Letra Pequena: linhas que nos separam e dividem
Quando éramos nómadas, as únicas fronteiras eram naturais: mares, montanhas, glaciares, pântanos. Depois de nos sedentarizarmos, surgiu a noção de território e a vontade de o proteger, fosse de animais predadores ou de outros grupos humanos. Mais tarde, surgiram as cidades-Estado.Na Idade Média, “os países não tinham necessariamente fronteiras precisas, mas zonas fronteiriças, zonas-tampão”, escreve o historiador de Arte Karim Ressouni-Demigneux neste livro.Num breve capítulo denominado “territórios fragmentados”, fala das sociedades feudais na Europa: “As mulheres e os homens dessa época tinham o sentimento de estarem ligados a um feudo, um território com limites precisos e conhecidos, e não tanto ao país, cujo tamanho ignoravam por completo.”Do Tratado de Tordesilhas, celebrado entre Portugal e Espanha (1494), à “geometria colonial”, às “fronteiras efémeras”, “fontes de conflito”, aos muros, postos de controlo, como o “checkpoint Charlie”, “deixar a sua casa: migrações”, expõe-se neste livro com clareza, mas não simplicidade o nascimento e o desenho das linhas que delimitam os países.Geografia, cartografia e guerraFoi no séc. XVIII que se deu o grande impulso da cartografia. “As cartas tinham então uma precisão de 1/80.000, o que significa que um centímetro no mapa correspondia a oitocentos metros na realidade.”
“O que é uma fronteira?”
Karine Maincent
Vem à memória o livro do geógrafo Yves Lacoste A Geografia Serve antes de mais para Fazer a Guerra (Iniciativas Editoriais, Lisboa 1977). Fronteiras dá-nos conta de alguns conflitos actuais baseados na disputa de territórios, como o israelo-palestiniano e o da Rússia e da Ucrânia.No final do livro, salvaguarda-se que “os factos apresentados refletem informações disponíveis à época da sua publicação”, originalmente em 2024, em França.Karim Ressouni-Demigneux, que gosta de explorar temas como identidade e inclusão nos seus livros para jovens, nasceu em 1965 e é filho de pai marroquino e mãe da Borgonha. China e Itália são destinos frequentes nas suas viagens, pois viveu em ambos os países.Considera como bons exemplos de facilidade de circulação de pessoas e mercadorias a União Europeia e o Espaço Schengen.
“Homo sapiens, um animal sem limites”
Karine Maincent
Também dá exemplos de “fronteiras engraçadas”: “Se estivermos no meio da ponte que atravessa o Zambeze para ligar o Botsuana e a Zâmbia, podemos tocar em quatro países diferentes, já que no meio do rio se unem igualmente as fronteiras da Namíbia e do Zimbabué.”Karine Maincent ilustra o livro com lápis de cor, pastel e colagens, dando conta das diferentes paisagens de cada região e não se esquivando a desenhar também a tristeza e o conflito. Mas é uma obra visualmente alegre.Nasceu em 1983, é formada em Belas-Artes, mora em Nancy (França) e, além de trabalho de ilustração, direcção de arte e design, orienta muitas oficinas para crianças. Diz que “os passaportes têm muito potencial artístico”.Um bom livro que nos leva a pensar ser pena que o atravessar de fronteiras tenha deixado de ser sobretudo uma aventura para passar a ser tantas vezes uma questão de sobrevivência. E que não fica assegurada.
Texto: Karim Ressouni-Demigneux
Ilustração: Karine Maincent
Tradução: Ana Rita Mendes
Paginação e capa: adaptação de Paula Catalão
Edição: Lilliput
72 págs., 17,45€ (online 15,71€)
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