CIÊNCIA

O SNS não se cura sozinho

Deixar de olhar para o problema do Serviço Nacional de Saúde como um problema isolado é essencial. Durante demasiado tempo discutimos a falta de profissionais de saúde como se fosse uma questão exclusiva de salários ou carreiras, esquecendo que esses profissionais são também cidadãos, pais, filhos, vizinhos, enfim… pessoas.Curiosamente, as áreas geográficas atualmente carenciadas de profissionais de saúde não são apenas as zonas isoladas, afastadas de grandes centros hospitalares. São, muitas vezes, as grandes cidades. São os serviços de saúde de Lisboa que lutam para atrair, e manter, médicos, enfermeiros e técnicos.E a pergunta impõe-se: porque não consegue o sistema atraí-los para a grande cidade?A resposta é simples e complexa ao mesmo tempo: porque o problema não é apenas da saúde.Deixemos de olhar para a atratividade das profissões de saúde como uma questão isolada. Atrair um profissional hoje não significa apenas aumentar-lhe a remuneração à hora. Significa oferecer-lhe uma vida com qualidade.É necessário garantir escolas seguras, com horários dinâmicos e compatíveis com os horários laborais dos pais (profissionais de saúde). De realçar que muitos destes profissionais vivem em Lisboa sem rede de suporte familiar.É necessária uma rede de transportes eficiente e fiável, que permita deslocações rápidas, seguras e com ligação às origens dos profissionais vindos de múltiplos lugares do país. Porque não viver em Aveiro e trabalhar em Lisboa? Com uma ferrovia moderna e acessível, seria possível. Afinal, muitos residentes em Lisboa já despendem mais de duas horas diárias no trânsito.

Porque não viver em Aveiro e trabalhar em Lisboa? Com uma ferrovia moderna e acessível, seria possível




É fundamental que o acesso à habitação seja compatível com os salários. Faz sentido manter remunerações tabeladas quando o custo de uma casa na capital é tudo menos tabelado? Como pode um jovem iniciar uma vida estável numa cidade onde o arrendamento consome grande parte do rendimento e comprar casa é financeiramente difícil?E não esqueçamos a cultura. A cultura, nas suas múltiplas formas, é para muitos profissionais de saúde o alimento emocional que equilibra e fortifica o racional. A peça de ouro que previne o burnout e que permite repor a estabilidade psíquica e emocional necessária para enfrentar a rotina laboral.Quem se imagina a viver num país sem teatro, bailado, música ou artes plásticas acessíveis a todos e em qualquer momento?No fundo, falamos de relações.A relação entre o profissional de saúde e o utente está diretamente ligada à relação desse profissional com os colegas, com a família e com a sociedade.Um estudo publicado no Journal of Interprofessional Care mostrou que a coordenação relacional — entendida como o processo que integra a qualidade da comunicação no trabalho e das relações interpessoais (partilha de conhecimento, objetivos e respeito mútuo) — está positivamente associada a maior satisfação profissional, menor burnout e menor rotatividade de profissionais.Quanto mais fortes, saudáveis e credíveis forem as relações, maior será a eficiência dos cuidados prestados e melhores serão os resultados em saúde. A isto chama-se saúde relacional e é urgente o investimento nesta área.


O problema do serviço de saúde não está apenas dentro dos edifícios de saúde. Está na forma como organizamos as cidades, os transportes, as escolas, as casas, as relações e o tempo das pessoas. É um problema conectado a outros problemas e que não carece apenas de uma resolução individualizada, mas sim estruturada e integrada na dinâmica da sociedade e das pessoas.O sistema é uma rede — e essa rede tem fios quebrados. Enquanto não os voltarmos a entrelaçar, continuaremos a perder aqueles que se dedicam a cuidar dos outros.A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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