TECNOLOGIA

Este casal salvou centenas de ouriços transformando a casa num “hospital”

A cozinha de Sharon e Andy Longhurst dá para aquilo a que chamam uma Unidade de Cuidados Intensivos: uma garagem cheia de microscópios, incubadoras aquecidas e 12 ouriços a lutar pela vida. “Nunca, num milhão de anos, esperaríamos fazer isto”, admitiu Andy Longhurst.Nos últimos três anos, o casal transformou a sua casa em Fife, na Escócia, num hospital para ouriços, acolhendo mais de 622 ouriços, a maioria dos quais em estado crítico. Ambos têm empregos – ela como guarda de travessia escolar, ele como condutor de autocarros – mas quando começaram a ajudar estas pequenas criaturas nocturnas, identificaram um sentido de responsabilidade para com elas.​“Damos 100 por cento a cada um deles, mesmo que achemos que algum não consiga sobreviver”, garantiu Sharon Longhurst.Os ouriços da Europa Ocidental, nativos da Grã-Bretanha, vivem em jardins e zonas arborizadas, mas o desenvolvimento urbano deixou-os enquanto animais quase ameaçados na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, uma vez que a sua população diminuiu mais de 30% em 10 anos.​“Pensei: Meu Deus, há tantos ouriços e ninguém os pode ajudar”, contou Sharon. “É preciso fazer algo mais, estes pobres ouriços estão todos a sofrer.”


Os ouriços só aparecem durante o dia se estiverem doentes, feridos ou se não conseguirem encontrar comida
Burtinsland Hedgehog Haven/DR

Viagens ao centro de Vida SelvagemA primeira vez que o casal Longhurst se viu a ajudar esta espécie foi em 2022, quando se depararam com um ouriço que estava claramente doente na berma da estrada. Telefonaram para a Sociedade Escocesa para a Prevenção de Crueldade Animal (SPCA, na sigla em inglês), que respondeu que ninguém o podia vir buscar. Acabaram por levar o animal para o centro de vida selvagem da SPCA, uma viagem de ida e volta de cerca de 80 quilómetros.Duas semanas mais tarde, encontraram outro ouriço doente. Mais uma vez, levaram-no para o centro de vida selvagem. “Isso fez-nos pensar: as pessoas não vão fazer essa viagem”, explicou Sharon Longhurst.Os ouriços só aparecem durante o dia se estiverem doentes, feridos ou se não conseguirem encontrar comida, afirmou a cuidadora da espécie. “Se um ouriço andar a vaguear durante o dia, provavelmente está a morrer”, adiantou, observando que ela e o marido costumam dizer às pessoas: “Um ouriço a passear durante o dia não está bem.”A população de ouriços-cacheiros europeus, em declínio, está ameaçada por factores como a perda de habitat, os acidentes de viação, as espécies invasoras e a falta de alimentos.Alterações climáticasAs alterações climáticas também estão a desempenhar um papel importante: “Os ouriços deviam hibernar no inverno, mas estamos a descobrir que estão a hibernar menos porque não estão a receber a temperatura baixa constante de que necessitam”, segundo Sharon Longhurst. “Tem estado um clima muito mais ameno no Reino Unido do que costumava estar.”Os ouriços-cacheiros têm sido bastante apreciados nos últimos anos, em parte devido às suas caras adoráveis, à sua natureza suave e aos seus espinhos. Os EUA não têm ouriços selvagens, embora sejam populares como animais de estimação exóticos.Para terem a certeza de que estavam a tratar dos animais de forma adequada, Sharon e Andy entraram em contacto com um reabilitador de ouriços, de St. Andrews (em Fife), que planeava reformar-se. Este ensinou-lhes as bases dos cuidados e da reabilitação dos ouriços. “Comprámos muito do seu equipamento e foi assim que começámos no nosso quarto de hóspedes”, disse Sharon.Também completaram um curso de primeiros socorros para ouriços e consultou um hospital para vida selvagem em Inglaterra, bem como vários serviços de salvamento em toda a Grã-Bretanha. “Aprendemos muito”, afirmou a cuidadora.


