Testei este “tijolo” que bloqueia <em>apps</em> e parei de fazer <em>scroll</em>
Eu orquestro distracções para viver. Não é essa a minha descrição de funções, mas, como gestora de redes sociais, compreendo os circuitos de dopamina, as armadilhas do “engagement” e as razões pelas quais as pessoas voltam sempre para mais.Como conheço o funcionamento das redes sociais, pensei que estava imune à chamada “dependência do telemóvel” e à espiral do doomscrolling. Convencia-me de que o meu tempo de ecrã era diferente — profissional, intencional. Que tinha limites.Estava iludida.A verdade chegou como costumam chegar as verdades incómodas: silenciosamente, e depois de repente. Após um fim-de-semana cheio de sessões fotográficas para publicações, trocas de memes com amigos e intermináveis passagens por aplicações, percebi que já não me lembrava da última vez em que tinha estado verdadeiramente aborrecida. Ou, melhor ainda, profundamente relaxada. Se não estava fisicamente com alguém, estava rodeada por uma sinfonia de vozes online — submersa em notificações, apanhada no zumbido constante de estar sempre a consumir, sempre a partilhar.Não estou sozinha nesse sentimento de estar acorrentada ao telemóvel. Segundo uma investigação recente do Washington Post, após apenas um mês, mais de três quartos dos utilizadores do TikTok que costumavam passar cerca de 30 minutos por dia na aplicação passaram a gastar quase o dobro desse tempo. Alguns passavam mais de quatro horas diárias.O que é a aplicação Brick?Depois de ouvir falar da Brick através de uma amiga soube que tinha de a experimentar. (Custa 62 euros.) Brick é um dispositivo que bloqueia o acesso ao telemóvel e obriga-te a regressar fisicamente ao aparelho para o “desbloquear”.
Comecei a perguntar-me: “Com o que é que realmente me importo quando não há público?” e “No que é que invisto quando não há expectativa de me manter actualizada?” As respostas tornaram-se mais nítidas a cada semana. Foi libertador, pela primeira vez, conseguir dizer “não” quando alguém perguntava: “Viste aquilo?”
Descarregas a aplicação associada, escolhes quais as apps do teu telemóvel que queres bloquear e por quanto tempo, e depois colocas o telemóvel fisicamente sobre a Brick. É do tamanho de um baralho de cartas e tem uma base magnética, para poderes fixá-la em locais visíveis, como o frigorífico. Com uma função semelhante ao Apple Pay, o telemóvel bloqueia-se e não pode ser desbloqueado sem regressar ao dispositivo e confirmar que estás pronta para “desbloquear” — quase como um ritual de consentimento.Não podes usar o Spotify, aplicações de entrega de comida, o Slack, o email ou até mensagens de texto. Ao contrário de outros métodos para limitar o tempo de ecrã, não há códigos de desbloqueio, lembretes para deslizar, nem concessões de “só mais 15 minutos”.Se precisares de usar o telemóvel durante um período em que o tenhas bloqueado, a empresa oferece cinco “desbloqueios de emergência”, que permitem reactivá-lo em qualquer lugar. E, se quiseres bloquear o telemóvel mas não estiveres em casa, basta manter pressionado o botão Brick na aplicação para o bloquear remotamente.O que a Brick faz, na realidade, é obrigar-te a confrontar o intervalo entre o impulso e a intenção. Faz-te perguntar: “Preciso mesmo disto agora? Estou a correr em direcção a algo — ou a fugir de algo?” A aplicação permite ainda acompanhar o tempo que passas offline, uma vantagem para quem gosta de medir progressos.Os fundadores, TJ Driver e Zach Nasgowitz, começaram a desenvolver a Brick em 2023. “Os nossos telemóveis estavam a interferir nas nossas vidas, em vez de as melhorar”, disseram os fundadores por email ao Washington Post. “Não encontrámos uma boa solução para este problema, por isso criámos uma forma física e simples de voltarmos a ter controlo.”O que aconteceu quando as aplicações desapareceramQuando comecei a usar a Brick, achei que seria simples: bloquear o Instagram e o TikTok, recuperar as minhas noites, problema resolvido. Mas não foi assim.Ao usá-la de forma intencional, percebi o quão fragmentado era o meu uso do telemóvel. Bloqueei o Spotify e o YouTube durante as deslocações diárias para me forçar a ler — algo que andava a adiar há anos. Programei bloqueios de fim-de-semana no Slack para deixar de espreitar canais de trabalho, sentindo o “toque-fantasma” de notificações mesmo quando, teoricamente, estava de folga. Até experimentei bloquear o Maps, optando por encontrar o caminho para o centro da cidade à antiga, como uma viajante do tempo millennial.
