Musk intensifica confronto com a Administração Trump e coloca em risco o seu império
Nos próximos anos, Elon Musk quer levar astronautas à Lua num foguetão de 123 metros, lançar uma frota de veículos autónomos sem volante nem pedais e transformar, de um dia para o outro, milhões de Teslas em carros capazes de se conduzir sozinhos de modo “mais agressivo”. Mas o fundador da SpaceX e da Tesla sabe que as suas ambições dependem de ultrapassar barreiras regulamentares e resistências vindas de várias frentes nos Estados Unidos: da NASA ao Departamento dos Transportes, passando pela Administração Federal da Aviação (FAA) e pela autoridade norte-americana de segurança rodoviária (NHTSA, na sigla inglesa).Ainda assim, Musk decidiu apontar baterias a quem tutela todas essas entidades — Sean P. Duffy, secretário dos Transportes e administrador interino da NASA —, reavivando um confronto público com a Administração Trump através de ataques publicados na sua rede social X. “Ter um administrador da NASA que literalmente não sabe nada sobre foguetões e naves espaciais mina o programa espacial americano e coloca em risco os nossos astronautas”, escreveu Musk na quarta-feira. Nos bastidores, o empresário parece ir ainda mais longe do que nas palavras.“Modo Mad Max”: a condução agressiva regressaNos últimos dias, a Tesla activou discretamente um novo modo de condução, baptizado Mad Max, uma variante do sistema avançado de assistência ao condutor. A marca garante que o objectivo é permitir uma condução mais confiante e fluida, mas há relatos de carros que passam sinais de stop sem parar e excedem os limites de velocidade.A anterior Administração Biden tinha imposto limites a esse tipo de comportamento, forçando em 2022 a Tesla a retirar uma função que permitia atravessar cruzamentos sem paragem completa — uma actualização que levou a Tesla a ter de fazer alterações de software em mais de 50 mil veículos. Agora, o regresso de uma funcionalidade semelhante, em plena paralisação parcial da administração pública norte-americana (o chamado shutdown), reacendeu as preocupações dos reguladores.A NHTSA, autoridade federal responsável pela segurança rodoviária, tutelada por Duffy, confirmou ao Washington Post que já iniciou um inquérito sobre o modo Mad Max. “Estamos em contacto com a Tesla para recolher mais informações”, declarou um porta-voz. A mesma entidade abriu este mês outra investigação, após relatos de violações de trânsito com o modo Full Self-Driving activo — incluindo passagem de semáforos vermelhos e invasão da faixa contrária.O confronto de Musk com responsáveis da Administração Trump contrasta com o início do ano, quando o multimilionário era um dos conselheiros mais próximos do Presidente norte-americano, depois de ter contribuído com centenas de milhões de dólares para a sua campanha nas eleições de 2024. A relação de proximidade fazia supor que o empresário teria caminho aberto para os seus projectos mais ambiciosos.
Mas uma recente sucessão de provocações — que se estende a outros membros do Governo, como o conselheiro económico Peter Navarro, o secretário do Tesouro Scott Bessent e o próprio Trump — levou alguns investidores a acusá-lo de estar a sabotar os seus próprios negócios. “Está a lutar contra quem tem o poder de decidir”, lamenta Ross Gerber, accionista da Tesla e um dos críticos mais vocais de Musk.O Departamento dos Transportes recusou comentar se Duffy pretende responder às críticas ou se estas terão impacto nas suas decisões. Nem a Tesla, nem a SpaceX, nem Musk responderam aos pedidos de esclarecimento do Washington Post.Corrida à Lua: SpaceX sob pressãoA tensão entre Musk e Duffy agravou-se quando este último sugeriu que a missão Artemis III, destinada a colocar novamente astronautas na Lua, poderia abrir-se a outros fornecedores além da SpaceX. A empresa de Musk recebeu um contrato inicial de 2,89 mil milhões de dólares, mas tem enfrentado atrasos e contratempos técnicos.Entre os potenciais concorrentes está a Blue Origin, fundada por Jeff Bezos, dono do Washington Post. A NASA confirmou que está a avaliar propostas tanto da SpaceX como da Blue Origin, pedindo ainda a outras empresas ideias para acelerar a missão. “O objectivo, definido pelo Presidente, é garantir que os Estados Unidos regressam à Lua antes da China”, afirmou uma porta-voz da agência.A missão Artemis III exigirá que o foguetão Starship seja reabastecido em órbita — uma operação nunca concretizada por qualquer agência espacial. Especialistas duvidam que a SpaceX consiga cumprir o calendário, já adiado para 2027, e alguns antecipam um novo adiamento para 2028.
Desde 2023, a Starship foi testada 11 vezes, com resultados mistos: o primeiro voo terminou em explosão, e apenas um teste recente conseguiu recuperar um propulsor com sucesso antes de novos falhanços. “A SpaceX está muito atrasada no cumprimento das etapas exigidas antes da Artemis III”, resume Todd Harrison, analista do American Enterprise Institute.Entretanto, Duffy continua a insistir que a NASA precisa de “acelerar” para chegar à Lua antes de Pequim. Musk respondeu com memes e insultos, chamando-lhe “Sean Dummy”, e reforçou o clima de hostilidade.A ironia é que ambos dependem um do outro: a SpaceX vive de contratos públicos multimilionários e a NASA precisa dos seus foguetões para levar astronautas ao espaço. Mesmo assim, Musk continua a provocar quem controla a alavanca das suas ambições — e isso, dizem os analistas, pode acabar por ser o seu maior risco.Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post









