Cisjordânia: colonos israelitas atacam na apanha da azeitona
A apanha da azeitona está a ser palco de violência de colonos na Cisjordânia ocupada, num período não só crucial para a economia como de enorme significado cultural para as pessoas na Palestina.A ONU diz que este é o ano com maior número de ataques de colonos na Cisjordânia ocupada desde que começou a documentá-los, em 2006: cerca de 77 localidades foram atingidas por grupos de colonos que queimaram carros, pilharam equipamentos, e vandalizaram mais de 4000 árvores.A par de títulos ou imagens de palestinianos ensanguentados na sequência de ataques, não são raros títulos de notícias sobre a destruição de oliveiras centenárias, muitas vezes acompanhados da sua idade.“A oliveira nunca é só uma oliveira”, disse à CNN Ajith Sunghay, o responsável do alto comissariado da ONU para os direitos humanos nos territórios palestinianos ocupados. “É sustento e herança, resiliência e economia, uma veia histórica que liga os palestinianos à terra.”Sunghay acrescentou que há cem mil famílias cujo sustento vem da azeitona – além da azeitona e do uso alimentar do azeite, este é também a matéria-prima para o conhecido sabonete de Nablus. E a madeira de ramos ou oliveiras que já não produzem são usados para peças de artesanato.Precisamente por causa deste simbolismo, tem havido campanhas de solidariedade fora dos territórios palestinianos, como a Oliveiras pela Palestina, que tem organizado apanhas solidárias em Portugal.Na Cisjordânia ocupada foram registadas, nesta época da apanha, várias agressões em vídeo, com uma em particular, de uma mulher mais velha atacada por um colono jovem de cara tapada com um pau, foi muito divulgado e levou à indignação internacional. As autoridades israelitas disseram, entretanto, ter detido o potencial agressor.Estas agressões costumam acabar impunes: segundo o grupo de defesa de direitos humanos Yesh Din, de 1701 investigações da polícia a crimes cometidos por israelitas na Cisjordânia ocupada (excluindo Jerusalém Oriental), 93,8% dos casos foram fechados sem qualquer acusação.O sistema é diferente conforme quem é julgado: palestinianos nos tribunais militares, colonos ou outros israelitas nos tribunais civis israelitas. A ONU considera que os tribunais militares não permitem julgamentos justos para os palestinianos na Cisjordânia ocupada.O Exército israelita declarou alguns locais zonas militares fechadas, impedindo activistas israelitas de se juntarem aos palestinianos durante o dia, o que fazem para tentar que os grupos sejam mais numerosos e assim menos susceptíveis a ataques.Num dos casos, a polícia impediu a entrada de sete autocarros de activistas do Peace Now para a localidade de Burin, no Norte do território, sem apresentar os documentos necessários, disse o advogado Gilad Kariv.A jornalista freelance Noga Tarnopolsky relatou na rede social X (antigo Twitter) que a justificação dos militares foi “o aumento do número e gravidade dos incidentes violentos” durante a apanha da azeitona. Mas a jornalista comenta que “não há sinal de que os que levaram a cabo violência tenham sido impedidos” de chegar ao local.Nos números de ataques não estão considerados ataques que não são violentos, mas têm efeitos: há, por exemplo, colonos a levar vacas para que estas comam os ramos das oliveiras, deixando-as sem azeitonas. O objectivo é o mesmo, levar os palestinianos a sair das suas comunidades e terras, seja por ficarem sem o seu sustento, seja por medo.Outro caso foi o de um activista israelita atingido por uma grande pedra por um colono, relata o Haaretz: Oded Yedaya, apresentado como artista e activista político que em tempos fez parte de uma unidade militar de elite (a par do actual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu), contou como foi atingido mesmo tendo o seu agressor percebido que era judeu, e concluiu: “Podemos ter chegado ao ponto em que colonos tentam matar judeus.”Em editorial, o diário Haaretz sublinhava que, se fossem poucos, os colonos violentos não conseguiriam cometer mais de dois ataques por dia em média, segundo o Exército israelita, ou 15 por dia, segundo a Organização para a Libertação da Palestina, cita o jornal. Por isso, sublinhava, estes grupos “não são nem marginais nem meia dúzia”.










