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O PS voltou mesmo?

Ainda a noite eleitoral ia no adro quando José Luís Carneiro afirmou: o PS voltou. A declaração, em parte, faz sentido. Na ressaca de um cataclismo nas últimas legislativas, a resistência do bipartidarismo na política local é uma boa notícia, uma recompensa pelo esforço de recentramento dos socialistas (que disputaram as autarquias mais relevantes com o PSD) e um sinal de que os partidos do regime lá vão reagindo à contestação ao próprio regime. Além disso, o PS acumulou um conjunto de conquistas significativas, designadamente em cinco cidades — o que lhe permite presidir a metade das capitais de distrito. Mas será mesmo que as autárquicas revelaram um regresso da força eleitoral dos socialistas ou, pelo contrário, mostram que há problemas estruturais que ajudam a compreender os sucessivos recuos eleitorais?Uma das singularidades das autárquicas é não se tratarem de uma única eleição, mas de 308 escolhas às quais se juntam outras 3091 para as freguesias, todas elas marcadas por especificidades locais. Não se elege apenas o partido para a câmara ou para a freguesia; há uma certa intimidade com os candidatos, em particular nos meios mais pequenos, que está para além de clivagens ideológicas. Por isso mesmo, grandes extrapolações nacionais são pouco avisadas e, também por isso, os partidos neopopulistas têm dificuldades de afirmação na política local — que depende de uma proximidade pouco compaginável com agremiações que apresentam tantos candidatos pouco recomendáveis, aliás bem conhecidos dos fregueses.Ainda assim, é possível respeitar as dinâmicas locais, por definição particulares, e fazer leituras nacionais dos resultados. Para este efeito, fiz um exercício simples: considerei os 34 concelhos que compõem as duas áreas metropolitanas e juntei-lhes os do quadrilátero no distrito de Braga, cujas características são semelhantes às zonas mais urbanas que circundam Lisboa e Porto. Os resultados destas 38 eleições, onde vive a maior parte da população portuguesa, revelam uma história pouco prometedora para os socialistas.Em 28 destes concelhos, mesmo quando venceu as eleições, o PS perdeu muitos votos (em vários casos, com perdas em redor dos dez pontos percentuais, preservando várias autarquias por margens curtas). Apenas teve crescimento eleitoral em dez dos 38 concelhos considerados, na maior parte dos casos com variações residuais. Houve seis exceções: os casos das derrotas no Porto e na Póvoa de Varzim e as vitórias reforçadas, a norte, em Matosinhos, Vila do Conde e Felgueiras e, a sul, em Loures. Sintomaticamente, os socialistas perderam quatro destas 38 autarquias e não conquistaram nenhuma.Seria um erro se o PS adotasse o comportamento da avestruz e, perante mais uma manifestação de um problema estrutural — a perda de relevância junto do eleitorado metropolitano —, optasse por enfiar a cabeça na areia e dourar uma realidade que está longe de ser auspiciosa. Até porque as circunstâncias não são favoráveis.À hegemonia cultural da direita no espaço público junta-se uma maioria social evidente, se considerarmos a soma eleitoral de Chega, IL e PSD, tudo promovido por uma dinâmica externa de recuo da social-democracia e de ascensão da direita. Quando os ventos não sopram de feição e os tempos são difíceis, não é avisado alimentar um discurso ilusório sobre a realidade, que, como é sabido, se encarrega de regressar à primeira oportunidade. Como, aliás, as eleições presidenciais demonstrarão.O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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