CIÊNCIA

Os cinco sentidos à prova na COP30

Já há quem lhe chame, em jeito de brincadeira, The Climate Change Experience. A COP30, a Cimeira do Clima que decorre em Belém do Pará, no Brasil, às portas da Amazónia, mexe com os cinco sentidos: a pele a transpirar com o tempo quente e húmido fora e muitas vezes dentro de portas; o canto vibrante dos pássaros, incluindo os que rondam a enorme árvore sumaúma à entrada do pavilhão onde decorrem as negociações; a língua levemente dormente depois de experimentar as iguarias locais com jambu, uma planta amazónica. Se cá fora é a floresta que enche os olhos, dentro do recinto o que chama a atenção são as penas coloridas dos cocares sobre algumas das cabeças que circulam entre as camisas e fatos escuros.”Chegar à Amazónia e cheirar a floresta é uma das melhores coisas”, descreveu ao Azul Hettie Geenen, capitã do icónico navio Rainbow Warrior, da Greenpeace, atracado no porto da Universidade Federal do Pará, onde decorre a Cúpula dos Povos. “Podes gravar vídeos, podes tirar selfies, mas este cheiro não é possível partilhar.”Esta é uma COP que também se define, contudo, naquilo que não se sente.Ainda não está à vista uma decisão que se debruce claramente sobre a incapacidade dos países chegarem a planos que, colectivamente, sejam suficientes para reduzir as emissões de combustíveis fósseis. A referência ao fim dos combustíveis fósseis, aliás, continua em parte incerta.Ouvem-se promessas, mas o silêncio reina quando o que está em cima da mesa são compromissos robustos e permanentes sobre o financiamento necessário para apoiar os países em desenvolvimento na enorme empreitada de desenvolverem as suas economias com energias limpas, adaptar-se a um clima em mudança e serem apoiados pelas perdas e danos dos eventos climáticos extremos.Um pouco por todo o lado há propostas alternativas que cheiram a esturro, as “falsas soluções” que, como têm denunciado os países em desenvolvimento, não estão a funcionar, como os mercados voluntários de carbono ou o recurso a biocombustíveis que usam recursos preciosos em vez de excedentes.Quem sente na pele o impacto desta inacção são as populações mais vulneráveis. Nesta COP da floresta, a primeira que decorre na Amazónia, o protagonismo está com os povos indígenas, que querem entrar na conversa das suas vidas – mesmo que para isso seja preciso abalroar as portas da Zona Azul.A COP30 ainda só vai no início, com a diplomacia brasileira a manter uma postura serena e reforçando o espírito do mutirão: “toda a gente aqui quer mostrar ao mundo que o multilateralismo funciona, acho que estamos numa boa direcção”, afirmou o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP, na quarta-feira. Resta esperar pela chegada dos ministros do ambiente e clima dos diversos países e, no final da próxima semana, descobrir se o sabor que fica na boca terá um travo amargo ou a alegria do jambu.O Azul está em Belém para acompanhar a conferência do clima das Nações Unidas. Siga a nossa cobertura em publico.pt/COP30.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo

Para continuar no site, por favor, desative o Adblock.

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.