Um grande tinto do mundo, da vinha velha transmontana
Uma vertical de um vinho permite-nos perceber que há uma espinha dorsal para lá dos efeitos dos anos vitícolas. E no Palácio dos Távoras Vinhas Velhas tinto essa matriz é feita de equilíbrio, elegância, acidez invejável e longeva, taninos suaves e notas terciárias balsâmicas e de resina que fazem do vinho da Costa Boal um grande tinto do mundo, em qualquer parte do mundo.A prova das várias colheitas da referência (2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2018, 2019 e 2020) foi — é — também um belo exercício para entender o que é da vinha, o que é do homem e o que muda quando muda o homem. E deixou-nos a pensar: se Trás-os-Montes consegue fazer isto, de que está à espera a região? Tem dias muito quentes, mas depois é bafejada por noites frias. Não é a estufa duriense, mas não está a tirar partido das condições naturais e que a ajudam a preservar a componente ácida dos vinhos.Provámos os nove vinhos na companhia do produtor António Boal e do enólogo Paulo Nunes, em Mirandela. Vinhos que começam a explicar-se numa vinha que, ao fim de “60 ou 70 Verões”, nota Nunes, está perfeitamente adaptada ao lugar e a “uma região tão inóspita” como Trás-os-Montes. Produz pouco, muito pouco, “no fundo, para sobreviver a uma condição climática extrema”, mas entrega “constância”. É field blend (com várias castas à mistura), 95% tintas e uma ou outra videira de uvas brancas, e nela predomina o Alicante Bouschet, coisa rara nesta percentagem (a variedade representa “mais de 30% do encepamento”). E, aqui, o enólogo tem uma teoria (só sua, ressalva): “Esta região, durante anos e anos, fez vinho para incorporar nos lotes do vizinho Douro, e o que é que se pretendia à época? Cor e álcool.”As videiras podem ser velhas, mas não precisam de ter muletas para ficar de pé. A vinha não tem arames e as plantas têm folhagens generosas, desgrenhadas e que funcionam como autoprotecção contra o calor e a radiação solar em excesso. “É o sistema de condução perfeito”, defende Nunes. “A única forma de estas plantas preservarem a fruta é protegendo-a no interior. Se vamos colocar arame, estamos a conduzir de uma forma vertical a planta e a expor a fruta. A planta vai sofrer um escaldão e nós vamos perder a fruta.”
Uma vinha perfeitamente adaptada ao lugar e a “uma região tão inóspita”. Costa Boal começou a comprar vinhas velhas em Trás-os-Montes em 2010
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Dá mais trabalho trabalhar uma vinha assim? Dá. E, sendo certo que a Costa Boal ainda consegue socorrer-se da sapiência dos mais velhos, no futuro, cuidar de um tesouro destes à mão — da poda à vindima — será um problema. A não ser que os frutos desse trabalho (uva e vinho) sejam bem pagos. Aí será “só” um desafio.Os antigos sabiam o que faziam. Num planalto ondulado, colocaram a vinha no topo da colina e as oliveiras no sopé: lá em cima, é muito mais ventoso e essa ventilação natural reduz a pressão de doenças; lá em baixo, o vento é mais fraco e não deita a azeitona ao chão, além de haver mais disponibilidade de água no solo (a oliveira bebe mais que a videira).Mas, atenção, a viticultura à moda antiga tem um pequeno grande inconveniente. A viticultura à moda antiga ainda marca a data de vindima — e mesmo os outros trabalhos na vinha — de acordo com a disponibilidade de pessoal e/ou a tradição de o fazer em determinada data. Há 20 anos, seguir o calendário poderia funcionar, mas hoje o tempo da maturação fenólica (ou fisiológica — a evolução de compostos que dão cor, taninos e aromas) não é o da maturação físico-química (a dos açúcares, que na fermentação se transformarão em álcool), explica Paulo Nunes, duriense que cresceu na vinha e que hoje faz vinho em várias regiões. “Podemos ter um