CIÊNCIA

A tutoria, o pensamento e a inteligência artificial

A utilização de ferramentas de inteligência artificial (IA), entre alunos do 3.º ciclo do ensino básico e do ensino secundário, tornou-se frequente. É com esse recurso que se fazem trabalhos de grupo, slides para apresentações ou que se podem simular testes ou corrigi-los ou fazer batota. E, no entanto, creio que se discute pouco essa prática na sala de aula e no contexto escolar.Não tenho dados para confirmar esta suposição, mas constato, a partir da minha experiência de docente universitário, como a utilização destas ferramentas invadiu as práticas estudantis de um modo pernicioso e desanimador para quem leciona no ensino superior na área das Humanidades. Sente-se, a cada ano letivo que passa, como se normalizou e expandiu. O que, há três anos, era ainda uma utilização pouco sabida pela diminuta experiência, é hoje bem mais sofisticada, o que me faz supor que, quando chegarem os alunos que utilizam estas ferramentas desde o 3.º ciclo, vá encontrar uma ainda maior capacidade de exploração das suas possibilidades, bem como uma confiança de que é o melhor modo de satisfazer o docente.


O que, porém, intuo, tendo em conta o que sei do funcionamento algorítmico deste motor de busca que funciona como um aglutinador acrítico, normativo, preconceituoso, veloz e eficaz, é que o modelo de pensamento que produz e reproduz será o mesmo de hoje. E é por isso que se torna relativamente fácil identificar o seu mau uso e abuso.Não me coloco ao lado de quem condena estes instrumentos, por vários motivos que não cabe aqui expor, mas não se deve ignorar a preponderância da IA no ensino. Importa, por isso, pensar em como lidar com ela, como a caracterizar e como estimular um olhar crítico e consciente, coisa que um tutor IA não estará interessado em fazer.Se perguntar, por exemplo, ao ChatGPT o que entende por “pensamento crítico”, responde-me que “é a capacidade de analisar informações, ideias ou situações de forma cuidadosa, lógica e fundamentada antes de chegar a uma conclusão.” E acrescenta que “envolve não aceitar algo como verdadeiro apenas porque alguém disse, porque ‘sempre foi assim’ ou porque parece intuitivo”, ajudando depois com os “termos simples” a que sempre recorre e ensinando os cinco passos que devem conduzir este pensamento teleológico. Esta definição é não apenas limitada, mas reveladora de um sistema que sempre conclui, como se houvesse fim no pensamento. Como a própria máquina confessa, ela apenas pode “simular o pensamento crítico”, uma formulação paradoxal e nada crítica, na medida em que impossibilita a crítica.O algoritmo é sobretudo eficaz a simular o modelo autoritário de conhecimento que alguns professores reproduzem na sala de aula e que funciona como uma cadeia bem oleada: eu ensino, tu escutas e depois reproduzes. Ganha quem for mais fidedigno a reproduzir. É este modelo contra o qual, desde o primeiro ano, muitos dos professores de uma universidade na área das Humanidades se debatem, esforçando-se por desconfigurar e reconfigurar os alunos e convencê-los do valor do diálogo e das suas capacidades de interpretação, de leitura e de pensamento autónomo e crítico, assim como da possibilidade de terem à sua frente alguém de com quem podem pensar ou de quem podem discordar.

O algoritmo é sobretudo eficaz a simular o modelo autoritário de conhecimento que alguns professores reproduzem na sala de aula e que funciona como uma cadeia bem oleada: eu ensino, tu escutas e depois reproduzes. Ganha quem for mais fidedigno a reproduzir




Esta luta não é nova, mas a capacidade de atração desta ferramenta torna-a mais premente. Na verdade, a IA apenas tornou mais acessível e rápido um modelo de conhecimento que sempre teve grande sucesso. Entre decorar o nome dos rios e serras ou identificar o primeiro Modernismo num poema de Fernando Pessoa (certo ou errado?) não há grande diferença. E se este modelo não deve ser, volto a repeti-lo, estigmatizado, porque pode ser útil para certas tarefas ou disciplinas, é importante reconhecer o seu potencial autocrata e perceber que ele apenas pode ser evitado se o identificarmos e não o deixarmos tomar conta do ensino.Este modelo de conhecimento tem fortes limitações. Retira autonomia ao pensamento e desresponsabiliza os sujeitos, o que faz com que, tendo em conta o modo como, por exemplo, nos relacionamos com a política ou a governação (estou a pensar na relevância dos cliques, dos baits e do algoritmo), se torne cada vez mais necessário desenvolver outras aptidões no estudante. Será fundamental não só identificar os erros cometidos por ferramentas de inteligência artificial, como aprender a desconfiar para que o pensamento crítico possa continuar vivo, em relação e continuidade sem fim. E esse trabalho deve ser feito nas escolas, desde cedo.Assim sendo, se um tutor de inteligência artificial pode servir para alguma coisa, que seja para libertar os professores da necessidade de reproduzir conhecimento, para que possam ensinar (e já agora aprender) a pensar, estimulando relações mais próximas com cada aluno, considerando as singularidades de cada um e o funcionamento coletivo, e perguntando muitas vezes “porquê?”.O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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