Uma lição sobre a Rota do Ouro, uma lição sobre a Índia
Não sendo um absoluto desconhecido em Portugal, o nome de William Dalrymple (n. 1965) ainda é relativamente ignorado entre nós. Desde logo, porque, da sua vasta e fascinante obra, apenas se encontram traduzidos dois dos seus livros, ambos pela Dom Quixote: O Regresso de um Rei. A Batalha pelo Afeganistão, da tetralogia “The Company Quartet”; e a sua mais recente obra, A Rota do Ouro.A própria vida de Dalrymple daria um livro: nascido no seio da aristocracia escocesa, sobrinho-neto de Virginia Woolf, estudou no Trinity College, em Cambridge, e, aos 22 anos, publicou o seu primeiro e muito aclamado livro, In Xanadu, uma reconstituição dos passos de Marco Polo pelos confins da Ásia. Em 1989, fixou residência na Índia e vive actualmente numa quinta nos arredores de Deli, na companhia da sua mulher, a pintora Olivia Fraser, e dos filhos, um dos quais, Sam Dalrymple, formado em sânscrito e persa por Oxford, acaba de publicar o seu primeiro livro, Shattered Lands: Five Partitions and the Making of Modern Asia.Galardoado com inúmeros prémios, William Dalrymple é autor de séries televisivas e podcasts de grande sucesso e de uma vasta bibliografia, na qual se incluem livros de viagens pela Índia (The Age of Kali, de 1998) e pelo Médio Oriente (From the Holy Mountain, de 1997) e sobre a história, a cultura e a espiritualidade do subcontinente indiano (por ex., Nine Lives. In Search of the Sacred in Modern India, de 2009). Um deles, sobre o diamante Koh-i-Noor, escrito em parceria com Anita Anand, bem mereceria ser publicado entre nós.A Rota do Ouro – Como a Índia Antiga Transformou o Mundo surge, como o título sugere, em contraponto à narrativa, actualmente muito cultivada por Xi Jinping e pelas autoridades de Pequim, sobre a Rota da Seda e a influência hegemónica da China na Ásia da Antiguidade e dos alvores da Idade Média. Como o autor faz questão de sublinhar, o livro tem por objectivo “realçar a posição muitas vezes esquecida da Índia como pivô económico fundamental e agente civilizacional no coração do mundo antigo e do mundo medieval inicial.”Sem entrar nessa querela — e, bem assim, sem questionar se categorias como “Antiguidade” e “Idade Média” serão aplicáveis a um espaço geocultural tão diferente do nosso —, o que pode dizer-se, a traços larguíssimos, é que o argumento de Dalrymple não só é convincente como encontra ampla confirmação em factos geográficos incontroversos, com destaque para a circunstância de, graças aos ventos da monção asiática e à sua localização espacial, a Índia se encontrar no centro de uma grande rede de vias navegáveis e de rotas comerciais marítimas. A expansão do budismo a partir do século V a.C. comprova essa enorme capacidade de irradiação comercial e cultural para Leste, mas também para Oeste, como ficou patente na transposição da matemática e da astronomia indianas para a Bagdade abássida, no século VIII.
Autoria: William Dalrymple
Tradução: Cláudia Brito
Editora: Dom Quixote
Págs. 512, Preço 27,70€
Comprar na Fnac
Mais importante do que averiguar se a tese de Dalrymple tem, ou não, sustentação histórica, matéria reservada aos especialistas, deve enaltecer-se, acima de tudo, os extraordinários dotes de comunicação do autor, a sua escrita informada, límpida e cativante, capaz de seduzir-nos por um tema, um tempo e uma terra que, à partida, parecerão ser demasiado remotos para suscitar o nosso interesse.Além de uma lição de História, este livro é uma lição sobre como a História pode ser escrita e divulgada para o grande público, mostrando, ao cabo e ao resto, que, mesmo no tempo das redes sociais e da “economia da atenção”, sempre existirão leitores ávidos de livros, assim saibamos nós cativá-los.










