Ex-provedora militar de Israel em prisão domiciliária, telemóvel encontrado
A antiga provedora-geral militar das Forças Armadas de Israel, que está a ser investigada por ter decidido passar a um jornalista um vídeo mostrando um prisioneiro palestiniano a ser torturado, foi posta, esta sexta-feira, em prisão domiciliária depois de estar desde segunda-feira detida numa prisão. O seu telemóvel, no centro de muita especulação por ter desaparecido, foi encontrado por uma mulher que nadava numa praia perto de Telavive.Yifat Tomer-Yerushalmi admitiu, há uma semana, ter autorizado, em Julho, a passagem a um jornalista de um vídeo de tortura num centro de detenção de palestinianos de Gaza, para que se desfizessem dúvidas sobre se havia motivo para uma acusação a vários reservistas (quando houve notícias sobre a detenção dos militares para serem interrogados, houve uma invasão do centro de detenção e de uma base militar por pessoas que os defendiam). No vídeo, os agressores escondem-se atrás de escudos anti-motim.Cinco reservistas suspeitos estão a ser acusados, mas estão em liberdade. O prisioneiro torturado ficou com lesões graves. Tinha sete costelas partidas, um pulmão perfurado, o recto lacerado e hemorragias internas, tendo sido sujeito a cirurgia e uma colostomia. Suspeita-se que tenha sido sodomizado com um objecto, mas na acusação aos militares não está mencionada a violação.
O jornalista Muahammad Shehada relatou, na rede social X (antigo Twitter), a libertação do ex-prisioneiro há cerca de três semanas. Este não quis ser identificado por medo de ser morto para não poder falar sobre a tortura que sofreu no centro de Sde Teiman, um local onde este tipo de tratamento era comum (um reservista que passou por lá comentou mesmo ao diário Haaretz que não era motivo de espanto que os prisioneiros morressem mas sim que conseguissem manter-se vivos).A ex-provedora (que era a mais alta instância militar de Israel num cargo que não tem equivalente nas Forças Armadas portuguesas) desapareceu depois de ter admitido que deu autorização para que o vídeo fosse passado a jornalistas, mas entretanto, depois de buscas, foi encontrada no domingo numa praia perto de Telavive, sem o telemóvel, sendo depois detida. Especulava-se que podia ter considerado suicidar-se (deixou uma nota à família antes de desaparecer) ou ter tentado desfazer-se do telemóvel por este conter potencialmente material comprometedor.A recuperação do telemóvel foi seguida de perto pelos media de Israel, com uma descrição pormenorizada da mulher que o encontrou e uma fotografia do aparelho.O Tribunal Superior de Justiça anunciou que iria discutir, até terça-feira, quem seria responsável pela investigação ao caso da passagem do vídeo a uma televisão, quando a procuradora-geral, Gali Baharav-Miara, declarou o seu afastamento da investigação.Baharav-Miara é, há meses, alvo de uma tentativa do Governo a afastar, já que é vista como um entrave ao enfraquecimento do poder judicial desejada pelo poder político. O Governo chegou a aprovar a demissão da procuradora-geral, mas como a acção é ilegal, ela mantém-se no cargo.A procuradora-geral reagiu então dizendo que ao afastar a mais alta responsável pela acusação de corrupção contra o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, o Governo estava a tentar “assegurar o resultado desejado” para o processo.Na sequência da acção do Governo, o ministro da Justiça, Yariv Levin, mudou a fechadura de um gabinete partilhado para que a procuradora não o pudesse utilizar.O caso da divulgação do vídeo está a ser capitalizado pelo Governo para atingir o sistema legal e também militar: a revista The Economist sublinha que este caso está a ser usado por Netanyahu na sua tentativa de concentrar as culpas pelos falhanços que levaram ao ataque de 7 de Outubro do Hamas nas chefias militares e de segurança (já quase todas se demitiram).“O que é claro”, escreve ainda a revista, “é que o foco em Israel está agora totalmente de volta à luta interna entre o Governo de Netanyahu e o sistema legal”. O que quer dizer que antes das eleições – que terão de se realizar até Outubro de 2026 – não há qualquer esperança de um avanço em investigações em relação tanto às falhas antes e durante o dia 7 de Outubro de 2023 como em relação à guerra em Gaza.










