CIÊNCIA

Passos Coelho gostava de ter uma “geringonça”?

Dar do veneno que os outros nos deram a provar pode ser por vingança ou apenas um exercício da reciprocidade de que ninguém está isento. Quando vi Passos Coelho a participar na campanha eleitoral em Sintra, argumentando que o PSD deve deixar cair as linhas vermelhas em relação ao Chega, recuei dez anos.Faz exatamente por esta altura, há dez anos, que a coligação PaF (Portugal à Frente) ganhou as eleições legislativas, mas ficou aquém da maioria absoluta. Depois de mandatado para formar Governo, Passos Coelho liderou um Governo efémero. O XX Governo constitucional durou 28 dias. O Programa de Governo foi rejeitado num Parlamento onde os deputados de esquerda e de extrema-esquerda eram a maioria. Daí à “geringonça” foi um salto de pardal. Passos Coelho saiu pela porta pequena. Consta – ou é ele próprio que o deixa entender, nas poucas aparições públicas – que guardou um imenso ressentimento. Os dez anos que passaram não serviram para curar o rancor.Para os propósitos deste texto, não me interessa levantar o véu das táticas partidárias que são insondáveis para o cidadão comum. O que me interessa é apurar o comportamento de quem ficou sentido com a “traição” das esquerdas que se uniram numa coligação informal só para impedir a coligação PSD-CDS de continuar no poder (assim soou a reação de Passos quando o Parlamento o apeou do cargo). Na altura, os ânimos ficaram exaltados e a irritabilidade levou muitas pessoas de direita a denunciar a alegada inconstitucionalidade da “geringonça”. Iracundas, acusavam os partidos das esquerdas de terem ganho na secretaria o que tinham perdido nas urnas, como se não houvesse experiência de governos liderados por partidos que não ganharam eleições (mas não em Portugal).Nessa altura, os adeptos de Passos Coelho criticaram o PS por ter cedido à esquerda radical e à extrema-esquerda. Houve gente situada à direita que evocou as dores dos socialistas que não deram o braço aos comunistas no Verão Quente de 1975 e contribuíram para salvar a democracia das ambições totalitárias do PCP. Em desespero de causa, valeu isto e muito mais. Mas a “geringonça” prosperou, apesar da animosidade dos adeptos de Passos (e, pode-se dizer, sem correr o risco de mau diagnóstico, do próprio Passos).Dez anos depois, Passos Coelho reaparece e defende acordos com um partido de extrema-direita. Passos e os seus seguidores poderão argumentar que, se o PS se entendeu com esquerdas com poucos ou nenhuns pergaminhos democráticos, a “direita” também pode flirtar com a extrema-direita. Em nome da igualdade. E da reciprocidade também: se a esquerda moderada viveu em união de facto com as esquerdas radicais e pouco ou nada democráticas há dez anos, estilhaçando uma linha vermelha que vinha desde 1974-75, esse terá sido o precedente que, dez anos depois da “geringonça”, habilita uma “geringonça” entre a direita e a extrema-direita.O argumento não é convincente. Falha por situar quem o formula no mesmo patamar onde se colocaram os da esquerda moderada que há dez anos se enamoraram, por mero calculismo, com as esquerdas à sua esquerda. A pergunta que tem de ser feita é a seguinte: se há dez anos Passos e os seus seguidores criticaram o PS pelo entendimento com as esquerdas radicais, que legitimidade têm agora para desfazer as linhas vermelhas entre a direita moderada e a extrema-direita? Dirão que às custas do precedente aberto pelo PS, o PSD também pode fazer entendimentos com o Chega. Na lógica da igualdade, é um argumento irrebatível. Os efeitos retroativos deste comportamento não podem ser sonegados: quem tanto criticou a “geringonça” e agora está preparado para amesendar com a extrema-direita perde, com uma distância de dez anos, a legitimidade pelas críticas que outrora dirigiu às esquerdas; ou pior: com dez anos de atraso, legitima a “geringonça” original.Pouco me importa que Passos Coelho cuspa um ressentimento avivado dez anos depois e seja defensor de acordos, alianças, ou entendimentos com um partido como o Chega. Estas aparições episódicas de Passos até são terapêuticas. A aura sebastiânica que uma certa direita associa a Passos esbate-se quando ele preconiza uma solução equivalente àquela que tanto criticou quando, há dez anos, a “geringonça” lhe tirou o tapete. A máscara de Passou caiu e o que temos é um Passos (ainda) consumido pelo rancor a militar a favor do concubinato com a extrema-direita. Talvez estejam encontrados os que, à direita, tanto gostavam que Passos saísse da sepultura política. Descontando o inefável Relvas, serão os que emigraram para a extrema-direita?


Não sou ninguém para julgar a (in)coerência dos outros. Porém, causa-me espécie a duplicidade de padrões de quem trepou às paredes quando soube da união de facto entre o PS e as outras esquerdas e agora convive pacificamente com a possibilidade de a direita moderada se entender com a extrema-direita. Em que ficamos? Aceitam, com a distância de dez anos, que não tinham razão quando mobilizaram toda a sua fúria contra a “geringonça”? Ou esta vingança fria, que soa a acerto de contas com a “geringonça”, é uma reação nada consentânea com os valores cristãos de que pessoas deste quadrante se dizem tributárias?Post Scriptum: Já após ter enviado este texto para publicação, Marco Almeida, recém-eleito presidente da Câmara de Sintra, anunciou um acordo de governação com o Chega. Não terá sido por acaso que Sintra foi uma das aparições cirúrgicas de Passos Coelho durante a campanha eleitoral para as eleições autárquicas.O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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