Acendam-se as salas de cinema, acendam-se os espectadores nelas
“Há salas de cinemas de subúrbio vazias como hangares e belas como cais de sonhos. São as que prefiro.” Quase 100 anos nos separam destas palavras que o poeta francês Robert Desnos escreveu para o Le Soir, em 1928, opondo os pequenos locais onde os filmes vinham mostrar a sua verdadeira emoção — espaços solitários, como quartos de hotel onde se passa uma só noite ou onde ecoavam os sons como num vale deserto — e o aborrecimento da talha dourada e do veludo dos luxos dos grandes cinemas.Não é apenas o tempo que nos aparta desta reflexão de Desnos, é também todo um outro mundo a partir do qual compreendemos hoje o privilégio que era esse contexto, o da multiplicação das salas de cinema, e que permitia ao escritor fazer semelhante observação poética. Há uns dias, como noticiou o PÚBLICO, já fecharam em 2025 mais 37 salas de cinema, um progressivo apagamento dos grandes ecrãs do país, num perfil em que, traçava os dados do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), mais de metade nos nossos concelhos já se encontrava sem acesso a sessões de cinema. Racionalidade económica por parte dos exibidores, mudança de estratégia dos proprietários dos espaços, ou o declínio no número de espectadores. Vários são os motivos deste progressivo apagão. Não há, portanto, como desejar, ainda que poeticamente, como Desnos, pelo romantismo das salas vazias uma vez que estas começam a ser apenas a única realidade.Contudo, talvez seja apressado sentenciar este declínio como inevitável, com base numa racionalidade económica que serviria como “demonstração” de análises acerca da perda do papel do cinema como experiência cultural. Os mesmos números referentes a salas como o Cinema Ideal ou o Cinema Nimas, em Lisboa, e o Cinema Trindade, no Porto, mostram que esta programação que compreende e trabalha de perto na formação e dinâmica dos seus públicos deve servir como prova de que é errado pensar que já não existem espectadores de cinema. A lógica destas iniciativas, apenas para referir cinemas de exibição comercial (e deixando de lado a excelência do mesmo trabalho feito por cineclubes e por instituições de cariz museográfico e cultural como a Cinemateca Portuguesa ou o Batalha Centro de Cinema), deve não apenas ser mantida e impulsionada do ponto de vista do seu funcionamento, como deve servir de modelo para criar condições para que em cada concelho do país surjam salas de cinema que compreendam as especificidades dos seus públicos. Destas condições faz parte naturalmente o apoio público para que o cinema seja de facto uma experiência comunitária que entusiasme e tome o pulso à vida das pessoas e não apenas um conteúdo entalado entre a soma da oferta e da procura.A juntar a isto refira-se ainda a responsabilidade de promover uma boa e diversificada oferta de cinema, como o têm tentado fazer várias distribuidoras independentes, como a The Stone and the Plot, a Leopardo Filmes, a Midas Filmes, a Nitrato, a No Comboio ou a Alambique. Mais uma vez trata-se de compreender e trabalhar o cinema a partir da sua génese artística e de estimular o espectador de cinema que, por sua vez, deve também fazer a sua parte. A sala de cinema é um lugar seu, cuja existência e qualidade deve reivindicar com a sua presença e olhar crítico.O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990