Expansão do projectoRapidamente se espalhou a notícia do seu projecto de salvamento de ouriços, a que chamaram Burntisland Hedgehog Haven. Começaram com sete ouriços doentes, mas o telefone não parava de tocar com mais animais a precisar de auxílio, especialmente porque os seus esforços de salvamento foram cobertos por publicações locais.“Rapidamente ficámos com o serviço lotado”, apontou Sharon Longhurst. “As pessoas começaram a telefonar para pedir conselhos gerais e, a partir daí, foi um autêntico efeito de bola de neve.”Inicialmente, pagavam por todo o equipamento, mas acabaram por pedir apoio à comunidade; a sua actividade é inteiramente financiada por donativos. “Não o conseguiríamos fazer sem a ajuda de todos”, segundo Andy Longhurst.“A forma como a comunidade também acarinhou os ouriços… agora a consciência está lá fora”, acrescenta a sua mulher. “É brilhante.”Com o aumento da procura, conseguiram uma licença para cuidar de 25 ouriços, que mais tarde aumentaram para 40. Actualmente, quase todos os cantos da casa têm um objectivo diferente para o processo de salvamento: a garagem é para os ouriços com hipotermia ou outras doenças graves, o jardim é a maternidade e, por fim, o barracão de reabilitação é para os ouriços que se preparam para ser soltos na natureza.Os dois cuidadores estão frequentemente acordados durante a noite a alimentar os ouriços órfãos. “É muito intenso”, revelou Andy Longhurst.


Sharon e Andy Longhurst no espaço que criaram para acolher ouriços doentes
Burtinsland Hedgehog Haven/DR

“Uma corrida contra o tempo”Sharon e Andy – que tem três filhos, de 27, 22 e 11 anos de idade – sempre tiveram animais de estimação em casa, incluindo cães, peixes, coelhos, porquinhos-da-índia e lagartos da espécie Pogona vitticeps​. No entanto, não tinham experiência em cuidar de ouriços.Quando cada ouriço chega, a primeira coisa que fazem é examinar as fezes do animal ao microscópio para verificar a existência de parasitas (que podem ser fatais se não for feito tratamento). Contam ainda com a parceria de um veterinário local, que fornece medicação, efectua radiografias e garante o tratamento de feridas em casos mais complicados.“Os animais chegam com a pélvis partida e os pobres coitados arrastam-se”, revelou a cuidadora. Estimam que cerca de 65% dos ouriços que tratam sobrevivem. “É uma corrida contra o tempo”, afirmou Sharon, acrescentando que pedem às pessoas que encontram os ouriços que lhes dêem um nome.Uma vez recuperado o ouriço, o casal liberta-o na natureza, perto do local onde foi originalmente encontrado. Os animais deverão ter um peso saudável (cerca de 0,82 quilos) e as fezes livres de parasitas. “A nossa esperança é que eles saiam, permaneçam seguros, se reproduzam e mantenham a espécie”, refere Sharon Longhurst.


Quando atingem o peso ideal e estão saudáveis e livres de parasitas, os ouriços são libertados na natureza
Burtinsland Hedgehog Haven/DR

De acordo com o casal, os ouriços têm personalidades distintas. “Eles são tão característicos”, apontou a cuidadora. “Há os mais atrevidos, os que são muito calmos e ainda os que são muito irritadiços e se enrolam… Cada um tem a sua própria personalidade e são criaturas engraçadas.” Apesar da aparência espinhosa dos ouriços, “alguns são bastante macios”, explicou Andy. “São fofos por dentro.”Andy e Sharon dependem de uma equipa de 24 voluntários para manter o processo de salvamento a funcionar. Têm também uma rede crescente de condutores que vivem em zonas vizinhas, à qual chamam hogbulance -amálgama entre hedgehog (ouriço) e ambulance (ambulância). Esta rede responde a chamadas a qualquer hora para transportar ouriços.O casal afirma sentir-se orgulhoso do trabalho que tem realizado para salvar os ouriços. “Nunca sonhámos que se tornasse tão grande”, confessou Sharon. “Pensem em quantos ouriços salvámos que não estariam aqui hoje”, acrescentou o marido. “É uma sensação incrível.”

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.