CIÊNCIA

Messejana: um tesouro escondido no horizonte alentejano

Messejana não é um destino provável. Excepto para quem não resiste ao apelo de uma pequena colina e de uma torre de igreja que se destacam no horizonte, ao pôr-do-sol. Tantas vezes nos desafiaram à distância, no caminho que se faz para o Sul, que um dia saímos mesmo da A2 para descobrir que surpresas ainda esconde a paisagem do Baixo Alentejo. A igreja branca debruada a azul no topo da colina irá revelar-se monumental, verticalíssima, como um farol sobre a planície e a pequena vila histórica que nela se resguarda. Mas daqui a pouco lá chegaremos.Antes, há que deixar para trás a auto-estrada, no nó de Aljustrel, e atravessar, por nove breves quilómetros, um triste olival intensivo, depois o ondulado da terra seca, onde resistem as últimas azinheiras, e, por fim, quase lá, algumas manchas de eucaliptal. Estamos na Messejana, “terra de tradições”, como anuncia a placa que marca o início da freguesia.Ainda não são 11h30 da manhã e já cheira bem, a estrugido alentejano, na praça principal, literalmente o coração do pequeno aglomerado. “Eu amo Messejana”, lê-se, a letras garrafais, na parede do posto de informação turística, encerrado temporariamente. Sob o sol forte e glorioso deste dia de Setembro, a vila parece transpirar auto-estima em todas as paredes azuis e brancas do casario, nos murais artísticos e mensagens de “bem-vindo” em algumas esquinas, na toponímia que evoca as figuras ilustres e as datas históricas da terra, nos gestos das pessoas simpáticas e prestáveis com quem nos cruzamos. No jardim-miradouro, alguém escreveu a branco sobre azul: “Messejana, terra linda… Onde se vai à tardinha assistir ao pôr-do-sol.”A pequena praça principal, a Praça 1.º de Julho, data da atribuição do Foral Manuelino, em 1512, atravessa-se em poucos passos, mas por ela já terá passado muita história. Ao redor, num só olhar, avistam-se a Igreja da Misericórdia, a Torre do Relógio e a Casa dos Morgados Moreiras, edifícios de estilo vernacular, a “arquitectura do povo”, ainda que ostentando motivos decorativos de inspiração barroca. O pelourinho manuelino, de mármore branco alentejano, a lembrar a autonomia municipal de outros tempos, está no centro. Nada de muito óbvio por aqui, pois chegou a ser mudado de sítio durante as guerras liberais (séc. XIX), para dar espaço às touradas na praça, só regressando ao local de origem passados quase 50 anos.Sim, as touradas são uma das tradições mais antigas de que há registo neste Alentejo, pelo menos desde o séc. XVI, e ainda hoje a praça de toiros local, mandada construir por um padre muito aficionado, tem sempre lotação esgotada no 15 de Agosto, dia da festa anual da freguesia.


Praça 1.º de Julho, na Messejana
DR

Perto, fica o Museu Etnográfico da Messejana, da Santa Casa da Misericórdia, instalado num edifício do séc. XVII, revestido a reboco e cal e meio arruinado. À porta, não há informação sobre horários ou dias de visita. Espreitamos pelo portão entreaberto do rústico pátio lateral, onde se guardam alfaias agrícolas, rodas de carroças, mós, bilhas… e ficamos com pena de não poder visitar as 12 salas interiores, repletas de tesouros da tradição e arte popular, dizem.Subimos agora a Rua da Igreja, singular, porque é da igreja matriz que se trata, a tal do topo da colina. No entanto, existem mais três igrejas na freguesia e, em tempos que já lá vão, chegaram a ser 11! Uma das quatro que se mantêm, a Ermida de Nossa Senhora da Assunção ou de “Entre as Vinhas”, afastada três quilómetros da vila, é até considerada um dos principais monumentos do Barroco na região do Alentejo.Esta que, entretanto, já temos à nossa frente, enorme, como outras construídas pela Ordem Militar de Santiago, é a Matriz de Nossa Senhora dos Remédios, com o seu alpendre branco sobre a porta principal, para evitar que o gado entrasse no edifício. No passado, mais do que no presente, este local elevado, rodeado de pastagens, marcava a periferia da povoação que existe como tal desde o longínquo período islâmico. “Masjanâ” (cárcere) era o seu nome que manteve até ao ano de 1235, quando foi reconquistada por D. Sancho II.Ali mesmo ao lado, vêem-se ainda os vestígios do castelo de origem muçulmana. Depois de abandonado, os moradores, com bastante sentido prático, fizeram dele a pedreira da povoação e, aos poucos, desapareceu, não restando mais nada senão uma torre arruinada, junto à qual passa agora um percurso pedestre. O passado surge em camadas e a nossa colina é um repositório de várias histórias. Ao que parece, já era usada como necrópole por povos pré-históricos e depois por romanos. No mesmo local, foram também encontradas estelas visigóticas. Daqui de cima, vê-se quase o Alentejo todo, devem ter pensado os antigos.


Rua da Igreja
fernanda gamito

Mas onde está a praia?De destino improvável a destino imaginário, a distância é curta. Qualquer alentejano que se preze já ouviu falar da Praia da Messejana, embora muitos não lhe conheçam a origem. A piada já tem mais de um século; remonta aos tempos da 1.ª República, quando foi ministro um natural de Aljustrel. Com expectativas elevadas, por terem um vizinho como ministro, representantes da vila foram a Lisboa com um rol extenso de reivindicações. O ministro de Aljustrel terá retorquido: “Não querem também uma praia?” E, prontamente, os da Messejana responderam: “Arranje lá a água, que a gente arranja a areia!”Picardias de vizinhos à parte, esta história da Messejana é também a de todos os alentejanos: presença de espírito, brio, humor fino e capacidade para brincar, serenamente, com as circunstâncias quase sempre adversas. Afinal, com o passar do tempo, o oceano até ficou mais perto; tanto o Atlântico como o Mediterrâneo estão a pouco mais de uma hora, pelas modernas estradas. E do alto da colina desta história, como num farol num mar de restolho, vê-se o pôr-do-sol à tardinha…Fernanda Gamito (texto e fotos)

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