Grandes investimentos em Sines precisam de “muita energia, muita água e muitas pessoas”
Tal como nos anos 70 do século passado, quando o Governo de Marcelo Caetano avançou para a construção de um porto de águas profundas na costa alentejana e a instalação de uma zona industrial e, no início dos anos 80, de um terminal petroquímico, a cidade de Sines volta a estar numa encruzilhada. “Quando se fala em milhares de milhões de investimentos nos projectos já anunciados e programados, onde estão as condições para acolher milhares de pessoas que irão preencher os postos de trabalho previstos?” A pergunta é do novo presidente da Câmara de Sines, Álvaro Beijinha, eleito pela CDU nas últimas eleições autárquicas.Com pouco mais de um mês de exercício nas funções de presidente do município, o autarca não desconhece a nova realidade que emerge em Sines, para onde está previsto um volume de investimentos globais que supera os 20 mil milhões de euros e a criação de até 16.000 postos de trabalho. “Onde podem colocar os seus filhos na escola e onde estão as casas para habitar?”, interroga Beijinha, que geriu durante 12 anos o concelho vizinho de Santiago do Cacém e sabe ao que vem.“É urgente que o Governo lance um novo olhar” para o que está a acontecer em Sines, com a instalação de 13 grandes projectos nas mais diferentes áreas de negócio, realçou ao PÚBLICO o autarca, reclamando mais “investimento público” para acompanhar o desenvolvimento económico e responder “ao problema do acesso à habitação, à saúde e à escola pública”.A estrutura económica, social e territorial da área de Sines actual “não comporta a chegada de mais crianças e jovens ao sistema de ensino”, e as câmaras do litoral alentejano, sobretudo as de Sines e Santiago do Cacém, “não têm condições para enfrentar este problema”, tal como acontece com o precário e insuficiente sistema de saúde que o concelho apresenta, adverte o autarca. Só resta interceder “junto do Governo central para a urgência de encontrar outro tipo de resposta” que supere a incapacidade que tem sido revelada no encontro de respostas para as graves lacunas que se observam nas infra-estruturas necessárias para acolher e integrar os futuros moradores, acrescenta Álvaro Beijinha.Para além de pessoas, Sines precisa de “muita energia e muita água”, observa o autarca, frisando que “os governos e os governantes não podem reiteradamente falar da importância estratégica que Sines assume para o país, mas tardam em implementar políticas de investimento público que contribuam para um desenvolvimento mais sustentável que beneficie quem cá vive e trabalha”, enfatiza.Construir para albergar trabalhadoresSó o porto de Sines “precisa de preencher 1800 postos de trabalho, mas os concursos ficam desertos, não há oferta de casas”, assinalou, em Junho, Pedro do Ó, presidente do conselho de administração do porto de Sines (APS) na conferência sobre habitação intitulada “Uma terra com futuro começa com um lugar para viver”. Alugar um T1 pode custar 1500 euros por mês. Este problema não se resume, apenas, ao concelho de Sines e envolve, pela sua magnitude, a cidade de Santo André (construída nos anos 1970 e 80 para alojar os trabalhadores do complexo industrial de Sines) e Santiago do Cacém.Álvaro Beijinha recordou que a solução encontrada nos anos 70 e no contexto para que foi projectada pode ser encarada como uma referência para encontrar respostas adequadas de alojamento para quem vai trabalhar em Sines, destacando a resposta encontrada pela empresa chinesa CALB. Um dos maiores fabricantes mundiais de baterias já anunciou que vai investir dois mil milhões de euros na construção de uma fábrica de baterias de lítio, empreendimento que precisa de cerca de 1800 trabalhadores. A escassez de habitações forçou a empresa a “decidir-se pela construção de fogos necessários para alojar os seus futuros trabalhadores em Santiago do Cacém”.Os vários projectos programados para Sines “vão mudar a face do concelho”, antecipa o presidente da APS, que assume a sua apreensão pelas