Ex-secretário de Estado dos Transportes expulso do bar do Intercidades
O ex-secretário de Estado das Infraestruturas, Frederico Francisco, regressava no Intercidades de Coimbra (onde fora apresentar o seu livro, Um Plano Ferroviário Para Portugal) para Lisboa, na última quarta-feira, 29 de Outubro, quando, após ter consumido uma mini-refeição, foi interpelado pelo revisor: não poderia continuar no bar do comboio, apesar de ser o único cliente naquele espaço.“Vinha no Intercidades das 20h20 e fui ao bar, onde comprei uma sandes e uma Coca-Cola e deixei um café pago. Enquanto comia, liguei o computador e depois fui buscar o café. Tencionava ficar mais um pouco a trabalhar quando o revisor me avisou que tinha de me ir embora porque já não estava a consumir. Eu disse-lhe que não havia mais ninguém no bar, mas ele apontou para um aviso que dizia que as pessoas não podem estar no bar sem consumir”, contou Frederico Francisco ao PÚBLICO.O também deputado pelo PS na Assembleia da República diz que não encontra nas Condições Gerais de Transporte nada que suporte esta nova regra da CP e, embora entenda os seus pressupostos, diz tratar-se de uma questão de bom senso: “Nem eu ficaria sentado se visse que havia mais clientes a quererem ocupar o lugar, nem o revisor deveria mandar-me embora ao ver que não havia mais ninguém no bar”.
Antes de ter passado pelo Governo de António Costa — onde, enquanto secretário de Estado, teve, ironicamente, a tutela da CP —, Frederico Francisco, foi investigador e professor na Faculdade de Engenharia do Porto e, ao longo de 15 anos, deslocava-se entre as duas cidades sempre de comboio.“Muitas vezes regressava à hora do jantar e aproveitava para ir ao bar comer alguma coisa e passar ali entre 20 a 30 minutos da viagem, a trabalhar, a ler, ou apenas a contemplar a paisagem. Considero que uma das vantagens diferenciadoras do comboio em relação ao autocarro é, precisamente, esta possibilidade de poder ir ao bar. Se é para viajar sentado sem poder mexer-me, então vou de autocarro que é mais barato e não demora mais tempo.”O PÚBLICO questionou a CP sobre estas novas regras, tendo a empresa respondido que, “perante o aumento que se tem verificado na taxa de ocupação dos comboios Intercidades, verificou-se que havia clientes a efectuar toda a viagem nos lugares do serviço de bar, provocando inúmeras queixas de outros que não conseguiam utilizar esses lugares”. Daí a necessidade de “sensibilizar os passageiros utentes do bar com a informação que se encontra afixada”.
Aviso afixado à entrada da carruagem-bar do Intercidades
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E o que diz essa informação? Que os lugares da carruagem-bar se destinam apenas ao consumo de produtos do bar e que não é permitida a sua ocupação “para trabalho, leitura, estudo ou por quem não manifeste a intenção de consumir”.O aviso introduz um terceiro e, este sim, muito óbvio, aviso: “é vedada a utilização de telemóveis ou outros equipamentos electrónicos em alta voz”. Aparentemente, tal proibição só contempla o bar e não as restantes carruagens.Frederico Francisco, que neste episódio diz que nunca se identificou perante o revisor como deputado nem ex-governante, insiste que a existência de carruagem-bar nos comboios é uma vantagem comparativa do transporte ferroviário tal como, de resto, acontece em alguns dos países mais avançados da Europa. E dá o exemplo da Alemanha, Áustria, Suíça, Itália e França que possuem comboios com bar e restaurante, com um serviço de qualidade, onde os clientes são bem atendidos.Em Portugal o aumento da procura provocado pelo Passe Ferroviário Verde levou a uma grande pressão sobre o serviço Intercidades que esgota frequentemente. Nalguns desses comboios, quando a estação de embarque não tem bilheteira aberta (o que ocorre, sobretudo, nas estações alentejanas servidas pelo Intercidades do Algarve), os passageiros não têm outra alternativa a não ser viajar no bar.No futuro, porém, a CP terá o problema da ocupação indevida dos lugares dos bares resolvidos. Contrariando as práticas europeias de oferecer serviço de restauração sobre carris, os novos comboios encomendados à Stadler e à Alstom não possuirão mais do que um espaço numa carruagem para instalação de máquinas de vending.










