CIÊNCIA

Escolher vinho com o Vivino é deixar o algoritmo decidir

Quem nunca foi ao supermercado, abriu o Vivino e digitalizou o rótulo de uma garrafa à procura de ouro, uma classificação acima de 4? Quase conseguimos ouvir um “Eureka!”, sobretudo se ainda houver desconto. E lá vamos nós, prontos para impressionar no jantar com amigos. Mas quando o vinho chega à mesa, percebemos: é bom, sim, aromático e equilibrado, mas rapidamente esquecível.E lá continuamos neste ciclo de vinhos comerciais e agradáveis, que nos relaxam a mente como um filme da Fox Life num domingo à tarde.Na primeira aula do mestrado em Enologia, o professor Malfeito Ferreira deu-nos, numa prova às cegas, dois vinhos. A resposta foi unânime: o primeiro, mais frutado e redondo, parecia melhor; o outro foi comentado como possivelmente defeituoso. Qual não foi a nossa surpresa quando, após a discussão, ele revelou que o primeiro era um Moscatel de Palmela, simples e comercial, e o segundo um Haut-Médoc de Bordéus, uma garrafa que valia mais de 50 euros.Significa isso que o sistema de atribuição de qualidade dos vinhos estava enganado e que os vinhos de Bordéus eram sobrevalorizados? Não necessariamente. O que não sabíamos era reconhecer e avaliar as propriedades estéticas do vinho, os atributos que fazem dele uma arte, tal como a literatura ou a música.Essas propriedades incluem a complexidade dos vinhos de Bordéus ou de um belo vinho do Douro, a presença de aromas mutáveis que evoluem com o tempo e ainda a riqueza cultural que representam, o clima, as tradições, o famoso “terroir”. Mas tudo isso nos era invisível. Primeiro, porque fazíamos uma prova às cegas. Segundo, porque ainda não conhecíamos o contexto.Se pensarmos bem, educação e contexto são importantes para reconhecer e apreciar a arte, no vinho ou noutro campo qualquer. Basta recordar as aulas de Português, quando estudámos Os Maias, de Eça de Queiroz. A professora realçou os recursos expressivos, mas também nos falou da Lisboa e do Portugal da época. Esse contexto foi fundamental para compreender a crítica social e a ironia do autor.O encanto do primeiro vinho explica-se pela familiaridade, a mesma sensação que temos ao ouvir aquela música que passa constantemente na rádio. Um Despacito, como disse o professor. A nossa incapacidade de apreciar o segundo vinho revelava, sobretudo, imaturidade para compreender um Mozart.O problema não são os “Mozarts” caros, que alguém há-de exibir como símbolo de estatuto. O verdadeiro problema são os “Van Goghs” que ficam na prateleira, à espera da morte do artista para lhes darmos valor.E deixo a reflexão: estaremos a beber hits de verão, deixando os verdadeiros “Mozarts” para trás, perdidos no algoritmo destas aplicações? Ao confiarmos exclusivamente nas notas do Vivino, não estaremos a trocar a descoberta pela conveniência e a profundidade pelo imediatismo?

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