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<em>Tanz im August</em>, Berlim ao Sol

A partir de Gesundbrunnen fez-se o mundo, i.e., daí originou a impressão com que fiquei de Berlim, a que arrisco denominar da cidade da harmonia. Felizmente fui abençoado com um sofá, uma bicicleta e mais importante ainda, boa companhia, local até. O que isto implica é que as habituais atracções turísticas, interessantes claro, mas que são relegadas para segundo plano porque o que se impõe é experienciar a cidade à lá berlinense. E que melhor sítio para começar senão no Currybaude da estação?Entram batatas fritas, salsicha com molho caril e ketchup, vagueando depois por Tempelhofer Feld para observar todos os ciclistas como que a passearem-se no céu – que na verdade é uma antiga pista de aviação.Segue-se um mergulho na piscina pública Sommerbad Neukölln, onde a freikörperkultur coexiste com o burkini, o que aos olhos do saloio que escreve isto fez com que todas as teorias de conspiração online desvanecessem e a fé na humanidade (ou no humanismo) fosse restaurada. Cuidado só para não comerem gelados à beira da água porque aí sim, serão chamados à atenção, haja limites.No entanto, a impressão geral é de uma cidade sem qualquer tipo de entraves. Aliás, até facilita a vida. Crise de habitação? Claro, está impossível ter casa em qualquer cidade.Mesmo assim, em Berlim, pode-se chegar nu com umas moedas no bolso. Passa-se num instante perto da Karl-Marx-Allee onde há sempre roupa para quem quiser levar, encontra-se uma padaria turca e compra-se por um euro “pide”, um pão turco enorme que dá para três dias e em algum Späti (minimercado com esplanada) alguém te arranjará um Club-Mate (ou uma cerveja se preferirem) que dá para duas refeições. A nós até nos ofereceram “baklavas” de pistáchio.


Uma “Pizza turca”
Guilherme Machado

A propósito, a comida turca foi uma experiência por si só: “içli pide”, vulgo pizza turca, e não sem falhar o chá preto, pré-condição de um bom dia nesta cidade. Sobre a presença turca ou muçulmana na Alemanha no geral recomendo o filme de Fassbinder O Medo Come a Alma e está a conversa feita.Ora, depois deste pequeno-almoço, aí sim, já se pode ir trabalhar para a Staatsbibliothek, mais conhecida para mim pela biblioteca do As Asas do Desejo de Wenders, mas não sem antes comer um segundo pequeno-almoço no elegante refeitório.


Staatsbibliothek
Guilherme Machado

Aos livros, seguem-se os autores e assim se passa pelo cemitério Dorotheenstädtischer, onde jaz Hegel. Também Fichte, Brecht e até mesmo o cineasta Harun Farocki.Igualmente entusiasmante, será, por exemplo, ver concertos de free jazz. Em Mitte há o Richten25 onde vimos o jovem saxofonista Chris Pitsiokos e em Neukölln (agora, a zona hip) vimos a pianista lendária Aki Takase no Sowieso.Por toda a Berlim existem também os bares tipicamente alemães, Kneipen, que pelos vistos também vão desaparecendo, tal como a cena de clubbing parece estar a morrer. Tudo está sempre a morrer em todo o lado, mas estranhamente há também sempre uma zona fixe nova em qualquer cidade e aí sim, tudo está a acontecer de novo. Será que daqui a uns tempos a gentrificação expulsará as gentes para a floresta?


O cemitério de Dorotheenstadt

O que sei é que das partes que mais apreciei da cidade foram justamente as zonas verdes. Onde quer que se olhasse, havia árvores, a proteger quem arruma os livros na bicicleta depois de passar pelo alfarrabista Antiquariat Mackensen & Niemann, ou quem acelera pelo jardim Tiergarten, ou à noitinha em direcção à ponte Admiralbrücke em Kreuzberg para ouvir um simpático a tocar kalimba, mesmo ali em cima do canal Landwehr.No que toca a discotecas, evitámos filas e só fomos a uma cave por debaixo duma Kneipe e pessoalmente não desgostei, mas a minha dança é outra.


Na Haus der Berliner Festspiele vimos foi Jungle 정글 pela Korea National Contemporary Dance Company, dirigida por Kim Sungyong, isto no contexto do festival Tanz im August, que foi interessante, mas pouparei os detalhes mais sórdidos.De resto, é fácil uma pessoa perder-se em qualquer cidade e renega-la para sempre, mas tal não aconteceu aqui. Porque a diferença é que em Berlim, até uma perda de tempo sabe bem.Guilherme Machado (texto e fotos)

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