CIÊNCIA

Os tiranos que se acham reis

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Vestindo fantasias de sapos, galinhas, cachorros, dinossauros, unicórnios e outras mais, a manifestação No King, nos Estados Unidos, ocupou todos os 50 estados do país, em mais de 2.700 eventos, ultrapassando a marca de 7 milhões de pessoas nas ruas. Diversas cidades passaram de dezenas de milhares, algumas de centenas de milhares, inclusive a capital Washington. Apenas como comparação, o Occupy Wall Street registrou cerca de 30 mil participantes. Não há dúvida, portanto, de que a manifestação de agora foi uma das maiores mobilizações sociais de protesto contra o governo e a condução da política norte-americana nas últimas décadas.A resposta do homem que ocupa o posto mais alto, o alvo dos protestos, representa perfeitamente a importância que dá ao próprio povo: pilotando um caça, devidamente fantasiado como um rei, o avião despeja fezes sobre os manifestantes; faz outros políticos se ajoelharem em reverência a ele, enquanto se auto-coroa; apresenta adversários com chapéus mexicanos e diz que eles são diferentes. Nada poderia ser menos digno para um presidente. Mas quem espera dignidade de Donald Trump?O autocrata está destruindo a chamada ‘maior democracia do mundo’ (termo estranho, é verdade, para um país que tantas guerras e conflitos promoveu e continua a fazê-los), não se importa com críticas, porém, se ofende e reage feito uma criança vingativa. Age inabalável, ciente de seu poder. Comanda o planeta ao sabor de seus interesses, falsificando moderações, manipulando o comércio global, enfraquecendo poderes de aliados e impondo a todos seu conservadorismo radical oportunista a servir de estímulo crescente aos extremistas.Nesse instante, enquanto as decisões são questionadas e as consequências são perigosas por não mais serem entendidas como um futuro indesejável, mas como a confirmação de um presente assustador, utiliza quase 300 milhões de euros na destruição de uma parte da icônica Casa Branca para iniciar as obras de um monumental salão de baile recheado por colunas clássicas, lustres de cristais e cadeiras douradas.Na prática, Trump não se coloca caricaturalmente como rei, ele está certo de já o ser. Engana-se quem pensa ser um reinado apenas sobre os Estados Unidos. O mundo existe para lhe servir, para lhe enriquecer, para sua vaidade incorrigível e incontrolável. Quando veste em si próprio a coroa, é impossível não recuperarmos o gesto semelhante realizado por Napoleão, imortalizado pela pintura de Jacques-Louis David (1807), ao se impor como imperador francês.Também Napoleão quis tomar o mundo para si. E foi na Rússia, curiosamente, que foi vencido. A mesma Rússia, ou quase, que tem Vladimir Putin, antigo melhor amigo de Trump, agora como um inimigo suportado com falsos sorrisos e apertos de mãos cínicos. Parte das jóias de Napoleão acabaram de ser roubadas do Museu do Louvre. Talvez o americano deva investir em lustres não muito caros.Herói trágicoA ideia de um homem ser suficientemente capaz de conduzir e idealizar um reino não é nova, e desde sempre percorre as entranhas do poder. A filosofia-política denomina-a de Rei Filósofo e surge na Grécia Antiga, quando foi sugerido aos filósofos reinarem para melhor se combater os problemas das cidades. De lá para cá, o conceito tem sido repensado: primeiro pela figura do profeta, a partir do cristianismo, quando se fez aceitar a figura do papa como uma espécie de novo rei filósofo.Depois, pelo intelectual público, enquanto herói trágico, por doar-se à sociedade enquanto renuncia a sua posição crítica. Inesperadamente, o artista passou a ser a possibilidade seguinte. Contudo, isso significaria deixar de realizar a qualidade subversiva da arte que a justificaria. Surgiu a perspectiva do rei filósofo oculto, um conselheiro pessoal, e depois, sua institucionalização na forma de uma arquitetura burocrática.Então, vieram os cientistas, com suas verdades universais. Atropelados pela suspeita pós-moderna de a ciência servir a instrumentos antidemocráticos. Por fim, o povo foi visto como possibilidade de um rei filósofo coletivo, a depender da melhora na multiplicidade das instituições democráticas, o que nunca efetivamente ocorreu.Em novo livro, Haig Paipadan, responsável por recuperar e sistematizar historicamente o desenvolvimento do conceito de rei filósofo, passa a rever a expressão e aborda a virada para o autoritarismo, enquanto demonstra o abandono do conceito original ser transformado para o de tirania.Do lado de fora dos portõesA diferença surge pela ambição dos autocratas atuais pela riqueza e pela glória, explica, a partir de como manipulam sentimentos como nacionalismo, religião e ideologia. Em sua análise, identifica a complexidade de os tiranos utilizarem autoritarismos e meios democráticos da mesma maneira, confundindo-os com o apoio das tecnologias atuais de propaganda e propagação, gerando maior controle e domínio do imaginário.Isso é possível porque vivemos em uma época de pensamentos binários, simplificados, e os novos reis filósofos, agora tiranos, precisam ser líderes simples, aparentarem ser poderosos diante da democracia desorganizada e desacreditada e terem como força e estratégia a imprevisibilidade. Por isso, indomáveis e seguros em suas posições.A incontinência fecal de Trump sobre qualquer um que lhe questione ou confronte deixou de ser uma metáfora escatológica ao ser proposta por ele mesmo como ação contra seus inimigos. É preciso admitir, mesmo vindo dele, a imprevisibilidade se confirmar, e a tirania a ser encenada sem pudor na forma idealizada de um vídeo que lhe revela imperador.O impacto no imaginário de seus apoiadores é gigantesco. Divertem-se, como se tivessem qualquer intimidade e importância junto ao tirano que idolatram. Assistem-no e reproduzem em seus próprios comportamentos o aprendido. Mimetizam-no com orgulho, como se fossem, enfim, o povo escolhido para ser o conselheiro do rei filósofo. Mas não o são.Alguns já perceberam isso e se indagam como chegaram a acreditar no que acreditaram. Outros, seguem cegos, sem entenderem, no entanto, que, seja o mais simplório e inútil ser ou o mais envaidecido líder da extrema-direita, dificilmente frequentarão o futuro salão de baile. O mais provável é serem mesmo atingidos pelos excrementos da tirania enquanto aguardam do lado de fora dos portões.Sugestões de leituras:> The Modern Tyrant: Authoritarian Leadership in Theory and Practice, de Haig Patapan. Edinburgh University Press, 2026 (lançamento previsto).> Modern Philosopher Kings, de Haig Patapan. Edinburgh University Press, 2023.> Sobre a Tirania, Vinte Lições do Século XX, de Timothy Snyder. Relógio d’Água, 2017.> Alguém disse totalitarismo?, de Slavoj Žižek. Boitempo Editorial, 2014.
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