O ruído, as marcas e a ecologia da mente
O ruído gera indiferença, diz um amigo. E tem razão. O ruído mantém, numa trincheira de silêncio ruidoso, o estado de inocência do escravo (Nietzsche). Convivemos com o ruído nas relações amorosas e no amor temporário, descartável e descomprometido (o amor líquido de Bauman), nas assimetrias sociais, nas imagens e nas doutrinas, na moderna organização laboral que perpetua a escravatura do trabalho assalariado, na moderna mentalidade do supérfluo e na entropia do universo das ideias. Os vínculos humanos, à venda no mercado, transformam-se em bens tabelados. Já não ouvimos.O ser humano, “criatura do tempo”, vangloria-se da sua libertação na encruzilhada da própria subjugação à matéria. A reificação dos afectos, das ideias, das emoções, de toda a realidade, é o corolário da transformação das acções humanas em mercadoria. O amor é uma mercadoria. O pensamento, outra. O capitalismo tudo absorve: o “Che” estampado das T-shirts, as bananas nas telas, a “humanização” das operadoras de telemóvel, o filósofo dos emojis, as flotilhas da propaganda, a ilusão do proletariado absconditus, o negócio ideológico dos migrantes, a instrumentalização partidária da Palestina, as palavras sagradas em high-tech, a comédia diabólica da IA, o espectáculo dos viventes, os pop-ups e as merdinhas que se interpõem à nossa frente nos ecrãs. Este é o tempo dos Baiões e das Cautelas e de todos os charlatães histriónicos. É o tempo dos intervalos entre programas, elevados à condição de produtos estéticos. O tempo dos foyers. O tempo do lixo como relíquia e da relíquia como lixo.
Não é possível pensar fora do sistema capitalista. Pensar fora do modelo é uma concessão do capitalismo e também é capitalismo. Ser de esquerda é menos um acto volitivo do que um produto capitalista
Não é possível pensar fora do sistema capitalista. Pensar fora do modelo é uma concessão do capitalismo e também é capitalismo. Ser de esquerda é menos um acto volitivo do que um produto capitalista. A actual excessiva familiaridade com a poesia limitou-lhe o oxigénio e apartou-a do sagrado. Elevada à condição de mercadoria, a poesia é o poema que ensina a cair na redundância e na apagada e vil tristeza do podcast e do festival, e esbateu-se qualquer diferença entre escritores e vendedores de castanhas assadas (com a diferença de que estes são honestos), ou entre festivais literários (plenos de comendas encomendadas) e companhias de seguros. Hoje, o escritor visita um país e escreve um livro – e, para cúmulo, sai o filme. Fugimos para a Natureza com a Decathlon, chegamos a Fátima com a Quechua, fazemos o retiro com a Emma. Tudo se tornou um produto capilar, uma promessa de verdade.Pensar dentro do sistema é viver a morrer nele. Pensar fora do sistema é morrer sem viver nele. A modernidade patológica da rendibilização tornou-nos de novo primitivos e cruéis, e mergulhou-nos no universo fantasmagórico no qual acreditamos poder habitar. Mas apenas um mundo onde não haja réplicas nem leis da semelhança e do contágio, nem produção em massa, nem capital, competição ou hierarquia pode salvar. Esse mundo não existe, ou, se existe, não lhe conheço o caminho. Até porque Deus (coisa que não faço a menor ideia do que seja) não toca bandoneón: Deus toca apenas harpa, e mal. Era assim que dizia o Mário. E acrescento: Deus é capital.O Filipe Serra, do lote 49 (o.lote.49 no Instagram), procura caminhos. Tudo o que é dito a seguir (porque muito melhor do que diria eu) é dele: “Neste nosso actual ecossistema, a distinção entre significante e significado desfaz-se. Notícias, fake news, entretenimento e publicidade fundem-se num único fluxo indiferenciado de signos, como um ruído de fundo constante – uma obscenidade do visível, na terminologia baudrillardiana –, que gera um estado de apatia, de indiferença e de cinismo. Perante a impossibilidade de discernir o verdadeiro do falso, o importante do trivial, o cidadão recua para a abstinência by default, uma forma de resignação tranquila. A hipersolicitação (Lipovetsky) e a hiperestimulação afogam o indivíduo e tornam a revolta não apenas impossível, mas absurda: contra o quê? Se tudo é espetáculo fugaz e desprovido de substância? A anestesia é, aqui, o resultado de uma overdose de estímulos que aniquila a própria possibilidade de uma resposta autêntica.O poder contemporâneo não se exerce já necessariamente através do silenciamento, mas da orquestração do ruído. A anestesia da população não é um subproduto acidental da cultura informativa e digital; é a sua função política primordial. Neste cenário, a resistência exige, antes de mais, uma ecologia da mente – a capacidade de instituir filtros, de cultivar a atenção profunda e de recuperar o silêncio e a lentidão como condições mínimas para o emergir de um sujeito político capaz de, mais uma vez, se revoltar, ou, num léxico mais adaptado, se rebelar”.Há que desmantelar as estruturas de autoridade. Mas isso, se elas nos deixarem. Isto é lixado…










