“Preconceito contra português brasileiro é de uma ignorância atroz”, diz Agualusa
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Até onde vai a escrita? O que um autor consegue alterar no mundo ao escrever? Essas são algumas das perguntas que vão estar no ar na próxima terça-feira, 18, de novembro, a mesa de debates que vai reunir o angolano José Eduardo Agualusa, o português Rui Couceiro e a brasileira Bruna Lombardi, na Feira Literária Internacional de Saquarema (FLIS), com o tema O poder da escrita: tocar o invisível.É a primeira vez que Agualusa, 64 anos, participa da FLIS, que este ano chega à sua quarta edição. Com livros traduzidos em mais de 30 idiomas, o premiado autor falou com o PÚBLICO Brasil, entre outros assuntos, sobre xenofobia e o avanço da extrema-direita em Portugal e sobre a importância das feiras literárias brasileiras.Para Agualusa, os encontros literários brasileiros têm ajudado a aumentar o número de leitores no Brasil. “Eu acompanho esta febre de festivais há anos. A multiplicação de festivais literários está a mudar o Brasil completamente, porque está a criar novos e melhores leitores”, avalia ele. “Porque eu percebo que as pessoas conhecem os livros. Normalmente há sempre muita gente e elas realmente leram os livros. Isto é importante não só porque é uma alegria encontrar leitores que conhecem as nossas obras, mas também porque eles nos ensinam a ler os nossos livros”.Agualusa acredita que um livro só “começa a existir” no momento em que é lido, e não quando a publicação termina de ser escrita. “Um livro que não tem leitores não existe. Quando a pessoa lê um romance, uma ficção, ela recria, reinventa a história. Essa é a grande diferença entre a literatura e o cinema. Você vai assistir a um filme e está tudo pronto. Quando você abre um livro, não é isso que acontece. Ele é recriado dentro de si. Você dá rosto às personagens”, enfatiza.O escritor aponta também que a literatura é uma ponte entre as pessoas, principalmente nos dias de hoje, em que o mundo vive uma época que ele considera conturbada e confusa. “Em tempos que são, em larga medida, de construção de muros, de afastamento das pessoas e de clivagem, a literatura trabalha no sentido contrário”, frisa. “Quando o leitor abre um livro, o convite é que, durante algum tempo, algumas horas, ele seja outra pessoa, que ele entre na pele de um personagem. E, nesse sentido, é um convite para a abertura, para ser o outro, para conhecer o outro. Esse exercício de alteridade é essencial”, reflete.Exercício que ele também ressalta que deve ser feito em Portugal, principalmente com o avanço da extrema-direita e dos casos de xenofobia no país. “O que está a acontecer não é apenas em Portugal. Está a acontecer numa boa parte do mundo. É uma doença que está se alastrando. Portanto, essa doença é uma forma de cegueira, que faz com que você não se veja no outro. Há forças e pessoas que estão tentando desumanizar o outro, torná-lo um inimigo. E a literatura faz exatamente o oposto. Ela mostra que os outros somos nós”, declara Agualusa.Questionado sobre o preconceito que muitos brasileiros sofrem em território luso, por causa da língua portuguesa, ele se mostra indignado e dispara: “Como se a língua não fosse uma única. E se você ama a língua portuguesa, tem que amá-la em todas as suas variedades. Amar a língua portuguesa significa querer conhecê-la melhor. Não é possível conhecer a língua portuguesa falada em Portugal se você não conhecer a língua portuguesa falada no Brasil, em Angola, em Moçambique, na Guiné-Bissau, em Cabo Verde, em São Tomé, em Timor-Leste. A língua portuguesa é esse conjunto de falares”, afirma. “Eu vejo isso sempre com perplexidade, porque mostra um enorme desconhecimento em relação à língua. É de uma ignorância atroz. O que me incomoda mais nessas manifestações de ódio é a ignorância da própria língua. Não pode haver ignorância mais perversa e triste”.
Para Agualusa, rejeitar o português do Brasil é uma forma de cegueira
Divulgação
Finalista do Prêmio OceanosAgualusa, que concorre ao Prêmio Oceanos de Literatura 2025, com Mestre dos Batuques, já está cheio de planos para 2026. Um deles é a publicação, em Portugal, de uma antologia de contos. O outro é o lançamento de um livro para o público infantil, com ilustrações de Henrique Cayatte, em Portugal, e, no Brasil, de Roger Mello. “Isto estou-lhe a anunciar em primeira mão. O livro ainda não tem um título fixo, mas, em princípio, deve ser Pai, conta-me uma história”, antecipa.Ele também anuncia que Tudo Sobre Deus, seu mais recente romance, deve ser publicado no Brasil no segundo semestre de 2026. “Muitos dos meus livros de contos, inclusive este último, Quero Ser os Teus Domingos, não estão publicados no Brasil. Mas eu estive na Livraria da Travessa, no Rio, e vi que estavam vendendo a edição portuguesa. Significa que há interesse por parte dos leitores, que não esperam chegar a edição brasileira”, comemora.Em sintonia com a COP30 – Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, que acontece em Belém, até o próximo dia 21 -, a FLIS, que começou no último dia 11, também está focada na edição deste ano a temas como a proteção ao meio ambiente e ao lançamento de livros de autores indígenas. Na programação, haverá ainda shows dos cantores Toni Garrido e Tiago Iorc. A autora de livros para crianças, Bia Bedran, é a homenageada da feira, que tem o tema Ler é abrir-se para o mundo. Organizada pela Prefeitura de Saquarema, a FLIS, no ano passado, segundo a produção do evento, recebeu cerca de cem mil visitantes. A entrada é livre.
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