Singulier, o novo <em>cuvée </em>da Ruinart é “uma história de adaptação”
A Ruinart começou a pensar no futuro e em como, apesar das alterações climáticas — que afectam todo o mundo do vinho, sem excepção —, conseguiria manter a elegância e a frescura aromática do seu Chardonnay, ainda o seu cellar master era Frédéric Panaïotis. O enólogo, que em 2027 faria 20 anos à frente dos champanhes da casa, morreu em Junho num acidente de mergulho. Em Janeiro, suceder-lhe-á Caroline Fiot, que já trabalhava com aquele profissional há alguns anos.O clima tem vindo a mudar e, com ele, as uvas, mas o que não podia mudar eram o champanhe da Ruinart. E dessa resiliência e de uma capacidade de adaptação que sempre caracterizou Champagne, e o mundo do vinho em geral, que nasce o Ruinart Blanc Singulier Edition 19. Há anos que a Ruinart não lançava um novo cuvée. Este surgiu em 2024 depois de a casa ter “lido a vinha”. É resultado de em 2015 terem tido um Verão muito quente, que lhes deu Chardonnay muito quentes e alcoólicos. Em 2016 e 2018, a mesma coisa.Foram pondo de lado esses vinhos, mais intensos e com perfis aromáticos distintos daquele a que a casa estava habituada (e a que habituou a sua clientela), que antes iam para os lotes de Blanc de Blancs ou Dom Ruinart, até que perceberam que aquele contributo alteraria profundamente o perfil destas referências e decidiram engarrafar outra coisa. Fizeram uma primeira experiência em 2018, mas só este 2019 chegou, recentemente, ao mercado. Só está à venda em Reims, na Ruinart, e nos espaços de alguns chefs com quem a maison vai colaborando.É um blend de vários crus (terroirs de qualidade excepcional), a lista é considerável “e continua a mudar”, explicou o enólogo Victor Gandon durante uma prova em Reims, sendo que as uvas vêm predominantemente da Montagne de Reims, Côte des Blancs, Grande Vallée de la Marne, Vallée du Petit Morin, Sézannais e Vitryat. “Temos vindo a observar um padrão. Há uns anos, não falávamos tanto de algumas das vinhas que entram neste Singulier, agora falamos delas por causa do aquecimento global.”Este 2019 — de um ano marcado por um Verão com três intensas ondas de calor e “uma temperatura recorde de 41ºC” — continua a oferecer frescura, mas é um cuvée diferente, de cor amarelo-dourado, remete-nos mais para a fruta branca, lembra também o pêssego e tem ainda notas de flores brancas, um lado doce (que está só no aroma, já que este brut nature tem 0 gramas de açúcar por litro) e um toque especiado e fumado. Na boca, o ataque é fresco e essa frescura mineral dá depois lugar uma riqueza de sabores (fruta branca e citrinos) e a uma textura envolvente. Um champanhe tenso, com estrutura e várias camadas de aroma e sabor, que termina comum travo ligeiramente amargo.
O Ruinart Blanc Singulier Edition 19 é o novo cuvée da casa fundada por Nicolas Ruinart em 1729
Rachelle Simoneau / Ruinart
“Em Champagne, os viticultores estão a perder um ano em cada dois. Era suposto, aqui, termos Outonos chuvosos, Invernos rigorosos e frios, Primaveras frescas e Verões quentes. Isto era o que acontecia normalmente, mas já não é esse o caso”, explicou-nos Victor, que é gestor do projecto de agrofloresta da Ruinart, e que nos falava junto à sebe que substituiu três bardos de videiras no meio da vinha de 40 hectares que a casa tem em Tessy.As sebes plantadas em 2022, a maioria nas extremidades da propriedade e totalizando 22.000 árvores, servem de abrigo a insectos auxiliares que se alimentam das pragas da vinha e também “funcionam como barreira natural à progressão de doenças fúngicas”, disse-nos Gandon.“Agora, quando está calor, está muito calor. E, quando chove, continuamos a ter muito calor. E há anos em que parece que estamos num clima tropical. Lembro-me, em 2021, quando tivemos um dos Verões mais quentes de sempre — o de 2024 andou perto —, de pensar pela primeira vez que naquele tipo de condições devíamos estar a produzir manga.”Antecipando a “perturbação extrema” de que nos falou o jovem enólogo, a Ruinart, para além de trabalhar com a natureza na vinha, começou a construir na adega uma “perpetual reserve”, uma espécie de solera simplificada, para assegurar consistência a um produto que tipicamente depende do ano vitícola. Todos os anos, tira cerca de 20% da reserva e atesta-a com vinho novo. O lote desta primeira edição do Singulier tem 77% de vinhos do ano e 23% da tal reserva, iniciada em 2017 e envelhecida em casco de carvalho e inox numa proporção de 50-50. O vinho base estagiou três anos nas caves da Ruinart.A Ruinart, que apresenta este novo cuvée como “a variação de um ano, com a sua expressão intensa”, também fez Singulier em 2020, saltou o tal ano quente de 2021 e ainda está a ver como evolui o 2022. Como diz Victor, “a produção de vinho sempre foi uma história de adaptação”.
Nome Ruinart Blanc Singulier Edition 19
Produtor Ruinart;
Castas Chardonnay
Região Champagne
Grau alcoólico 12,5%
Preço (euros) Preço: 110€ (só na Ruinart, em Reims)
Pontuação 95
Autor Ana Isabel Pereira
Notas de prova Adiantando-se a um impacto cada vez maior das alterações climáticas no terroir champanhês, a maison Ruinart começou em 2017 a fazer uma “reserva perpétua”, uma espécie de solera simplificada, para assegurar consistência a um produto que tipicamente depende do ano vitícola, de onde no futuro viria a tirar 20% para o lote de um champanhe singular. Esse vinho é este Ruinart Blanc Singulier Edition 19, o mais recente cuvée da casa. Os outros 80%, um blend de Chardonnay de vários crus, são de um ano marcado por um Verão com três intensas ondas de calor e temperaturas recorde de 41ºC. Apesar disso, é fresco. Remete-nos para a fruta branca, lembra também o pêssego e tem ainda notas de flores brancas, um lado doce (só no aroma, já que tem 0 gramas de açúcar por litro) e um toque especiado e fumado. Na boca, a sua frescura mineral dá logo lugar a uma riqueza de sabores (fruta branca e citrinos) e a uma textura envolvente. Tenso e estruturado, termina comum travo ligeiramente amargo.









