Os idosos reformados argentinos queriam descansar, mas estão a protestar
Todas as quartas-feiras, Olga Beatriz Gonzalez, de 89 anos, toma um pequeno-almoço simples, recolhe doações de pão e legumes para a sopa dos pobres que gere a partir da sua casa nos subúrbios de Buenos Aires e depois começa a fazer cartazes de protesto para a manifestação semanal em que vai participar no centro da cidade.
Está aposentada, mas não descansa. Tal como muitos outros argentinos mais velhos, esforça-se por pagar as contas, por ajudar os outros que têm dificuldades e por lutar para que a vida melhore. No entanto, há poucos sinais de notícias positivas no horizonte para Gonzalez e os seus amigos. O sistema de pensões argentino está a chegar a um ponto de ruptura, sem rendimentos suficientes para pagar o que muitos esperavam após anos de trabalho árduo.
O governo de Javier Milei — cujo partido vai tentar ganhar mais assentos no Congresso este domingo — diz que a única solução é um ajuste fiscal rigoroso para estimular o investimento e o crescimento a longo prazo. Por outras palavras, não há mais dinheiro. Não a curto prazo. “Somos pessoas que cumprimos o nosso dever e estamos a chegar ao fim”, disse Gonzalez. “E não queremos chegar com tanta necessidade.”
“Fico muito aborrecida quando as pessoas me dizem ‘não posso comprar medicamentos, porque se comprar medicamentos não vou poder pagar a renda e vou para a rua’. O que é que essa pessoa faz se não tiver uma sopa dos pobres? Há muitas pessoas a quem cortaram a electricidade… Eu dou-lhes massa e eles não têm meios para a cozinhar.”
Em frente ao edifício do Congresso Nacional, no centro de Buenos Aires, os manifestantes — reformados e os seus apoiantes — enfrentam todas as quartas-feiras fileiras de polícias com capacetes anti-motim, agitando bandeiras argentinas e cartazes onde se lê “Ninguém se salva sozinho” ou “O próximo idoso serás tu”.
“Digo aos outros reformados que não é vergonha nenhuma pedir ajuda. O que devem fazer para nos tirar desta confusão é juntarem-se às manifestações. Não fiquem atrás da televisão”, pede Gonzalez, que gosta de evocar sua heroína, Evita Perón, a primeira-dama argentina da década de 1950, que continua a ser adorada por muitos dos pobres do país. Os representantes do governo de Milei não responderam aos pedidos de comentário para este artigo.
Nem todos os argentinos mais velhos se opõem às políticas do governo. Alguns acumularam poupanças em dólares ao longo dos anos — milhares de milhões foram guardados debaixo de colchões e em cofres. Alguns acham que Milei, no poder desde Dezembro de 2023, precisa de mais tempo. “Não queremos de forma alguma voltar ao governo anterior”, refere a professora reformada Margarita Ruiz, de 75 anos. O plano de Milei era “a única maneira de salvar a nossa economia”, acredita.
Luis Relinque, também de 75 anos, diz que não apoia nenhum partido político, mas junta-se aos protestos de quarta-feira. Como muitos outros nas manifestações, recebe a pensão mínima mensal — que em Outubro era de pouco mais de 396 mil pesos, ou cerca de 266 dólares —, e diz não ser suficiente para fazer face às despesas.
Compra alfajores, um biscoito tradicional argentino, em grandes quantidades e depois vende-os numa caixa com um cartaz escrito à mão à porta de casa ou aos visitantes do hospital aos domingos. Isso permite-lhe ganhar o suficiente para comprar comida às segundas-feiras. “Não passo fome, mas passo necessidade”, diz, sentado ao lado do seu cão. As guloseimas que costumava dar à neta, como um gelado ou uma ida ao teatro, já não as pode pagar.
Costumava reunir-se com os amigos às sextas-feiras para jogar às cartas e comer alguma coisa, mas isso também deixou de acontecer. “Há cinco ou seis meses que não vejo os meus amigos. Antes, fazíamos um churrasco, um guisado, era muito bom. Agora já não há nada.”










