CIÊNCIA

Morte de Naroditsky levanta a cortina para o drama e <em>doping </em> no xadrez

Daniel Naroditsky, uma jovem estrela norte-americana do xadrez, morreu, em circunstâncias ainda por apurar, noticiou o Charlotte Chess Center na terça-feira. Desde então, as tensões e acusações no mundo do xadrez intensificaram-se, nomeadamente acerca de Vladimir Kramnik, outro ás da modalidade, que tem sido acusado de assediar Narodistky ao longo do último ano.A Federação Internacional de Xadrez (FIDE, na sigla em inglês) está, segundo a Reuters, a considerar acções disciplinares contra Kramnik. O jogador russo — o melhor do mundo entre 2000 e 2007 e ídolo de um jovem Naroditsky — acusa frequentemente outros jogadores de fazerem batota ou usarem drogas, mesmo não apresentando provas. Ultimamente, Narodistky, também conhecido por Danya, era o seu alvo principal. Arkady Dvorkovich, presidente da FIDE disse, citado pela BBC, que todas as publicações relevantes de Kramnik tinham sido guardadas pela Comissão de Ética e Disciplina.E se as constantes acusações de Kramnik outrora eram apenas motivo para que não fizesse muitos amigos, a morte de Danya e a suspeita de que se tratou de um suicídio mudou o panorama. Magnus Carlsen, cinco vezes campeão do mundo de xadrez, num vídeo em directo, admitiu que “apesar de parar a batota na modalidade ser uma necessidade”, os “ataques sem provas tinham de cessar”. Carlsen acrescentou, ainda, algum arrependimento por não ter defendido Danya em público, apesar de o ter feito várias vezes em privado.Nihal Sarin também recorreu ao X para dizer, peremptoriamente, que “isto tem de parar”. O grão-mestre indiano relembrou que “quando figuras respeitadas espalham acusações infundadas, são destruídas vidas” e que é preciso “aceitar responsabilidade” por este tipo de acções. De forma menos comedida, Hikaru Nakamura — cinco vezes campeão nacional dos EUA — disse, também num vídeo em directo enquanto jogava: “Já disse uma vez e volto a dizer. Vai-te foder, Kramnik. E apodrece no inferno”.
The relentless, baseless accusations and public interrogations he faced in recent months caused him immense pressure and pain. This has to stop. When respected figures spread unfounded allegations without accountability, real lives are destroyed. (2/3)— Nihal Sarin (@NihalSarin) October 20, 2025

O próprio Naroditsky já tinha denunciado o impacto das acusações de Kramnik na sua saúde mental. Em 2024, num directo na Twitch, falou da “negatividade constante no online” e como isso lhe causava burnout e ansiedade. Ainda no sábado passado, naquele que seria o seu último vídeo em directo, assumia que “desde que as coisas do Kramnik começaram, sempre que começo a sentir-me bem, as pessoas assumem as minhas piores intenções e isso tem tido um efeito duradouro”, cita a Reuters.No mundo do xadrez, há duas acusações frequentes: batota e doping. E Kramnik tem alimentado a narrativa sobre ambas, principalmente desde que a pandemia covid-19 levou a que vários dos melhores jogadores do mundo começassem a jogar online e que isso aumentasse as suspeitas sobre casos de batota ainda mais difíceis de comprovar.Em 2023, Kramnik viu a sua página do popular site chess.com banida temporariamente por a usar para espalhar alegações infundadas. No ano seguinte, publicava nas redes sociais uma lista de jogadores com o título “Cheating Tuesdays” (“Terças de Batota”, em português). Um dos visados, David Navara chegou a confessar que as acusações constantes fizeram-no ter pensamentos suicidas, relembra a ABC.Nem a morte de Danya veio acalmar a cruzada de Kramnik que, desde terça-feira, continua a recorrer ao X para falar do clima de batota, da existência de uma alegada “máfia do xadrez” e para alertar para o uso de drogas e doping entre jogadores. Mas o que é, afinal, doping no xadrez?O doping no xadrez é regulado pela World Anti-Doping Agency (WADA) e a expressão, comummente utilizada noutros mundos desportivos e que nos remete para o uso de esteróides, no xadrez —onde a quantidade de músculo que mexe na peça não é relevante — há outras substâncias mais problemáticas.Certas concentrações de, por exemplo, Adderall e Ritalina, conhecidas anfetaminas tendencialmente usadas em diagnósticos de PHDA (Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção), são consideradas doping na modalidade. À lista juntam-se modafinil e outros, por vezes usados para tratamento de perturbações de sono e, portanto, para ajudar a manter estados de alerta. No fundo, como lhes chama a WADA, drogas de “melhoramento cognitivo”. Apesar de não serem consideradas doping, altas concentrações de cafeína e codeína (presente em xaropes para a tosse) podem fazer soar alarmes de monitorização.

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