CIÊNCIA

O voo do meu amigo Zé

— Patroa, tens de cortar nas provas.— Não corto nada, Zé, desenrasca-te.— O pessoal dos taninos bebe, escreve de mais e depois eu é que tenho de me desenrascar?Não posso dizer quantas vezes esta conversa se repetiu, mas é muito provável que tenha sido sempre que a escala semanal ditava que era o José Soares o gráfico destacado para fechar a Fugas comigo. Trabalhámos juntos durante 16 anos, eu a editar, o Zé a paginar — e tantas vezes a arranjar soluções criativas para transformar textos que eram lençóis em planos bonitos que dava gosto folhear. Mas os “taninos” eram outra conversa.O Zé (1974-2025 — caramba, o que me custa escrever isto…) não bebia vinho, nem cerveja, nem espumante. Corria maratonas, era adepto de um estilo de vida saudável e não gostava de álcool. Talvez por isso gozasse tanto com “o pessoal dos taninos”. Pegava nas fichas de prova de vinhos que os críticos escreviam e lia-as em voz alta na redacção. Delirava com os descritores de aromas: suor de cavalo; ponta de lápis; petróleo; relva acabada de cortar; feno. Ria-se muito e fazia-nos rir. “Este pessoal é que inventa.”Uma vez por outra, quando os críticos se atrasavam e só faltavam mesmo uma ou duas provas para fecharmos a revista, o Zé chegou a escrevê-las e a pô-las em página — garanto que nunca se publicou uma destas, era só mesmo para galhofa interna enquanto esperávamos “pelos atrasadinhos do tintol”, palavras dele. Tenho pena de não ter guardado nenhuma, eram hilariantes. Ele não fazia ideia do que eram os taninos, muito menos sabia se a Touriga é uma casta branca ou tinta, mas compunha uma prova muito bem articulada, capaz de enganar os não-especialistas.Falávamos e trocávamos mensagens com muita regularidade, sobre tudo e sobre nada, dentro e fora do jornal. Éramos amigos, família. Uma vez recebi uma fotografia no telemóvel de uma garrafa de vinho branco numa prateleira de supermercado. Custava à volta de dez euros e o Zé escreveu-me qualquer coisa como isto: “Vou comprar este vinho para temperar carne, mas não digas ao pessoal dos taninos, eles dizem que nem para cozinhar se deve usar vinho tão barato.” Ri-me. Nova mensagem pouco depois, com imagem de um pacote de vinho de marca branca. “Afinal comprei este. Deve dar despedimento, não?”Perguntem a quem quiserem, a resposta será sempre a mesma: trabalhar com o Zé era uma alegria imensa. Duas vezes por ano, perguntava-me isto: “Patroa, quando é a Fugas Pingas? É para eu meter férias nessa semana.” A Fugas Pingas ficou nome de código interno e ele nunca metia férias nessa altura. As edições especiais de vinhos eram sempre muito mais trabalhosas, mas com ele tornava-se tudo mais leve e mais fácil. Às vezes protestava, e com razão — pelos atrasos, pelas mudanças de planos em cima da hora, pela publicidade que demorava a chegar —, mas estava sempre cá para o que desse e viesse. Nunca o vi verdadeiramente chateado — a não ser com os desaires do Sporting, o clube do coração, que felizmente o presenteou, nos últimos meses de vida, com a alegria de um bicampeonato e uma dobradinha. Eu sofro por outras cores, mas celebrei genuinamente com ele.


Um bando de gaivotas, livres, é uma bela metáfora para um dia tão triste
Nelson Garrido

Trabalhador incansável — praticamente até ao fim, foi impressionante a forma como tentou contrariar as limitações que a besta do cancro lhe impôs —, gentil, leal, amigo, o melhor colega de sempre. E o mais bem-disposto. Tinha um humor à prova de bala, simples e inteligente. E tinha, também, uma capacidade que não é para todos: ria-se dele próprio. Não era frequente, mas quando se enganava a fazer alguma coisa era o primeiro a dar o braço a torcer e depois desculpava-se, dizendo que só tinha “a quarta classe incompleta”.Uma vez pedi-lhe para me fazer um cartão de embarque para oferecer uma viagem de prenda de anos. A companhia em questão, low-cost, tinha um slogan bem conhecido na altura e o Zé, atento como sempre, pô-lo no cartão de embarque a fingir. Escreveu assim: “If you’re leite, we won’t wait.” Era late em vez de leite, claro. Quando ele se casou com a Carla e lhe oferecemos uma primeira página do PÚBLICO, escrevi-lhe uma chamada com esta piada. Rimo-nos durante anos deste deslize. “Patroa, só tenho a quarta classe incompleta, nunca aprendi inglês.” E dava aquela gargalhada dobrada, que lhe vinha das entranhas. Parece que ainda o estou a ouvir.No dia em que ele morreu, 20 de Setembro, chorámos muitos, chorámos todos. Até do céu caíram lágrimas, que essa manhã acordou cinzenta e chuvosa. Pouco depois de lhe ter dado a notícia, o Nelson Garrido, que também trabalhou de perto com o Zé, na edição fotográfica da Fugas, mandou-me uma fotografia de um bando de gaivotas. Chorei muito, outra vez, mas depois percebi que um bando de gaivotas, livres, num céu de chumbo, é uma bela metáfora para um dia tão triste. O Zé voou apenas para longe da nossa vista, nunca para longe da nossa vida.

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