Geração Z: Protestos organizados por jovens fazem 120 feridos na Cidade do México
Protestos organizados por jovens da Geração Z — nascidos entre os anos de 1997 e 2012 — reuniram milhares de manifestantes na Cidade do México no sábado, 15 de Novembro. Durante a demonstração, confrontos com as forças de segurança fizeram pelo menos 120 feridos, sobretudo agentes da polícia. O movimento jovem, apoiado por outras franjas da sociedade, marchou “pacificamente até que um grupo de indivíduos encapuçados começou a cometer actos de violência”, avançou Pablo Vázquez, secretário de segurança da cidade.A marcha na capital mexicana pretendia protestar contra a corrupção e impunidade do crime violento e organizado no país, bem como contra o Governo da Presidente Claudia Sheinbaum. As autoridades detiveram 20 pessoas por roubo e agressões, acrescentou Pablo Vázquez.“Precisamos de mais segurança”, disse Andrés Massa, manifestante de 29 anos, ao jornal britânico The Guardian, enquanto transportava uma bandeira com a caveira pirata que se tornou símbolo universal dos protestos Gen Z.Arizbeth Garcia, uma médica de 43 anos solidária com o movimento estudantil, afirmou que marchava por mais financiamento para o sistema de saúde público e mais segurança, porque os médicos “também estão expostos à insegurança que domina o país, onde alguém pode ser assassinado e nada acontece”.
Protestos em Guadalajara, a 15 de Novembro
EPA/Francisco Guasco
“Concordamos com a liberdade de expressão e com a liberdade de manifestação se há jovens que têm reivindicações, mas a questão aqui é quem está a promover a manifestação”, disse Claudia Sheinbaum dias antes do protesto, sugerindo que a iniciativa, replicada em várias cidades, terá sido financiada e instrumentalizada pela oposição de direita, avançou a BBC.“As pessoas devem saber como esta manifestação foi organizada, para que ninguém seja usado”, acrescentou.Sheinbaum, no início do segundo ano de mandato, mantém índices de popularidade acima dos 70%, sublinha a BBC. Apesar da contestação generalizada, motivada sobretudo pela impunidade do crime organizado, a Presidente fez no último ano progressos no combate ao tráfico de fentanil — questão central nas relações entre México e EUA para o seu homólogo norte-americano, Donald Trump.Carlos ManzoUruapan fica 400 quilómetros a oeste da Cidade do México. Celebrava-se, na noite de 1 de Novembro, o Día de los Muertos naquela cidade do estado mexicano de Michoacán, quando o presidente da câmara, Carlos Manzo, foi morto a tiro por um jovem de 17 anos com alegadas ligações ao grupo de crime organizado Cartel Jalisco, revelou o El País.O homicídio, tido pelos populares como uma óbvia retaliação do crime organizado contra o autarca, foi um dos motores da revolta generalizada que resultou na organização dos protestos da Geração Z, a 15 de Novembro.
Manifestante ergue cartaz em homenagem a Carlos Manzo durante os protestos em Guadalajara
EPA/Francisco Guasco
Manzo, de 40 anos, foi o primeiro independente a liderar a Câmara de Uruapan. Tinha na luta contra a corrupção e no combate às extorsões e violência por parte de grupos de crime organizado as suas maiores bandeiras políticas.Michoacán é um dos sete estados com mais homicídios do México e, há décadas, representa um desafio em matéria de segurança para os Presidentes mexicanos — um problema que ninguém conseguiu resolver até agora, escreve a Associated Press.Ali, diversos grupos de crime organizado lutam pelo controlo territorial que lhes permita fabricar e transportar drogas ou precursores químicos utilizados na produção de fentanil e metanfetaminas, através do estratégico porto de Lázaro Cárdenas, no Pacífico.Geração Z“Os jovens sempre foram os principais protagonistas dos movimentos sociais, o que não quer dizer que outras pessoas mais velhas não participem”, comentou Cristina Nunes, professora de Sociologia na Universidade Lusófona, em declarações ao P3 sobre os movimentos de manifestações estudantis, em Outubro.Protestos de larga escala organizados por jovens da Geração Z têm-se replicado um pouco por todo o mundo. Apesar das especificidades de cada geografia, as lutas contra a desigualdade, o retrocesso democrático e a corrupção são denominador comum em quase todos os casos.A revolta eclodiu em Setembro no Nepal, foi iniciada depois de o Governo ter bloqueado o acesso a várias redes sociais, levou à morte de 34 pessoas e culminou na demissão do primeiro-ministro.No mesmo mês, a revolução da Geração Z triunfou em Madagáscar, obrigando o ex-Presidente Rajoelina à fuga, para a ilha da Reunião. As Forças Armadas de Madagáscar assumiram depois o controlo da ilha, confirmando o golpe de Estado, antecedido por semanas de intensos protestos protagonizadas pelos jovens e apoiados por parte das forças militares.Na Indonésia, os partidos políticos concordaram em recuar na concessão de uma série de privilégios aos deputados, em Agosto, também na sequência de violentos protestos em várias cidades, organizados por movimentos estudantis.Na Sérvia, os estudantes que bloquearam estradas, edifícios da televisão pública e universidades por todo o país durante o último ano — em protestos antigovernamentais motivados pela tragédia de Novi Sad, que fez 16 mortos em Novembro de 2024 —, provocaram também a queda do Governo e a grande instabilidade política vivida actualmente no país. O Presidente, Aleksandar Vucic, segue inamovível na sua recusa em convocar novas eleições, reivindicadas por grande parte da população.Os estudantes sérvios estiveram entre os três finalistas nomeados para o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento de 2025, atribuído pelo Parlamento Europeu.Como acontece na Sérvia, em que os estudantes não têm sequer um líder — de modo a evitar enviesamentos políticos e tendências menos democráticas —, cada vez mais estes movimentos estão desprendidos de afiliações políticas e sindicais, funcionando até com maior fluidez, e de forma mais rápida, no mundo digital, notou Cristina Nunes.










