro também é americano. Assim como o colombiano, o canadense, o porto-riquenho e o argentino. Todos nós habitamos o mesmo continente batizado lá no século XVI. Só que uns se apropriaram melhor da identidade e venderam isso pro mundo todo.
É uma lição de linguística, de história e de poder embrulhada numa performance de Super Bowl. E quando você começa a notar essas coisas, não consegue mais deixar de ver. A língua está sempre nos contando histórias, a gente só precisa aprender a ler nas entrelinhas.
Bad Bunny leu e gritou para o mundo inteiro ouvir com uma bola na mão. Com bandeiras ao fundo. Com a mensagem clara: “Juntos, somos América”.
E depois, com a simplicidade de quem sabe que está certo: “Seguimos aqui”.
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É ou não é uma aula de geografia, língua, política e poder numa performance de Super Bowl?
Te espero na próxima coluna!
Vamos que vamos!
Professor Noslen Borges
www.professornoslen.com.br
Revisão textual: Profª. Ma. Glaucia Dissenha










