CIÊNCIA

O paradoxo da discoteca

Enquanto espaço aberto ao público, a discoteca desafia a lógica e ridiculariza todas as leis conhecidas de negócio. Tudo o que se aprende sobre experiência do cliente é ali posto à prova, e falha com distinção.À porta, alguém decide quem é digno de entrar. Estás na guest? Não? Ai. Um olhar rápido decide se o teu reflexo cabe na moldura da noite, enquanto avalia o casaco e a companhia. Na porta, a justiça é sumária e com duas sentenças possíveis: ou fazem o favor de te deixar entrar ou és condenado à mentira socialmente aceite de que “há uma festa privada”. Uma festa que, por coincidência, se torna menos privada se estiveres disposto a pagar 250 euros. Enquanto isso, os “escolhidos” passam pelo carreirinho ao lado, sem fila e sem parar. Um pequeno privilégio dos clientes regulares ou amigos do staff, às vezes celebridades. Há clientes mais importantes que outros. Agora imaginem isto num restaurante. O que seria.Lá dentro, o ambiente mantém o padrão. As bebidas custam o mesmo que um almoço e são todas servidas no mesmo copo de água, sempre molhado, sempre suspeito. O barman não sorri. O cliente não é rei, é súbdito.Conversar exige leitura labial e alguma fé. Levas encontrões e a cada metro um pisão, perdes o casaco e os amigos na multidão. Também perdes a postura quando te entornam cerveja em cima, justamente na noite em que escolheste a blusa de seda fina. O chão cola aos ténis e as casas de banho são o retrato mais honesto da noite. Estamos em modo sobrevivência.Apesar de tudo, a discoteca continua firme enquanto negócio lucrativo, universal e aparentemente imortal Como é possível? Que lições podemos tirar aqui?

A discoteca não vende apenas a noite, vende a garantia de que não estamos fora dela




Um. Na discoteca, as pessoas não compram conforto, compram pertença. É sobre estar onde tudo acontece. Onde o mundo ainda existe com luz, som e movimento. Onde se tem a sensação de que “está toda a gente”. A discoteca não vende apenas a noite, vende a garantia de que não estamos fora dela.Dois. Oferece o que mais ninguém oferece. As discotecas têm o monopólio da noite porque os cafés estão fechados, assim como os restaurantes, as esplanadas, os cinemas e os teatros. Àquela hora a concorrência é baixa.Três. O desconforto enquanto experiência. O calor, a confusão, o suor dos outros. A noite não é perfeita, mas é intensa. E a intensidade tem uma certa forma de nos cativar.Quatro. E há ainda a música, o desejo final que justifica tudo o resto. Toda a gente gosta de música. Um produto antigo mas sempre com novidades, que não precisa de manual, fala com todos, faz esquecer e faz lembrar dependendo do que cada um procura. Vamos por aquele momento em que o corpo reconhece um som e se entrega.No fundo, o grande paradoxo é que apesar do escrutínio inicial, depois de passarmos o portal com o guardião à porta, somos teletransportados para o lugar na terra com menor julgamento social. É o nosso purgatório da descompressão. Podemos dançar fora de ritmo, cantar mal as músicas, gritar, estar com olhar cansado, dizer coisas que ninguém percebe ou porque não se ouve ou porque estamos bêbedos. Ninguém quer saber. Se estás despenteado, com nódoas na roupa ou se desapareces, de fininho, sem despedir. Porque, apesar da confusão, as discotecas cumprem aquilo que prometem: um palco onde podemos acreditar, por umas horas, que somos a versão mais solta de nós mesmos.Talvez seja por isso que voltamos.

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