Porque é que ainda não aprendemos a gerir dinheiro nas escolas portuguesas?
A ausência de uma disciplina dedicada às finanças pessoais no programa curricular obrigatório continua a ser difícil de compreender, mas as consequências deixadas por ela são evidentes. Num mundo em que o dinheiro está no centro das nossas necessidades e decisões, não existe um ensino estruturado sobre como geri-lo de forma a garantir liberdade de escolha e um consumo mais consciente.O contacto com conceitos básicos de gestão financeira surge, para muitos, demasiado tarde. No meu caso, só quando entrei na universidade e recebi o meu primeiro cartão bancário, é que percebi, através da explicação da minha mãe, a diferença entre um cartão de crédito e um cartão de débito. Foi também ela quem sempre me alertou para a importância de poupar e de não gastar mais do que tinha. Na verdade, eu própria não entendia o conceito de “gastar mais do que se tem”, até ao momento em que o banco me propôs um cartão de crédito.A forma como este tipo de produto é apresentado pelas instituições financeiras, cria frequentemente a ilusão de um recurso milagroso, um “cartão-prenda” que parece oferecer dinheiro adicional. Não surpreende por isso, que muitos consumidores continuem a cair nessa armadilha.Hoje, com formação em Economia, tive oportunidade de aprofundar o tema, recorrer a livros, podcasts e outros recursos que me permitiram perceber que gerir finanças pessoais vai muito além da poupança. Envolve também investir, rentabilizar o dinheiro e compreender que até um cartão de crédito, precisa ser pensado.Fica a pergunta: como seria se este conhecimento fosse transmitido desde cedo nas escolas, em vez de apenas mais tarde, de forma opcional, quando começamos a trabalhar e a lidar com rendimentos próprios? Será que não poderia alterar, ainda que parcialmente, o panorama económico e social em que vivemos?A literacia financeira é uma competência fundamental para a cidadania e, sabendo o peso que tem na vida de cada um de nós, é difícil aceitar que o país não a priorize de forma clara e estruturada no sistema de ensino.Segundo um estudo publicado em Fevereiro de 2024 pelo grupo de reflexão Brugel, Portugal apresenta o penúltimo pior desempenho na União Europeia em literacia financeira básica. A investigação baseou-se em cinco perguntas, sendo que, apenas 42% dos portugueses inquiridos conseguiram responder correctamente a três delas. Ficámos abaixo da média dos 27 Estados-Membros da União Europeia, que se situa nos 52%.Na teoria, já existe relevância atribuída à literacia financeira no ensino em Portugal. Foram criados cadernos específicos de educação financeira para o 1.º, 2.º e 3.º ciclos, disponíveis gratuitamente, além de recursos pedagógicos preparados para aulas Cidadania e Desenvolvimento. Estes materiais resultaram de uma parceria entre o Ministério da Educação, o Banco de Portugal, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários e a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões.No entanto, na prática, apesar de alguns casos de sucesso, o alcance continua limitado. Não existe uma implementação generalizada no país.A literacia financeira permanece fora da lista de disciplinas obrigatórias, ao contrário do que acontece em países como a Dinamarca e a Estónia, onde faz parte do currículo nacional de forma estruturada.Não é nas escolas que está o bloqueio. As ferramentas existem, casos de sucesso também. O que falta é uma decisão clara e a coragem política para assumir que falar de dinheiro não pode continuar a ser tabu e que a sua integração deve ser obrigatória.Ignorar este tema nas escolas é condenar gerações a repetir erros que poderiam ser evitados com algumas ferramentas básicas. Se já aceitamos que educar para saúde e para o ambiente é formar cidadãos mais preparados, porque continua o país a hesitar quando se trata de finanças pessoais? Talvez esteja na hora de percebermos que a literacia financeira não é um luxo, mas sim uma necessidade democrática.










