DESPORTO

Modos de (des)aprender História(s)

Nos anos 1990, em Portugal, Os Lusíadas eram leitura obrigatória no ensino preparatório. Contudo, não nos era pedido que pensássemos os seus conteúdos criticamente, sobre a sua construção ideológica ou sobre os ecos coloniais que transporta até ao presente.Três décadas depois, já nos anos 2020 e com três filhos no ensino primário, questiono-me sobre como esta obra é hoje transmitida e contextualizada. Este projeto editorial propõe uma abordagem muito diferente da que conheci em criança: revisitar Os Lusíadas como objeto de questionamento. Mais do que celebrar uma obra e torná-la monumento imutável, trata-se de examinar criticamente a forma como o passado colonial português foi narrado e legitimado, e de que modo essas narrativas continuam a moldar identidades, valores e imaginários coletivos. Nesse gesto, convoca múltiplas vozes e perspetivas, abrindo espaço a um Portugal plural, polifónico e em tensão com a linearidade épica de uma história única (e, necessariamente, fabricada).É nesse contexto que René Tavares (1983, São Tomé e Príncipe) revisita o Canto IV. A sua prática artística, que transita entre ficção, oralidade e memória (as histórias dos rostos em Piá mù – Look at me, 2022), mobiliza ironia e humor (as expressões na Carruagem Lusa, 2023 ou a encenação de Petit Dejeuner Dans La Plantation de Café (Cotton peoples reloaded), 2021, para expor os mecanismos de construção daquilo que entendemos como História, cultura e património. Em continuidade com trabalhos anteriores, como Atlantic Nation – In memory we trust (2023), apresenta cinco pinturas sobre papel que se situam entre o universo narrativo de Camões, o presente pós-colonial e futuros imaginados.Em vez de meras ilustrações do texto camoniano, estas pinturas especulam sobre outras possibilidades narrativas. Ausentes estão episódios como a revolução de 1383-85, a partida de Vasco da Gama, a Batalha de Aljubarrota, os sonhos proféticos de D. Manuel ou o célebre discurso do Velho do Restelo. No seu lugar, surgem símbolos e sobreposições que questionam cânones. A Cruz de Cristo, repetida e envolvida por corpos dançantes, tanto evoca a expansão marítima portuguesa como a iconografia cristã da dor e da redenção — um emblema ambivalente, onde convivem triunfo, sofrimento e memória de violência.Noutra composição, uma nau sobrepõe-se ao mar azul, que por sua vez se sobrepõe a dois rostos que nos olham de frente. O navegador, aparentemente ancorado no passado, contrasta com a temporalidade indefinida dos rostos e do mar. Este jogo de planos revela-se como metáfora da mutabilidade das identidades, constantemente em trânsito entre tempos e geografias.A releitura do Canto IV por René Tavares articula, assim, uma visão transcultural e trans-histórica, onde a instabilidade e a interconexão se tornam ferramentas críticas. As suas pinturas convidam a repensar os modos como aprendemos, desconstruímos e validamos as grandes narrativas históricas. Nestes processos, abrem espaço para imaginar passados alternativos e futuros possíveis, questionando o próprio estatuto da epopeia como relato de uma narrativa unilateral.

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