Portugal: um porto seguro para as vacinas
Uma das mais importantes ferramentas de prevenção de doenças é a vacinação. Se procurarmos em qualquer motor de busca da Internet quais as maiores conquistas ou avanços médicos de todos os tempos, encontraremos sempre a vacinação.A vacinação é a única intervenção médica administrada a pessoas saudáveis para prevenir futura doença, e tem tido bastante sucesso. Por exemplo, em 1980 foi erradicada a varíola, e muitas outras doenças terríveis praticamente desapareceram do mapa. No entanto, uma das consequências deste sucesso foi perversa. Apesar de muitas doenças infeciosas terem deixado de fazer parte do nosso quotidiano, começou a expandir-se a desconfiança e consequente hesitação à vacinação. Este paradoxo é uma área de estudo bastante ativa, onde se tenta explicar as razões da hesitação à vacinação. Numa época em que as intervenções médicas, o acesso a cuidados de saúde e a medicamentos alcançaram um nível sem precedentes na história, começam a surgir grupos de pessoas que recusam esta intervenção.Desde a pandemia de covid-19 que o interesse sobre vacinas e a ciência para as produzir apareceu na praça pública como nunca antes visto. Durante décadas fomos habituados a ser vacinados sob o Programa Nacional de Vacinação sem grande contestação face à composição química das vacinas. No entanto, para as vacinas contra o SARS-CoV-2 falava-se frequentemente em vacinas de mRNA de vetores virais e nomeavam-se todos os produtores, esquemas de vacinação, número de doses, entre outros. O interesse sobre a vacinação transbordou de um assunto meramente técnico para uma discussão de café onde todos participavam. E isso é excelente! Discutir ciência, progresso científico e ter interesse nestas tecnologias! Mas, em paralelo, a desconfiança à vacinação também aumentou dramaticamente.Sempre existiu desconfiança em relação à vacinação, desde a primeira vacina feita por Edward Jenner em 1796 contra a varíola, e sempre vai continuar a existir. A única forma de combater a desconfiança é com mais informação clara, transparente, e mais educação. A vacinologia é uma área pluridisciplinar e bastante complexa que inclui microbiologia, imunologia, biologia molecular, genética, epidemiologia, saúde pública, ensaios clínicos, engenharia industrial, logística e distribuição de medicamentos em cadeia de frio, economia, ética e naturalmente, medicina. Os profissionais de vacinologia deverão ter uma noção clara de toda esta cadeia, sendo sempre um especialista numa destas vertentes e contribuindo assim para o todo. Por isso, é fundamental investir na formação de profissionais de saúde capazes de comunicar com rigor e sensibilidade sobre imunologia e vacinologia, assumindo um papel essencial no esclarecimento das populações e no reforço da confiança nas vacinas.Portugal é um dos países da Europa e do mundo que aceita a vacinação com maior facilidade, por contraste com países como a França, onde a hesitação à vacinação é muito elevada. Este fenómeno é estudado por especialistas na área e representa uma oportunidade única para o país. Assim sendo, Portugal oferece condições únicas para o desenvolvimento de projetos de investigação e ensaios clínicos para o desenvolvimento de novas vacinas.A presente Administração norte-americana tem retirado apoio ao desenvolvimento de vacinas, particularmente de vacinas de mRNA, onde foram cancelados 500 milhões de dólares em projetos que estavam a decorrer. Trata-se de um ataque a alguns dos laboratórios mais importantes do mundo a desenvolver futuras vacinas e, de forma mais abrangente, um ataque ao próprio espírito científico e liberdade de pensamento que os EUA sempre possuíram e que serviu de inspiração e exemplo para todo o mundo.Como consequência dos cortes da Administração norte-americana, a Comissão Europeia, pela voz de Von Der Leyen, atribuiu 500 milhões de euros para aplicar durante o período de 2025-2027, para apoiar cientistas norte-americanos que queiram deslocar-se e transferir as suas atividades científicas para a Europa. Embora este pacote seja motivo de regozijo por apoiar a ciência desenvolvida no mundo ocidental, e demonstre um sinal de abertura e aceitação destes cientistas, trata-se de um pacote modesto comparativamente com outros investimentos recentes da União Europeia, e comparativamente com o orçamento anual do Instituto Nacional de Saúde americano (NIH, na sigla original), que são 48 mil milhões de dólares para este este ano fiscal.Finalmente, com o sucesso que Portugal tem tido nos últimos anos a atrair americanos, particularmente para a cidade de Lisboa, em combinação com o bem conhecido fenómeno de aceitação da vacinação em Portugal, e com os apoios europeus, deve criar-se em Lisboa um novo centro de investigação em vacinologia e seremos novamente pioneiros numa tecnologia de ponta, para voltarmos a “navegar por mares nunca d’antes navegados”.O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990