consequências negativas da falta de habitação. A escassez de alojamentos pode “prejudicar o ritmo de investimentos” neste território, quando já são conhecidos os projectos das empresas CALB, Galp, Repsol e da Madoqua, na área do hidrogénio verde.O presidente da Câmara de Sines acrescenta o projecto Start Campus, uma joint-venture da Davidson Kempner Capital Management e da Pioneer Point Partners, que vai investir 3,5 mil milhões de euros para desenvolver o Data Center Sines 4.0, que irá precisar de 1200 trabalhadores altamente especializados.O projecto já está em desenvolvimento e compreende a construção de seis edifícios. Um está concluído e o edifício 2 já deveria estar em construção. Beijinha revela que se reuniu com representantes da Start Campus há cerca de seis meses em Santiago do Cacém: “Deram-me a indicação de que iriam construir ainda este ano (2025), mas passei há dias pelo local e não há obra.”De onde vem a energia?O Data Center, cuja dimensão e a localização foram sujeitos, em Novembro de 2023, a uma investigação à Start Campus no âmbito da Operação Influencer, destaca-se pelo elevado consumo de energia. Kaya Schwemmlein, porta-voz do Juntos pelo Cercal do Alentejo pergunta, através de comunicado: “Onde é que se vai buscar toda esta energia que será necessária para o projecto do Data Center?”O Data Center de Sines irá atingir um consumo de 1,2 GW de energia, prevendo-se que se torne o maior da Europa. No concelho de Santiago do Cacém, está prevista a instalação da Central Solar de Cercal do Alentejo e da Central Fernando Pessoa, da Iberdrola e Prosolia Energy, na freguesia de São Domingos e Vale de Água. Serão milhares de hectares cobertos de centrais fotovoltaicas.“Em cima da mesa está ainda a discussão à volta de centrais eólicas a instalar em Sines e entre o Cercal do Alentejo e Santiago do Cacém”, adianta Álvaro Beijinha, frisando que os projectos associados às energias renováveis “têm fortes impactos a nível do ordenamento do território”.Neste sentido, “já demos os nossos pareceres sobre o que importa fazer, até porque a falta de informação que tem marcado a instalação destes projectos está a criar alguma controvérsia nas populações”, lamenta o autarca.Para além da necessidade de muita energia, é ainda essencial a disponibilidade de muita água. Alqueva já está ligada à barragem de Morgavel, que satisfaz as necessidades da Zona Industrial de Sines, mas os débitos terão de ser aumentados com o acréscimo populacional que é esperado e que pode vir a duplicar a população actual do concelho de Sines.Só o funcionamento do Data Center exige enormes volumes de água, uma necessidade que estará, à partida, superada com proximidade do oceano Atlântico. Com efeito, a localização do centro de dados permite soluções de arrefecimento da sua funcionalidade, que “reduzem o consumo de energia e de água doce e os custos operacionais”, explica a Start Campus na sua página online. Álvaro Beijinha confirma que o projecto de arrefecimento do Data Center de Sines “foi influenciado pela proximidade do sistema de arrefecimento da antiga Central Termoeléctrica da EDP e irá aproveitar parte da estrutura”.Do ponto de vista do emprego e da população, as alterações que se perspectivam revelam a magnitude dos projectos programados e dos seus inevitáveis impactos na estrutura social e económica do concelho e do Alentejo litoral. Antes que seja tarde e se repitam os cenários e as vicissitudes que marcaram o arranque da zona industrial de Sines nos anos 70, o presidente da câmara lançou um desafio ao primeiro-ministro, Luís Montenegro, convidando-o a visitar Sines.No ofício que enviou ao PÚBLICO, Álvaro Beijinha salienta que “os grandes investimentos actualmente em curso — públicos e privados — programados para Sines representam, não apenas oportunidades de crescimento económico, mas também desafios de enorme dimensão, em áreas como a habitação, o ambiente e as infra-estruturas, que exigem respostas articuladas e uma visão integrada do desenvolvimento territorial”.









