O Coração Ainda Bate. A falência do amor
Formaram um casal bonito durante muitos anos. Eram luminosos no exterior, não sabendo nós, nunca, com que sombras vive uma relação dentro de casa.As pessoas não param para pensar no amor dos outros até haver uma ruptura. Aliás, pensamos ou sinalizamos se a fricção é evidente, mas, no fundo, todos nos tentamos alhear da vida amorosa dos outros, porque mal sabemos lidar com os nossos atritos, quanto mais com os dos outros?! Lembro-me de um casal, aparentemente bem-sucedido, que não conseguia esconder a sua saturação de uma longa vida de assuntos mal digeridos e que trazia a público o que não conseguia digerir em privado. Pode ser mais fácil arremessar culpas e acusações perante uma plateia do que quando se está perante o outro. Em público, a oportunidade facilmente se esgueira e a confiança parece espelhada no rosto dos outros. Lembro-me sempre deles, desse casal, entre a infelicidade, a insatisfação e ao mesmo tempo o amor que não se explica e que nos faz continuar juntos, ano após ano.Voltemos ao casal que motivou estas linhas. Sempre os vi em equilíbrio, sabendo eu que as relações se abrigam na imprevisibilidade e navegam ao sabor do vento. Nunca se percebe bem onde pode começar a tempestade, mas não costuma poupar os amantes. Os dois, que agora passam a viver histórias separadas, vinham sempre para a rua com um sorriso evidente e cúmplice, mas e se, um dia, isso acaba? Fica a cumplicidade desacreditada? Decretamos a falência do amor só porque um de nós decidiu viver o mundo de forma diferente? Escutando um deles, há dias, pude lembrar-me de como um amor sólido se desmorona numa manhã qualquer. Num jantar com poucas palavras. Numa insónia, onde se desenham as primeiras letras do fim. São anos que terminam em segundos e em que somos tentados a pensar que vivemos uma mentira. A dor tem o condão de nos baralhar a lucidez. A dor ocupa o espaço todo que nem sabíamos que havia em nós. Das vezes em que fiquei de coração partido percebi que havia tanto espaço em mim ocupado pela dor, que, depois disso, só teria largueza para voltar a ser feliz.A dor é alimentada por nós, ainda que depois nos passemos a alimentar dela.Nunca vejo o fim do amor como um fracasso. Podem ter sido anos, décadas ou semanas. E não tendo a avalia-lo pela duração. Há coisas que vivemos em pouco tempo, que foram torrenciais e transformadoras. Lembrei a um destes amantes, agora tristes, a frase que imprimi algures dentro de mim: no amor ninguém está a salvo. E que ninguém se atreva a considerar a sua relação como segura, quando, ao virar da esquina, há sempre uma nova vontade a acenar-nos.Numa ruptura, um casal pode ficar partido a meio, mas, no fundo, vem lembrar a cada uma das partes que sempre foram dois e que são agora novamente dois, às vezes até à procura de outros ‘números’. A ruptura amorosa dá lugar a duas sociedades unipessoais. Passamos a pensar por nós próprios, invocamos a nossa sobrevivência e lutamos com unhas e dentes pelo nosso espaço, agora reconfigurado.Ainda que seja sempre solidária com a dor dos outros, passei a relativizar os males de amor. São infinitas as possibilidades que se desenham para cada um de nós, até quando nenhuma delas se concretiza. Mas não era de sonhos e fantasias pouco credíveis que nos alimentávamos em crianças? Não foi isso que nos deu estrutura para sermos crescidos? Se calhar, até encontramos proporcionalidade na matéria dos sonhos e nos adultos que fomos.Sei que os amantes interrompidos se vão curar das suas dores. Num caso, dor, noutro, ilusão. A dor da ilusão talvez venha a ser pior depois. Mas nunca declaremos fracasso quando falamos do fim do amor. Os amores, tristemente interrompidos à força, precipitam novas histórias, novos começos.Sou a optimista de todos os fins que nos levam ao princípio.O coração ainda bate.









