CIÊNCIA

Diplomatas temem que os EUA atrapalhem a Cimeira do Clima no Brasil

Os governantes dos países que participam na conferência das Nações Unidas do clima, a COP30, no Brasil, estão a preparar-se para a possibilidade de a Administração Trump tentar perturbar as negociações – ainda que não esteja prevista a presença de nenhuma delegação oficial dos Estados Unidos (EUA).A Casa Branca disse que não enviará funcionários de alto nível à conferência anual sobre as alterações climáticas, observando que o Presidente Donald Trump deixou clara a sua opinião na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Setembro, quando descreveu as alterações climáticas como a “maior vigarice do mundo”.Os EUA mantêm, contudo, a opção de enviar negociadores ao Brasil, em qualquer altura, ao longo das discussões da COP30, que decorre de 10 a 21 de Novembro no estado brasileiro do Pará. Isto porque só em Janeiro de 2026 é que os Estados Unidos saem formalmente do Acordo de Paris, criado em 2015 para tentar reduzir as emissões globais de gases com efeito de estufa e, assim, limitar o aquecimento global. Os EUA continuam a fazer parte da Convenção da ONU para as Alterações Climáticas, assinada em 1992, e que tem nas COP a reunião anual dos seus signatários.Um teste à determinaçãoTrês altos funcionários europeus disseram à Reuters que a União Europeia tem estado a preparar-se para vários cenários possíveis na COP30. Estes incluem a ausência total dos EUA, a participação activa e a tentativa de bloquear acordos ou, por fim, a realização de eventos paralelos para denunciar as políticas climáticas.A COP30 será um teste à determinação dos outros líderes mundiais de intensificarem os esforços para limitar as alterações climáticas, apesar da oposição dos EUA, a maior economia do mundo e o maior emissor histórico de dióxido de carnobo (CO2).Alguns governos estão particularmente nervosos depois de a Administração Trump ter conseguido afundar um acordo, em Outubro, na Organização Marítima Internacional, que teria resultado na criação de uma taxa de carbono para o transporte marítimo. Após as ameaças americanas de impor tarifas, taxas portuárias e restrições de vistos, alguns países abandonaram o apoio à taxa e a votação sobre a medida foi adiada por um ano.“Preocupa-me o facto de um país começar a fazer ameaças, com diferentes tipos de medidas, tanto contra países como contra negociadores, como vimos no processo da Organização Marítima Internacional”, disse o ministro norueguês do clima, Andreas Bjelland Eriksen.O Departamento de Estado dos EUA não respondeu a um pedido de comentário.Resistir às pressõesUm dos responsáveis europeus afirmou que a prioridade é que os países se articulem para apresentar uma frente unida na COP30, travando assim quaisquer intervenções dos EUA contra a defesa do clima.Os diplomatas receiam, todavia, que a ameaça de tarifas ou restrições de vistos por parte de Washington possa assustar alguns governos, levando-os a não aderir a uma defesa colectiva do multilateralismo e das conversações à volta de uma acção climática robusta.“Se adoptarem as mesmas tácticas, penso que não há qualquer hipótese de reacção defendendo o Acordo de Paris”, disse o responsável europeu, referindo-se ao acordo da ONU de 2015, que obriga os governos a tentar limitar o aumento da temperatura média global a 1,5 graus Celsius.Nos Estados Unidos, alguns legisladores instaram os países a resistir a pressões. “Se nos deixarmos intimidar por esta Administração, eles vão aproveitar todo o terreno que lhes cedermos e voltarão para pedir mais”, disse o senador Sheldon Whitehouse, o principal democrata da comissão do Ambiente do Senado dos EUA.

Preocupa-me o facto de um país começar a fazer ameaças, tanto contra países como contra negociadores, como vimos no processo da Organização Marítima Internacional

Andreas Bjelland Eriksen


Este ano, um diplomata de uma nação insular disse à Reuters que os países estão preocupados com a possibilidade de alguns governos se autocensurarem por medo de retaliação, mesmo que não haja funcionários dos EUA na sala.A ausência dos EUA nas conversações sobre o clima está a ser rapidamente preenchida pela influência crescente da China. O agora maior emissor de gases com efeito de estufa do mundo tem um interesse financeiro na continuação da transição ecológica, porque as suas indústrias dominam o fabrico global de tecnologias-chave de baixo carbono, desde painéis solares a baterias e carros eléctricos.O Ministério dos Negócios Estrangeiros da China afirmou que Pequim apoia firmemente o multilateralismo na luta contra as alterações climáticas. “Ninguém se pode dar ao luxo de ficar para trás na luta contra as alterações climáticas, nenhuma nação pode fugir às suas responsabilidades”, afirmou um porta-voz. “A comunidade internacional deve manter o rumo”.Conversas difíceisÀ primeira vista, os EUA têm menos em jogo na COP30 do que na Organização Marítima Internacional – onde a proposta de taxa sobre o carbono teria efeitos sobre a indústria e comércio marítimo dos EUA.Três fontes disseram à Reuters que os Estados Unidos ameaçaram, este Verão, impor tarifas aos países que apoiassem um tratado liderado pelas Nações Unidas para limitar a produção de plásticos, ao mesmo tempo que enviaram um memorando diplomático a vários países, instando-os a rejeitar um tratado dos plásticos que estabelecesse limites à produção. As negociações terminaram sem acordo.As negociações da COP, pelo contrário, estabelecem objectivos para fazer face às alterações climáticas, mas deixam ao critério de cada país a forma como contribui – é essa a arquitectura do Acordo de Paris.Poderá ser difícil influenciar um único país influenciar a COP30, que começa já na segunda-feira (esta sexta-feira termina uma cimeira de líderes mundiais de dois dias) na cidade amazónica de Belém. As conversações abordam uma série de questões, desde o financiamento de acções para reduzir emissões e adaptar os países e territórios aos efeitos das alterações climáticas, bem como os efeitos do agravamento das condições meteorológicas extremas. Não se se centram apenas numa única questão que precise do acordo de todas as partes.Mas algumas questões da COP30 são claramente prioritárias para Washington, incluindo as políticas climáticas que afectam o comércio. Se avançarem planos para concretizar a promessa feita na COP28, no Dubai, de ir fazendo a transição para abandonar o petróleo e gás natural, podem potencialmente complicar as relações dos EUA com a União Europeia, o Japão, a Coreia do Sul e outros países que assinaram acordos com a Administração Trump para comprar mais petróleo e gás norte-americanos.Apesar destas tensões, a maioria dos países quer preservar o processo da COP – que lhes permite influenciar os outros e procurar acordos que sejam do seu interesse nacional, dizem analistas.“Há muito poucas partes interessadas em destruir o processo multilateral”, disse David Waskow, director da Iniciativa Internacional para o Clima no World Resources Institute, uma organização norte-americana sem fins lucrativos. Se os Estados Unidos interferirem, acrescentou, “penso que ficarão isolados”.

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