Sudão: ONU investiga relatos de massacres e desaparecimentos em El Fasher
Uma missão independente das Nações Unidas (ONU) irá investigar os relatos de massacres e desaparecimentos no Sudão, após a tomada da cidade de El Fasher, capital da província do Darfur, por parte das Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla original), grupo paramilitar sudanês. O anúncio foi feito pela ONU esta sexta-feira, 14 de Novembro, na sequência de uma reunião de emergência em Genebra.As RSF capturaram El Fasher — a última cidade do Darfur que era ainda controlada pelo Exército do país — a 26 de Outubro, numa ofensiva militar que pôs termo ao cerco à cidade, que durava há 18 meses. De acordo com a ONU, há “relatos credíveis de atrocidades generalizadas, incluindo execuções sumárias, homicídios motivados por questões étnicas, violência sexual, raptos e ataques deliberados contra civis”.Cerca de cem mil pessoas fugiram de El Fasher e das regiões circundantes apenas nas últimas duas semanas, avança a agência da ONU para os refugiados (UNHCR, na sigla original).Pelo menos 37 mil deslocados encontraram refúgio em Tawila, uma pequena cidade a 50 quilómetros de El Fasher. Aí, os que chegam relatam cenas de “terror inimaginável”, afirma Jacqueline Parlevliet, responsável da UNHCR em Porto Sudão.“Pais procuram crianças desaparecidas, muitas delas traumatizadas devido ao conflito e à viagem perigosa para alcançar segurança. Incapazes de pagar resgates, as famílias perderam jovens rapazes para o recrutamento forçado por grupos armados”, explicou a responsável da UNHCR.“Alertámos que a queda da cidade para as Forças de Apoio Rápido resultaria num banho de sangue”, afirmou Volker Türk, Alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos. “Todos os envolvidos neste conflito devem saber: estamos a observar-vos e a justiça terá de prevalecer”, insistiu.”As atrocidades que estão a ocorrer em El-Fasher eram previsíveis e evitáveis, mas não foram evitadas. Constituem os crimes mais graves”, disse, acrescentando que “tem havido demasiada pretensão e encenação, e muito pouca acção” por parte da comunidade internacional face à devastadora guerra civil no Sudão.
Num dos episódios mais brutais, fugitivos relataram que, durante o ataque, as RSF mataram indiscriminadamente todas as pessoas que encontraram dentro do Hospital Saudita de El Fasher.As manchas de sangue no solo em El Fasher podem ser vistas do espaço, afirmou Volker Türk. O Laboratório de Investigação Humanitária da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, que equiparou a violência das primeiras 24 horas da tomada de El Fasher ao genocídio do Ruanda, tinha já analisado as imagens de satélite onde se viam “aglomerados compatíveis com corpos humanos” e áreas de solo cobertas por manchas vermelhas.KordofanO Alto-comissário da ONU alertou também para o aumento da violência na região central de Kordofan, um dos focos do conflito, que funciona como “zona tampão” entre as regiões dominadas pelas RSF, a oeste, e os territórios controlados pelo Exército sudanês, a leste.A recente intensificação dos ataques com drones e novas movimentações de tropas e armamento, tanto do lado das RSF como do Exército, sugerem que ambos estão agora a concentrar esforços precisamente em Kordofan, avançou a Reuters na quinta-feira, 13 de Novembro.As RSF avançavam em Kordofan ao mesmo tempo que tomavam El Fasher, no final de Outubro, tendo capturado nessa altura a cidade de Bara, ponto estratégico entre o Darfur e o centro do Sudão. O Exército tinha recuperado a cidade apenas dois meses antes.Segundo Amy Pope, directora-geral da Organização Internacional para as Migrações, aproximadamente 50 mil pessoas foram deslocadas de Kordofan nas últimas semanas.”Temos de vos matar”Os sobreviventes que fugiram de Bara descreveram também ataques de vingança e execuções sumárias contra pessoas acusadas de apoiar o Exército.”Disseram-nos que festejaram com o Exército… Temos de vos matar”, diziam os rebeldes a um dos residentes no momento em que o sentaram numa fila com outros oito homens, dois dos quais foram executados por um soldado das RSF, contou à Reuters o sobrevivente, já em Cartum, a capital sob controlo do Exército.Outro sobrevivente, Ismail, descreveu a forma como encontrou abrigo dentro de uma casa enquanto homens eram abatidos na rua. Acabou por conseguir pagar a um rebelde para escoltar a sua família para fora da cidade.As RSF aceitaram na semana passada uma proposta de cessar-fogo dos Estados Unidos. No entanto, o Exército não cedeu, e fechou-se a janela de oportunidade que poderia permitir que ajuda humanitária chegasse à população.Tanto as RSF como o Exército sudanês já aceitaram várias propostas de cessar-fogo desde o início da guerra, há dois anos e meio, mas nenhuma teve sucesso.










