A batalha da China contra a “maldição dos 35” no mercado de trabalho
Pela primeira vez em 30 anos, a China vai aumentar o limite máximo de idade para a admissão em cargos da função pública, numa tentativa de reter durante mais tempo os trabalhadores mais experientes no mercado de trabalho e de combater os efeitos do envelhecimento populacional.O novo regulamento, anunciado esta terça-feira, eleva de 35 para 38 anos a idade limite para a maioria das vagas no exame nacional de serviço civil, que este ano abrirá 38.100 novos lugares, segundo a Administração Estatal da Função Pública. Para candidatos com mestrado ou doutoramento, o limite sobe dos 40 para os 43 anos.A medida, segundo o jornal Global Times, “reflecte a abordagem gradual do país em relação ao adiamento da idade legal da reforma”. Desde o início do ano, o Governo chinês já tinha aumentado a reforma para os homens de 60 para 63, para as mulheres com empregos administrativos de 55 para 58 anos, e para trabalhadoras dos sectores industriais de 50 para 55 anos.A alteração coincide com o agravamento dos desafios demográficos da China: estima-se que, até 2035, mais de 40% da população — cerca de 400 milhões de pessoas — terá 60 anos ou mais, um número equivalente à soma das populações do Reino Unido e dos Estados Unidos. As medidas procuram reter trabalhadores qualificados num país que envelhece rapidamente, tendência que pode vir a destabilizar o mercado de trabalho do país.Quebrar a maldição dos 35O ajuste na lei laboral procura também combater a discriminação etária que tem vindo a aumentar perante um mercado de trabalho altamente competitivo, fenómeno que é apelidado de “maldição dos 35” nas redes socais.A frequente preferência por candidatos com menos de 35 anos começou por afectar trabalhadores em indústrias que evolvem rápido, como é o caso do sector das Tecnologias de Informação. Algumas destas empresas preferem habitualmente contratar jovens, que consideram ter novas ideias e mais energia num mercado que é altamente competitivo.Uma jovem chinesa, Han, contava à CNN em 2023 que após perder o emprego no sector de design de tecnologia esperou que os dez anos de experiência fossem uma garantia de progressão na carreira. No entanto, após concorrer a centenas de trabalhos na área, a jovem acabou por arranjar um part-time como estafeta. Han disse na altura acreditar que a dificuldade para arranjar trabalho estava associada à sua idade: 34 anos.O estigma acabou por alastrar a todo o mercado de trabalho, sendo que hoje em dia muitas empresas frequentemente impõem requisitos de idade nos anúncios de emprego, como “menos de 35 anos” ou “nascido depois de 1990”, de acordo com o jornal Think China. Um legislador do governo chinês, Jiang Shengnan, chegou a referir-se ao fenómeno como uma “discriminação invisível” num encontro do parlamento. De tal forma que chegaram a existir rumores nas redes sociais de hostels em Pequim a recusarem viajantes com mais de 35 anos; ou de um templo taoista que definiu os 35 anos como idade limite para admissão de novos monges.Desemprego entre os jovens chinesesAs medidas procuram também amenizar a situação de um mercado de trabalho cada vez mais competitivo para os jovens recém-licenciados. De acordo com o South China Morning Post, a taxa de desemprego entre os jovens nas áreas urbanas da China subiu no mês passado para o nível mais alto desde que os dados foram revistos em 2023. Numa altura em que a guerra comercial com os EUA se intensifica, as incertezas económicas e geopolíticas levam os jovens chineses a procurar a estabilidade e a segurança dos empregos na função pública, tendência que já se verificou em ocasiões passadas.Os exames de admissão para o sector público na China estão entre os mais difíceis do mundo (juntamente com a Índia), sendo que em 2024 um número recorde de 3,4 milhões de chineses inscreveu-se e passou na fase inicial de selecção para o exame nacional de acesso à função pública.










