CIÊNCIA

Véronique Nichanian abandona Hermès após 37 anos como directora criativa

É o final de um reinado numa das mais exclusivas casas de moda. A criadora de moda Véronique Nichanian vai deixar o cargo de directora criativa da linha masculina da Hermès após 37 anos, confirmou a marca de luxo nesta quinta-feira. O anúncio foi feito pela própria numa entrevista ao jornal francês Le Figaro, onde avança que a última colecção será apresentada em Janeiro na Semana da Moda Masculina de Paris.A designer de 71 anos explicou que a decisão de deixar o cargo não foi tomada de ânimo leve e tem vindo a ser discutida nos últimos dois anos com o CEO da Hermès, Axel Dumas, e o director artístico, Pierre-Alexis Dumas — ambos descendentes do fundador Thierry Hermès, que criou a maison em 1837. “A Hermès teve a amabilidade de me deixar escolher o momento certo para me afastar”, declara ao diário parisiense. “Agora parece ser o momento certo para passar o testemunho.”“Agradecemos calorosamente a Véronique pelo seu olhar, a sua visão, a sua generosidade, a sua energia e a sua curiosidade. Impulsionada pelo talento, convicção e capricho, ela guiou o destino do homem que caminha com charme. O sucesso do universo masculino deve-lhe muito”, reagiu a casa de luxo em comunicado nesta sexta-feira.


A última colecção desenhada por Véronique Nichanian será apresentada em Paris no próximo dia 24 de Janeiro
Vincent Tullo/Hermes

A Hermès apenas confirmou a saída de Nichanian, sem revelar quando pretende anunciar um substituto para a criadora que chegou à etiqueta em 1988 vinda da Cerruti. “A casa cresceu significativamente ao longo dos anos, mas, no seu âmago, continua a ser a mesma. Ainda sinto a sensação de uma família que depositou a sua confiança em mim, embora, claro, agora seja uma família muito maior”, acrescenta a designer, lembrando que a Hermès é um bastião de independência no mundo da moda dominado por conglomerados de luxo.Nichanian atribui esse sucesso também à abordagem de exclusividade em que está assente o negócio, que não faz grandes manobras criativas, mas faz seu apanágio os materiais de luxo e um guarda-roupa clássico e elegante, mas leve — sinónimo da sua assinatura criativa. “Sempre me senti feliz aqui. Partilhamos os mesmos valores, em particular um profundo respeito pelo artesanato, que acredito ser um valor para o futuro”, reforça.A criadora explica que um dos motivos por que decidiu abandonar o cargo se prende com a velocidade com que a moda é feita hoje por comparação a 1988, permitindo menos tempo para a exploração criativa pela qual sempre pautou o seu trabalho. E declara: “Continuo a adorar este trabalho. No entanto, penso que, para o exercer da forma de que gosto, é necessário cada vez mais tempo — e, actualmente, quero dedicar esse tempo a outras coisas.”


Ao longo dos 37 anos que Véronique Nichanian esteve ao leme das colecções masculinas, a Hermès cresceu ao ponto de se tornar um dos maiores negócios do luxo com lucros de 15,2 mil milhões de euros em 2024, lembra a Women’s Wear Daily. Aliás, a casa é dos exemplos de sobrevivência perante a crise do luxo, que continua a prosperar, enquanto a Kering e a LVMH registam perdas nos segmentos de moda.A marca ainda não apresentou os resultados do terceiro trimestre do ano, que poderão apresentar algum recuo na trajectória de crescimento. No segundo semestre de 2025 cresceu 9%, somando ao crescimento constante de 8% para um lucro de oito mil milhões de euros no semestre. “Num contexto económico e geopolítico mais incerto, o grupo continua o seu desenvolvimento com confiança, graças ao modelo artesanal altamente integrado, à rede de distribuição equilibrada, à criatividade das colecções e à fidelidade dos clientes”, declarava o CEO, Alex Dumas, no comunicado de apresentação dos resultados, em Agosto.Mas a novidade criativa na Hermès após a saída de Véronique Nichanian poderá ainda impulsionar as vendas, como é habitual nas casas de moda quando são apresentados novos directores criativos (Jonathan Anderson na Dior e Matthieu Blazy na Chanel acabam se estrear e Maria Grazia Chiuri foi anunciada para a Fendi). Aliás, a renovação de designers é uma das estratégias mais recorrentes para combater a estagnação de vendas, sendo que é pouco habitual um criador ficar tanto tempo a desenhar na mesma marca como Nichanian, que era a mais antiga directora criativa em Paris — em Itália, Ian Griffiths está na Max Mara desde 1987.

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