vinho com 15% de álcool, que é verde, de uva verde. E podemos ter uvas com 12% de álcool [provável], que estão maduras.”Não é só em Trás-os-Montes que isso acontece, mas a região tem uma amostra importante de vinhos alcoólicos, rústicos e pesados. “Não faz sentido vindimar de outra forma. É preciso olhar para os ácidos naturais, para a maturação poli fenólica, os flavors que temos na prova da uva — é preciso provar bagos, ver se o engaço está a lenhificar, se há crocância da grainha, se existe o desprendimento da película do resto do bago —, a acidez total e depois o álcool”, vaticina Paulo Nunes. A boa notícia é que “na vinha velha, há muito mais equilíbrio, quando se fala destas variáveis, há um bloco que se desloca quase em simultâneo.” E Trás-os-Montes tem muita vinha velha.225 versus 500 litrosUma vez na adega, o vinho molda-se ao que o homem quer fazer dele. E esta vertical permitiu também fazer essa viagem, àquilo que produtores e consumidores queriam do vinho tinto há década, década e meia. No 2011 e sobretudo no 2012, sentimos o peso da madeira — barricas de 225 litros, carvalho francês, americano e nacional, tosta média —, que é impositiva e sobrepõe à fruta aqueles abaunilhados que tornam o vinho “doce” e nos dão taninos secos.
A vinha velha é resiliente e entrega mais equilíbrio, como explica o enólogo da Costa Boal, Paulo Nunes
RICARDO PALMA VEIGA
O Palácio dos Távoras Vinhas Velhas tinto tem uma matriz de equilíbrio, elegância d acidez invejável e longeva
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Não quer dizer que não esteja lá a vinha ou o ano. O 2011 mostra bem o que foi o calor desse ano. E mostra a tal dominância da Alicante Bouschet na vinha e no lote, logo na cor, que está impecável para um tinto com 14 anos. Nem quer dizer que o vinho esteja perdido para aqueles que não gostam de madeira no vinho. Este 2011 vai evoluindo no copo e dá-nos também um fumado, agora com a tosta a sobrepor-se à fruta compotada, e um lado resinoso, de cedro, bem interessante. O 2012, em linha com o perfil do 2011, parece-nos, a dada altura, ser mais “quente”. E é. Tem 15,5% de álcool.Paulo Nunes não assinou estes primeiros vinhos, na altura a enologia estava com Francisco Baptista. Mas sente necessidade de os “contextualizar”, e explica: “O dia de hoje é o nosso universo, mas temos de olhar para trás e perceber o que é que se fazia em 2012; as verticais também nos dão essa amplitude de perceber qual era o pensamento há dez anos.”O 2013 estava bem mais evoluído do que os outros e se o provássemos às cegas diríamos que era mais velho que o 2011. Abriram-se duas garrafas e era mesmo do vinho: 2013 e 2014 “foram anos muito difíceis”, explica Paulo Nunes, que se recorda de, em 2013, apanhar “com chuva na vindima, durante um mês”. O 2014 estagiou só em carvalho francês, mas na mesma em barricas de 225 litros e novas. Foi o vinho em que menos sentimos o vinho: embora evoluído, estão lá os amargores da madeira nova e a barrica sobrepõe-se a tudo o resto.Do 2015 para a frente, se não muda tudo, muda muito. O estágio passou a ser em cascos de 500 litros (em cascos maiores, a proporção entre madeira e vinho faz com que o contacto deste com o oxigénio seja menor) e aquele lado mais doce desapareceu. Potenciou-se o aparecimento de aromas terciários que nunca apareceriam se as características secundárias do estágio em barrica dominassem o vinho. Os taninos são já sedosos.Apanhámos neste 2015 um perfil balsâmico e muito fresco que se confirma nas colheitas seguintes. “Os vinhos são feitos para isto. Para durarem e para chegarem a esta fase. Porque a fruta é uma coisa muito efémera, não é? A fruta é uma coisa que dura meia dúzia de anos.” Chegam a esta fase mais complexos do que alguma vez foram, mas ainda jovens. No ponto, arriscaríamos