CIÊNCIA

Ex-director do Museu da Presidência da República mais perto de entrar na cadeia

O ex-director do Museu da Presidência da República, condenado por ter subtraído várias peças do espólio que esteve à sua guarda durante década e meia, ficou mais perto de entrar na cadeia: o Tribunal da Relação de Lisboa manteve-lhe a pena efectiva de seis anos e meio de prisão que lhe havia sido aplicada em primeira instância.Quando, em Junho de 2016, a Judiciária desencadeou a chamada Operação Cavaleiro, em homenagem aos títulos honoríficos concedidos ao historiador, encontrou no seu apartamento, em Lisboa, mas também na residência dos pais, em Portalegre, dezenas de peças de mobiliário, tapetes e quadros. Em alguns casos, tinha-as comprado anos antes ao Palácio de Belém por atacado, por um preço inferior ao de mercado, através de empresas montadas por amigos para esse efeito, depois de ter sido o próprio Diogo Gaspar a indicá-las para abate; noutros tê-las-á simplesmente levado para casa.No início do julgamento, que começou em 2020, mas só teve desfecho três anos depois, Diogo Gaspar disse ter sido alvo de uma cabala destinada a acabar com a sua carreira. E se nuns casos admitiu ter comprado a um antiquário material que este tinha por seu turno adquirido à Presidência da República, noutros alegou ter sido ele próprio e a sua família a emprestarem objectos à instituição ­— serviços de jantar, peças de prata, candelabros. Acusado de ter contratado amigos íntimos para colaborarem com a instituição que dirigia, o arguido defendeu-se contra-atacando, e acusando o Ministério Público de “preconceito discriminatório homofóbico”.Ao condenarem o historiador e três cúmplices seus pelos crimes de peculato, participação económica em negócio, abuso de poder, tráfico de influência e falsificação de documento, os juízes de primeira instância observaram que Diogo Gaspar traiu durante muitos anos a confiança que lhe foi depositada por antigos presidentes da República, nomeadamente, Jorge Sampaio e Aníbal Cavaco Silva, porque “quis ter mais que aquilo a que tinha direito”. E não escamotearam a sua competência profissional: “Teve sem dúvida um trabalho meritório, e teve condecorações de dois presidentes da República. Teve uma actividade sem dúvida de relevo. Era uma pessoa à partida digna de confiança.”Em 2008, o museu foi distinguido com o Prémio Europa Nostra pelo seu trabalho de investigação e pela exposição Do Palácio de Belém. Nesse ano, também foi nomeado para o European Museum of the Year Award (EMYA).Quando o museu abriu as portas ao público, a 5 de Outubro de 2004, Diogo Gaspar já era o único a ditar as regras da casa onde entrara três anos antes. Vindo da Torre do Tombo tinha vencido um concurso público ao qual concorreram outros cinco candidatos. Com uma personalidade que muitos descrevem como persuasiva e dinâmica, teve ao seu dispor, para gerir o museu, orçamentos que variaram entre 1,1 e 1,8 milhões de euros. Tornou-se conhecido o seu empenho na colecção de presépios de Maria Cavaco Silva, que ajudou a crescer. “Transformámo-nos num dos mais importantes museus para o estudo da História contemporânea do país”, dizia com orgulho o historiador em 2011.Como o Tribunal da Relação de Lisboa lhe manteve a condenação a seis anos e meio de cadeia, o historiador já não pode recorrer para o Supremo Tribunal de Justiça, ao contrário do que aconteceria se a pena fosse mais elevada. Resta-lhe pouco mais do que um derradeiro apelo para o Tribunal Constitucional para evitar a entrada na prisão.

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