O padrão tornou-se evidente. O problema não era o telemóvel. Era a minha incapacidade de estar aborrecida. Eu enchia todos os intervalos, todas as viagens, todos os momentos de silêncio — uma caminhada até ao brunch com uma amiga — com qualquer coisa. Notificações, distracções, fotografias.Eram sintomas de uma dependência mais profunda: a crença de que nunca devia estar sem opções, entretenimento, ligação ou controlo.Nos duas meses e meio seguintes, os momentos de silêncio deixaram de parecer vazios a preencher e começaram a parecer espaço verdadeiro para pensar. Comecei a pintar aguarelas e voltei à terapia, em vez de procurar conselhos no Reddit e no Google. Ouvi um álbum sem saber o que os críticos tinham dito sobre ele.Li pelo menos cinco livros — não por ser uma leitora voraz, mas porque finalmente tinha o tédio necessário para me concentrar.Tive também mais ligações reais. Em vez de enviar mensagens, telefonei ao meu pai. Tive conversas à mesa com pessoas, em vez de consumir passivamente as fotografias de brunch delas no Instagram.As amizades tornaram-se mais claras. As relações que importavam sobreviveram à Brick. As que se baseavam apenas em “manter contacto” digitalmente? Não precisavam de sobreviver. Há uma estranha intimidade em observar a vida de alguém através de quadrados cuidadosamente seleccionados — uma proximidade ilusória que parece ligação, mas não é. Quando isso desapareceu, tive de enfrentar o que restava: o silêncio. Alguns desses silêncios doeram. Outros pareceram, estranhamente, um alívio.O que encontrei nesse espaço foi algo que não sentia há anos: clareza de identidade. Comecei a perguntar-me: “Com o que é que realmente me importo quando não há público?” e “No que é que invisto quando não há expectativa de me manter actualizada?” As respostas tornaram-se mais nítidas a cada semana. Foi libertador, pela primeira vez, conseguir dizer “não” quando alguém perguntava: “Viste aquilo?”O que uma vida “bloqueada” me ensinouHouve outros benefícios inesperados. As dores de cabeça tornaram-se menos frequentes. Elogio mais as pessoas, porque os meus olhos já não estão presos ao ecrã nos elevadores ou nos passeios. Reparo mais nas cores dos entardeceres.Continuo a usar a Brick, embora de forma diferente. Reactivei o TikTok: uso-o de forma consciente, não compulsiva, e reconheço melhor quando estou a cair na espiral do doomscrolling. Mas, na maior parte do tempo, o dispositivo está no frigorífico como um lembrete silencioso: és tu quem decide como gastas o teu tempo. Só tens de o fazer de forma intencional.A ironia não me escapa — alguém cujo trabalho é tornar as redes sociais cativantes e viciantes a pagar para dificultar o acesso a elas. Mas aprendi isto: desenhar para maximizar o envolvimento numa plataforma e desenhar para o bem-estar humano não são a mesma coisa. As plataformas não vão mudar. Os algoritmos não vão deixar de ser manipuladores. Os telemóveis não vão parar de vibrar com notificações.O que podemos mudar é a nossa relação com eles. Não apenas através da força de vontade ou da disciplina — isso esgota-nos. Mas através da fricção. Tornando o processo apenas um pouco mais difícil, o suficiente para nos obrigar a perguntar porquê antes de agir.Não sei se vou usar a Brick para sempre. Mas sei que nunca quero regressar à versão de mim que acreditava ter o controlo do telemóvel, quando, afinal, era o telemóvel que me controlava a mim — e à minha vida. Essa versão mentia a si própria.E estou demasiado ocupada a ler mais livros, a pintar aguarelas e a telefonar ao meu pai para voltar a esse tipo de ilusão.










