<em>Splinternet</em> e o risco de a Internet, como a conhecemos, desaparecer
O acesso à Internet — e a tudo o que dela depende, de lojas virtuais a redes sociais — é hoje encarado como algo garantido. Mas o fenómeno conhecido por splinternet, a fragmentação da rede em ilhas digitais separadas por fronteiras políticas e filtros estatais, ameaça essa ideia de universalidade.Kurtis Lindqvist, presidente executivo do ICANN (internet corporation for assigned names and numbers), explicou-nos, em entrevista durante a Web Summit, porque é que esta fragmentação é um risco “absolutamente existencial” para o modo como a Internet funciona. O ICANN é uma organização global sem fins lucrativos responsável por coordenar o sistema de nomes de domínio (DNS) e endereços IP — em termos simples, o “livro de endereços” da internet. É o que permite que, ao escrevermos um endereço (URL), a rede saiba onde encontrar o destino pretendido. A estabilidade e abertura deste sistema são vitais — e estão a ser postas à prova.Uma rede em camadasPara compreender o perigo, é preciso perceber como a Internet está estruturada. “Não é um bloco único”, explica Lindqvist. “Tem várias camadas: a base técnica, onde o ICANN actua, com nomes de domínio e endereços IP; as aplicações; e, no topo, o conteúdo.” O problema surge quando os governos confundem estas camadas. “Ao tentar controlar o que circula online, alguns países interferem directamente na infra-estrutura técnica — o que pode ter efeitos imprevisíveis em toda a rede”. Quando essa camada base é manipulada, a Internet deixa de ser um espaço global e interoperável. “O perigo é que, quando a camada fundamental começa a fragmentar-se, todas as outras deixam de funcionar da mesma forma. Já não se tem o mesmo alcance, já não se tem o mesmo acesso”, alerta o responsável.Lindqvist nota que muitos governos usam ferramentas erradas para regular conteúdos. “Se se bloqueiam nomes de domínio ou endereços IP, está-se a interferir na estrutura técnica. Há formas mais eficazes de filtrar conteúdo do que mexer na base da rede.” Esta abordagem de “terra queimada” não é apenas um erro técnico — tem custos económicos. A Internet tem sido um dos grandes motores de crescimento nas últimas décadas, justamente por ser universal. “Se começarmos a erguer barreiras, começamos a encolher o potencial de criação de valor”, avisa Lindqvist. O processo, diz, é lento mas contínuo. A splinternet não acontece com um corte de cabos, mas por acumulação de restrições. “Não seria algo rápido, seria gradual.” Mesmo países com regimes fechados continuam a ver utilidade na ligação à rede global — mas a experiência dos utilizadores torna-se desigual.O caso do Reino Unido ilustra o problema: quando o Governo tentou obrigar a Apple a entregar chaves de encriptação, a empresa simplesmente deixou de oferecer o serviço no país. “O resultado é que o serviço deixa de ser o mesmo. Quanto mais isto acontece, mais a Internet se fragmenta. Deixamos de ter uma rede homogénea.” Essa divisão prejudica até a inovação tecnológica. “Os modelos de inteligência artificial são melhores quanto mais dados têm. Quando começamos a limitar o acesso, o desempenho destes modelos piora.”
Kurtis Lindqvist defende que bloqueios a sites e serviços online podem ter consequências sobre toda a internet
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Manter a política fora Perante um mundo cada vez mais polarizado, o ICANN defende o modelo multistakeholder, que junta governos, empresas e sociedade civil na governação técnica da rede. O objectivo é simples: manter a política fora da infra-estrutura. “A camada fundamental da Internet não é geopolítica”, sublinha Lindqvist. “O valor está em ser comum a todos.” Manter a discussão técnica separada da política é essencial para preservar a integridade do sistema. Apesar das ameaças, o ICANN continua a reforçar a segurança e a inclusão da rede. Lindqvist destaca o DNSSEC, que protege contra ataques de falsificação, e a chamada “aceitação universal”, que permite nomes de domínio e endereços de email em alfabetos locais — um passo importante para integrar os próximos mil milhões de utilizadores que não falam inglês.Mas o maior desafio será defender os princípios que fizeram da Internet um sucesso: abertura, transparência e alcance global. “Temos de continuar a proteger o modelo que funcionou tão bem”, afirma. A complacência, avisa, é o verdadeiro inimigo: “A internet teve tanto sucesso que as pessoas tomam tudo como garantido… E devemos de garantir que não o façam.”










