CIÊNCIA

Ensinar Camões. Aprender Camões

Quinhentos anos depois do seu nascimento, Luís de Camões continua a fascinar quantos tomam contacto com a sua obra. As razões de base que explicam esta inelutável atração são as mais diversas e vão da genial arquitetura estética de Os Lusíadas à modernidade da língua presente no teatro e nas cartas, passando pelas leituras profundamente contemporâneas que se extraem de uma lírica enigmática, polinómica e ainda plena de mistério, apesar do constante trabalho de arqueologia linguística e filológica de que têm sido objeto.Sabemos que Camões não é uma figura menor na literatura mundial: as já mais de 130 traduções para 26 línguas do poema épico, a que acrescem incontáveis traduções da lírica, publicadas em coletâneas, fascículos ou folhas soltas durante o curso dos séculos, são prova objetiva do seu talento, alicerçado num robusto conhecimento da cultura clássica e da realidade do seu tempo, com visões experimentadas da primeira globalização, do contacto com o exotismo, com novos povos, culturas e costumes.Sendo tudo isto verdade, confrontamo-nos, ainda assim, com uma manifesta falta de ambição quando o assunto é o ensino da obra de um dos nossos maiores, verdadeira personagem identitária de uma portugalidade moderna, celebrada, pluricultural e multilateralista. Em pleno século XXI, é talvez altura de abordarmos frontalmente esta questão.As “dificuldades” (não nos cansamos de ler na opinião publicada) estão identificadas: algumas são práticas – a urgência de melhor se enquadrar Camões nos planos de estudos dos ensinos básico, secundário e superior tem sido constantemente adiada, por exemplo –, mas outras assentam em mero preconceito, sendo o mais evidente a suposta opacidade, quase intransponível, dos textos de Camões.Ora, relativamente ao primeiro desafio, a solução passará por conceder mais tempo – e mais bem distribuído – ao estudo de Camões. A academia tem vindo a disponibilizar, nas últimas décadas e de forma exemplar, propostas de novas abordagens científicas e pedagógicas que permitem gerir percursos formativos dirigidos aos diversos públicos escolares com que trabalhamos; o segredo mais mal guardado para a melhoria do sistema consiste, então e desde já, no incentivo à colaboração entre os níveis institucionais de administração e planeamento curriculares e os grupos de investigação científica que, em Portugal e além-fronteiras, trabalham estes temas.Sobre a segunda questão, parece-me excessivo o argumentário que defende a impenetrabilidade da obra camoniana aos mais jovens: desde logo porque Camões nos interpela, em cada um dos seus textos (poéticos ou não), a discutir questões que estão hoje na ordem do dia: a diversidade cultural, a valorização da diferença, mas também o prazer do conhecimento e, nas suas intermináveis possibilidades, a exploração da temática da “viagem”; depois, porque Camões está cheio de mistério, de paixão, de erotismo, de conflitos interiores com os quais qualquer leitor se identifica e que vão do romance à dor, da intriga à traição, da prevaricação ao discernimento.O caminho, de resto, já se iniciou: externamente, o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. – decidiu assumir este desafio, sensibilizando os seus coordenadores, professores e leitores para o reforço internacional do ensino de Camões – Mito, Homem e Obra; internamente, temos sido testemunhas do empenho dos professores de Português, nas suas aulas, e da rede de bibliotecas escolares no tratamento destes conteúdos. Temos, aqui e agora, uma oportunidade de ouro para levar mais longe a discussão em torno do reposicionamento da obra de Luís de Camões nos currículos escolares em Portugal.Os nossos estudantes merecem-no. Camões merece-o.Saibamos nós também merecê-lo.

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