dizer — não é à toa que muitas casas vão fazendo o esforço financeiro de colocar vinhos destes no mercado com estágios de garrafa cada vez mais longos.No 2016, já sentimos fruta primária (amora silvestre) e há um equilíbrio notável: extremamente gastronómico, é um tinto jovem, cheio de garra ainda e com uma relação perfeita entre acidez e álcool. O ano vitícola de 2016 não foi incrível, e os vinhos que deu à garrafa até saíram ofuscados por 2015, mas este Palácio dos Távoras tem uma elegância e uma harmonia que fará inveja a muitos tintos. Em 2016, Paulo Nunes recorda-se de ter usado “bastante engaço”, porque este estava “mais pronto” (estava pau mesmo) na altura da vindima. A prova foi uma experiência de altos e baixos, numa espécie de bem-me-quer, mal-me-quer: a dado momento, o vinho parecia cair no copo, para logo a seguir nos dar outras sensações.Saltámos 2017, nesse ano a vinha não esteve à altura do desafio, por isso, não houve vinho. No 2018, a colheita que nos pareceu mais “pronta”, a fruta é ainda mais expressiva, mas estão lá os balsâmicos também, há uma acidez em linha com os anteriores (embora não com o punch que sentimos no 2016) e taninos aveludados. Num mundo ideal, este 2018 (senão mesmo o 2016) deveria ser o vinho agora em lançamento — a Costa Boal está a comercializar o 2020, tudo o resto é colecção privada. No 2019 e no 2020, o mesmo nariz de fruta silvestre acídula. O primeiro é um tinto extremamente jovem, mas com um tanino perfeito, mastigável, um vinho brutal que pode e deve ir para a cave. O segundo tem o perfil que fomos descrevendo e uma componente ácida muito presente, em grande equilíbrio com o álcool.
O PÚBLICO provou as colheitas de 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2018, 2019 e 2020 do Palácio dos Távoras Vinhas Velhas tinto
Ana Isabel Pereira
Elegantes, pungentes, frescos, interpeladores e com berço. Não há nada de rústico ou pesado nestes vinhos, que têm acidezes totais a tocar as oito gramas (é impressionante) e mostram que é possível ter elegância com 14,5% de álcool. Vinhos que, com idade, se tornam ainda mais desafiantes. O 2015 — um ano muito bom em várias regiões vitivinícolas portuguesas — a certa altura deu-nos fumo e chão de bosque. Foi o nosso favorito, embora intuindo que o 2019 e o 2020 honrarão esse caminho.A Costa Boal é o único produtor de Trás-os-Montes que está na Old Vine Conference, organização internacional cujo objectivo é construir “uma categoria de vinhos credível para os vinhos de vinhas velhas”. Mas faria bem em disponibilizar este tipo de vertical e/ou voltar a lançar no mercado alguns destes vinhos. É certo que não tem tantas garrafas destes Palácio dos Távoras mais velhos, mas por uma experiência deste género pode pedir mais valor e sensibilizar o consumidor para a riqueza do que está a fazer.
Nome Palácio dos Távoras Vinhas Velhas Tinto 2020
Produtor Costa Boal;
Castas Vinhas Velhas
Região Trás-os-Montes
Grau alcoólico 14,5%
Preço (euros) 27,50 (e 71 se for garrafa magnum)
Pontuação 96
Autor Ana Isabel Pereira
Notas de prova Da zona de Mirandela, estes transmontano oferece grande equilíbrio, elegância, uma acidez invejável e uma promessa de longevidade. No nariz, fruta silvestre, acídula. Na boca, uma componente ácida muito presente, taninos suaves, que se mastigam, tudo em grande equilíbrio com o álcool. Provámos este Palácio dos Távoras Vinhas Velhas Tinto 2020 numa vertical com todas as outras colheitas e, dessa prova, ficam duas notas principais: uma, este é um vinho que vale a pena deixar na cave algum tempo mais, pelo que vimos, desenvolverá interessantes notas terciárias balsâmicas e de resina; duas, sem o peso da madeira que têm as primeiras colheitas, o vinho tornou-se distinto e um bela porta-estandarte da região.









