CIÊNCIA

<em>Eita</em>, o novo álbum de Lenine, cura os ouvidos, deveria ser vendido em farmácias

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Começo esta história com O Rumo Do Fogo (Lenine/Lula Queiroga), uma carta de amor aos povos originários brasileiros e, ao mesmo tempo, um manifesto pela preservação da música originária de língua portuguesa. Foi composta por Oswaldo Lenine Macedo Pimentel e Luís de França Guilherme Queiroga Filho.Artistas retirantes, migrantes pernambucanos, Lenine e Lula Queiroga, recém-chegados ao Rio de Janeiro em 1983, lançaram juntos o álbum Baque Solto, primeiro registro fonográfico de ambos. Naquela época, Lenine e todos seus parceiros, viviam e faziam música em comunidade. Na cave de sua casa na Urca, na Avenida São Sebastião — uma oficina de composição para municiar intérpretes da MPB e que tive a sorte de frequentar —, no Parque Laje ou na Lapa, que era um microcosmo da cidade, coração do reduto boêmio carioca, ponto de encontro de músicos, pintores, atores, escritores, poetas, da malandragem, da prostituição e da música popular.Entre os poetas e cancioneiros de sua geração que andavam por lá, para além de Lenine e Lula, lembro-me de Alex Madureira, do saudoso Ivan Santos, que infelizmente nos deixou semana passada, e do poeta paraibano da caneta nervosa, Bráulio Tavares.Nos arcos da Lapa havia um bar frequentado por eles chamado Arcos Da Velha. Uma certa noite, estava a tocar por lá uma banda de rock indie nordestina e, no meio do show, o cantor pergunta: “Vocês estão entendendo a letra?” Braulio Tavares levantou e disse: “A letra sim. Só não estamos entendo a proposta.” Acabou o show por ali, com a plateia chorando de rir.O álbum Olho De Peixe (1993) com Marcos Suzano foi transformador para uma geração inteira e colocou Lenine onde já deveria estar há muito mais tempo, na academia imortal da música do Brasil. Há 10 anos, com o último álbum autoral, Carbono, chegou a duvidar, entre a paixão pelas orquídeas e pelas abelhas, que seu contributo para a música brasileira já tinha sido dado.Opa, ainda bem que não!Eita, a interjeição nordestina usada para batizar este álbum é certeira, pois o que se escuta dentro dele expressa justamente surpresa, espanto, admiração, susto. Há, no álbum, o que se perdeu ao longo da caminhada da música brasileira popular e também da música portuguesa nas últimas décadas. Deveria ter uma bula de remédios no lugar de créditos do álbum e estaria escrito:Contém canções e cancioneiros, proposta, argumento e narrativa, poetas de língua portuguesa brasileira, com contribuições do galego-português, tupi-guarani e do kimbundu, swing, simpatia e amor.


O compositor Lenine
Gilda Midani/divulgação

Ouro para os ouvidos: Maria Bethânia (no auge de seu canto), Alcione, Luís Inácio Lula Da Silva, Lula Queiroga, Siba, Maria Gadu, Dudu Falcão, Vítor Araújo, Carlos Posada, Gabriel Ventura, Ivete Sangalo, Arnaldo Antunes e os talentosos filhos Bruno Giorgi (produtor do álbum) e João Pimentel, Carlos Malta e mais um naipe de bambas.Indicações:Cura pobre de direita com síndrome de Estocolmo, doença da música de língua portuguesa não originária de alto consumo, de estruturas harmónicas e melodias anglo-saxônicas, faz inglês largar a família e ir embora com o circo e cura até fascistas em momento de descuido.Oxente, Eita é visto no passaporte para o mundo visitar a cultura do nordeste brasileiro, sem passaporte e sem visto.A belíssima Foto De Família, parceria com o filho João Pimentel em homenagem ao pai/avô, o comunista José Geraldo Pimentel, traz a rainha Maria Bethânia no auge de seu canto, onde seu cantar de doer diz: “a foto que tem cheiro, de tão nítida que sou… o amor é uma espécie de vacina”.Em Confia em Mim, Lenine canta: “o sonho é o mar mais perigoso para quem não quis acordar”. Foi criada com Dudu Falcão, seu parceiro frequente, parceria que é uma aliança de ouro para durar além dos dedos.Em Meu Xamêgo, composta para seu xodó, sua companheira, Anna Barroso, ele canta: “Você me disse vai e eu nem/se não for você/ não é ninguém”.Lenine termina Eita com este galope arretado, que é manual de boa conduta do sujeito homem, a canção Motivo: “Não colo com canalha / não dou papo nem moral pra vascilão / por A + B / a pessoa sem palavra pode tá cheia de prata / que não vale um tostão. Quem faz intriga / quem inveja o que é dos outros / faz mesmo pouco caso de si. / Vontade eu tenho / o que não tenho é motivo / pra te chamar de irmão / pra te chamar de amigo.”Eita é álbum de família, de amor, de afeto, uma prenda para contar pros netos.Feito com goiva e madeira, igual à belíssima matriz de xilogravura da artista visual Luiza Morgado, que se oferece como capa do disco, Eita é a “xilogravina” que o Brasil precisava, esperava e ganhou.Oba!
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