Número de mortos na operação do Rio de Janeiro ultrapassa os 130
Pelo menos 130 pessoas morreram e 81 foram detidas durante a megaoperação policial realizada na terça-feira nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, segundo novas informações recolhidas depois de mais de 70 corpos terem sido recuperados por moradores e reunidos na Praça São Lucas, no bairro da Penha, entre a noite de terça-feira e a manhã desta quarta-feira.Testemunhas relataram que pelo menos 25 corpos foram encontrados numa área de mata, no alto da serra da Misericórdia, e outros em diferentes pontos da comunidade. A reportagem do UOL presenciou familiares das vítimas a acompanhar, em desespero, a retirada e contagem dos corpos.De acordo com o comandante da Polícia Militar do Rio, os novos corpos não integram ainda a contagem oficial de 64 mortos divulgada pelo Governo estadual. O oficial admitiu, em declarações à TV Globo, que não é possível confirmar neste momento se essas mortes estão directamente ligadas à operação contra o Comando Vermelho (CV), mas confirmou a retirada das vítimas pela Defesa Civil e o encerramento temporário do Instituto Médico-Legal (IML) do Rio, que criou uma ala exclusiva para os corpos relacionados com a operação.Várias testemunhas disseram à imprensa que muitos corpos apresentavam marcas de tiros na cabeça e ferimentos provocados por armas brancas. Se confirmadas, estas mortes elevariam a operação, já classificada como a mais letal da história do estado, a um patamar inédito de violência policial no Brasil.
O activista Raull Santiago faz parte do lote de pessoas que ajudaram a retirar os corpos da mata. “Em 36 anos de favela, passando por várias operações e chacinas, eu nunca vi nada parecido com o que estou a ver hoje. É algo novo, brutal e violento a um nível desconhecido”, declarou ao G1 .Segundo apurou o G1, o objectivo do traslado dos corpos até à praça foi para facilitar o reconhecimento por familiares. Moradores deixaram os corpos de tronco nu para agilizar esse processo, a fim de deixar à mostra tatuagens, cicatrizes e marcas de nascença.As investigações que antecederam a operação decorreram por mais de um ano e identificaram 94 suspeitos escondidos nas 27 favelas que compõem os dois complexos, situados perto de vias estratégicas — a Linha Vermelha e a Linha Amarela. Entre os alvos, estavam traficantes de outros estados, incluindo chefes do CV da Bahia, Ceará, Pernambuco, Espírito Santo, Rondónia, Amazonas e Pará.De acordo com as forças de segurança, as ordens para a tomada de territórios partiriam de dois líderes da facção: Márcio dos Santos Nepomuceno (“Marcinho VP”), preso num estabelecimento federal, e Edgar Alves de Andrade (“Doca” ou “Urso”), foragido, com 269 anotações criminais e 26 mandados de detenção em aberto. O Disque-Denúncia — serviço de combate ao crime — elevou a recompensa pela sua captura para 100 mil reais (cerca de 16 mil euros), o valor mais alto desde o caso de “Fernandinho Beira-Mar”.Reacções e críticas à letalidade policialA Defensoria Pública da União (DPU) e a Amnistia Internacional lançaram comunicados a condenar a letalidade da Operação Contenção, classificando-a como um retrocesso grave nas políticas de segurança pública e um ataque aos direitos humanos.No comunicado divulgado, a DPU afirmou “repudiar o aumento da violência e da letalidade policial no Rio de Janeiro”, lembrando que o Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgar a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n.º 635 (ADPF 635), estabeleceu parâmetros rigorosos para a actuação das forças de segurança em comunidades vulneráveis.Segundo a DPU, o incumprimento dessas directrizes representa “uma violação grave de preceitos fundamentais” e compromete “a efectividade do Estado democrático de direito”. O comunicado destaca, ainda, que o combate ao crime não pode resultar em “execuções sumárias, desaparecimentos ou violações de direitos humanos”, sobretudo em territórios marcados por desigualdade e exclusão institucional.A Amnistia Internacional foi ainda mais dura no tom. Em nota intitulada “Segurança não se faz com sangue”, a organização afirmou que a megaoperação “expõe o fracasso e a violência estrutural da política de segurança no estado” e transforma a cidade num “estado de terror”.“A morte não pode ser tratada como política pública”, sublinha a nota. Refere, também, que, ao longo de quase 40 anos de vigência da Constituição Federal, o que se viu nas favelas fluminenses foi a consolidação de uma política de segurança “baseada no uso da força e da morte”, disfarçada de “guerra” ou “resistência à criminalidade”.A organização também acusou o governador bolsonarista do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, de ter normalizado a letalidade como instrumento de governo, recordando que quatro das cinco operações mais letais da história do Rio de Janeiro ocorreram sob a sua gestão, incluindo as do Jacarezinho (morreram 29 pessoas), em 2021, e da Vila Cruzeiro (morreram 23 pessoas), em 2022.A Amnistia refere ainda que o Brasil e o estado do Rio de Janeiro já foram condenados pela ONU e pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) pelas chacinas de Acari, em 1990, e Nova Brasília, em 1994 e 1995, e denunciou o padrão discriminatório “sob o pretexto da ‘guerra às drogas’”, que afecta desproporcionalmente “a população negra e pobre das favelas”.Confronto sobre responsabilidadesA operação desencadeou também uma disputa política imediata entre o governador Cláudio Castro e o Governo Federal. Castro justificou a acção como resposta à expansão do CV e exigiu maior integração e apoio das forças federais, citando a necessidade de meios para enfrentar o que chamou de “guerra” contra o crime organizado.“O STF falou, numa decisão – a primeira da história conjunta dos 11 juízes – que esse financiamento e essa integração têm de acontecer”, afirmou Castro, defendendo que o estado fluminense não dispõe dos recursos necessários para uma “luta que já extrapolou toda a ideia de segurança pública”.A resposta do Ministério da Justiça veio através do seu titular, Ricardo Lewandowski, que declarou não ter recebido qualquer pedido formal de Castro para apoiar ou integrar a operação. “Não recebi nenhum pedido do governador do Rio de Janeiro, enquanto ministro da Justiça e Segurança Pública, para esta operação, nem ontem, nem hoje, nem absolutamente nada”, afirmou Lewandowski na noite de terça-feira.Numa conferência de imprensa nesta quarta-feira o governador do Rio de Janeiro avaliou a operação como um “sucesso”. Afirmou estar “tranquilo em defender tudo o que fizemos ontem” e aproveitou para se mostrar solidário com as famílias “dos quatro guerreiros que deram a vida para salvar a população”, considerando ainda que “as únicas vítimas foram os quatro polícias mortos”.No plano político, a troca de acusações reflectiu o agravamento da crise: Castro acusou o Governo Federal de deixar o estado “sozinho” na luta contra a criminalidade; do lado federal, afirmou-se que acções coordenadas passam por procedimentos institucionais, não por declarações públicas. A tensão entre esferas de poder ocorre num momento de forte pressão pública e mediática sobre o modelo de segurança adoptado no Rio de Janeiro.Texto editado por Ivo Neto










